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Messi e Argentina: no país da prata, o craque tenta o sonho dourado que nunca veio

Está é a segunda matéria da série Lado B da Copa América, que trará, semanalmente, sempre às terças-feiras, histórias relacionadas ao torneio que acontece no Brasil em 2019. Nada de esquema tático ou entrevistas de frases feitas, porém. Aqui, o conteúdo irá muito além das quatro linhas...

Os argentinos nunca ficaram tão incomodados com uma seca de títulos.

Desde 1993 sem levantar sequer uma taça, a fila de 26 anos é a maior na história. Os vice-campeonatos da Copa América em 2004, 2007, 2015 e 2016, somados ao segundo lugar na Copa do Mundo de 2014, chegam a ser cruéis. Prata, prata e mais prata...

Confira a matéria completa, em vídeo, no WatchESPN

Como explica a professora Patricia Nigro, da Universidad Austral de Buenos Aires, o nome “Argentina” significa justamente “prata”, mas a história, de fato, não é bem assim.

Quando o navegador espanhol – ou português, sua origem é um mistério – Juan Díaz de Solís chegou, viu que os nativos tinham grande quantidade do minério. Sua equipe escutou sobre uma expedição a Potosí, na Bolívia, e que lá encontrariam uma das maiores reservas do minério no mundo.

Posteriormente, outras expedições espanholas chegaram e deduziram que a prata vinha da própria Argentina. Assim, acabaram batizando o local com a palavra “argentum”, que significa prata em latim.

A prata, assim como ouro e bronze, por exemplo, não está localizada na superfície. Para encontrá-la é necessário tempo, trabalho e exploração profunda. No futebol não é muito diferente: para alcançar seu objetivo é preciso cavar fundo e lapidar o material bruto.

A maior joia da Argentina foi totalmente lapidada fora de seu país. Com 13 anos, Messi foi para o Barcelona. É uma tendência mundial, em que jovens de destaque na América Latina são importados pelos europeus.

O camisa 10 é a referência dos hermanos e atuou em todas as finais perdidas desde 2007. “Messi teve a infelicidade de jogar em um período muito ruim da seleção argentina. Eu diria que foi um período tão ruim do futebol argentino que muitos jogadores de bom nível surgiram, entre eles o próprio Messi, [...] e foram poucos momentos que a Argentina foi de fato competitiva, vivendo muito em função do talento de jogadores como ele”, afirma Mauro Cezar Pereira, comentarista dos canais ESPN.

O próprio Messi reconhece essa situação complicada. “Tive a sorte de ganhar tudo como jogador, em nível individual e no clube. Mas não ter nada com a seleção é muito duro”, conta o camisa 10, em entrevista à rádio argentina “Club Octubre 94.7”. “Quero ganhar algo com a seleção. Seguirei tentando. Quero ganhar com a seleção, quero estar lá e jogar todas as coisas importantes”, completa.

É verdade que jogar pela Argentina não é a mesma coisa que jogar pelo Barcelona. Com o convívio diário, o treinador pode desenvolver seu trabalho ao longo da temporada e avaliado ao fim dela. Por outro lado, a seleção se reúne eventualmente quando há amistosos e torneios como a Copa América, Copa do Mundo e as eliminatórias para o próprio Mundial. O resultado: cobrança imediata.

É inevitável a comparação entre os contemporâneos Messi e Cristiano Ronaldo, os dois melhores do mundo por 10 anos consecutivos. Em seus clubes, são extraordinários. Em suas seleções, a vantagem é do português.

“Me parece que Cristiano ganhando o título europeu com sua seleção o coloca em um nível muito alto, porque para ele é muito difícil ganhar pela seleção pela falta de qualidade de seus companheiros”, afirma Pablo Ramon, jornalista do Diário “Olé”.

Em relação a Neymar, também no quesito seleção, os dois parecem estar na mesma prateleira. “O Neymar é mais jovem, ainda vai ter mais oportunidades que o Messi para jogar esse tipo de competição. Mas também não conseguiu tanta coisa assim pela seleção, ainda não conseguiu ser protagonista. [...] E aí o título olímpico eu não conto. O Messi também ganhou um título olímpico”, diz Mauro Cezar Pereira.

Nesta Copa América, os dois terão mais uma chance de conquistar um torneio importante. A Argentina, especificamente, está com um time renovado, com jogadores jovens e um novo técnico, Lionel Scaloni.

“Temos mais vontade de ver uma seleção argentina diferente, jogadores diferentes, para depois pensarmos se dá para ganhar ou não. A expectativa sempre é muito alta, nossas chances são grandes, mas temos que ser um pouco mais realistas e as condições de quem chega à seleção não são as melhores”, conta Pablo Ramon.

“A verdade é que a torcida sofre bastante por não ganhar títulos. Messi também quer ganhar um título com sua seleção, um título mais importante do que a Olimpíada”, diz Javier Gil Navarro, jornalista da ESPN Sur.

“Se conseguir o título, será por conta das individualidades”, completa.

A Argentina que nasceu por causa de uma confusão com a prata se apropriou da medalha do segundo lugar nos últimos tempos. A esperança é de que a expedição hermana torne o choro prateado em sonho dourado. De novo, tudo passa pelo coração e pelos pés de Messi.

* Com supervisão de Ivana Negrão e Ricardo Zanei

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