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Ex-Palmeiras e Vasco ficou parado quase um ano e superou drama familiar para renascer no Paulistão

Anselmo, ex-atacante de Palmeiras e Vasco, vivia o melhor momento de sua carreira. Em 2016, havia sido o terceiro maior artilheiro do Brasil, foi carrasco do Flamengo na Copa do Brasil e era ídolo da torcida do Fortaleza. Valorizado, ele foi no ano seguinte para o Náutico com a esperança de manter a ótima fase.

No Recife, porém, o jogador começou a viver um drama familiar. Sua esposa passou a apresentar os primeiros sintomas de depressão.

“Quando a gente ouve falar, mas quando não acontece perto da gente, não tem a noção exata. No meu caso, foi tão pesado que ela tentou se matar duas vezes. Isso foi muito complicado, porque eu não sabia como reagir ou ajudá-la. Até ter o entendimento e buscar a ajuda profissional com psicólogos, psiquiatras e remédios controlados levou um tempo”, disse, ao ESPN.com.br.

“Na época, eu não entendia o que era isso. Ela tinha tido duas crises que eu achei que eram algo mais pessoal. Pedi até para não ir para alguns jogos, mas não sabia o que era. Até que algumas pessoas passaram a me alertar e pedir ajuda médica. Mas ela não queria aceitar e nem eu porque não achávamos que ela estava doente”, recordou.

Como estava sem receber na equipe pernambucana, ele pediu para ser emprestado. Sua expectativa era de que com a mudança de ares, a situação pudesse ser resolvida.

“Eles não queriam me liberar e o Fortaleza me fez uma proposta para voltar que eu não aceitei. Foi o maior erro da minha vida, porque tinha saído de lá por um erro que não tinha sido meu. O meu antigo empresário brigou com a diretoria e não me falou nada. Eles achavam que eu sabia. Tinha um pré-contrato que não foi cumprido e criou-se uma situação meio chata. Todo mundo queria que eu ficasse, mas por dessa briga, que eu não sabia que existia, nos afastamos”, relatou.

“Fui para o Paysandu e foi lá que aconteceram os episódios mais fortes da depressão. Pedi para ficar de fora de uns 10 jogos por causa disso porque tiveram ataques muito fortes, situações de ela tentar se matar, se jogar do prédio. Eu pedia pelo amor de Deus para tirar os objetos cortantes de casa para não fazer mal para ela nem para as crianças. Isso acabou com as minhas forças e pedi para voltar para casa”, relatou.

Com poucos jogos com a camisa do time de Belém, ele voltou para o Rio de Janeiro. No começo de 2018, foi contratado pelo Volta Redonda para jogar o Carioca, mas a situação de sua esposa não melhorou.

“Às vezes, eu ia treinar, mas não conseguia ir para os jogos. Cheguei a contratar pessoas especializadas para cuidar dela, minha mãe e irmã ficaram muito com ela. Mas não poderia deixá-la sozinha de jeito nenhum. Muitas vezes eu estava treinando e ia concentrar para um jogo e ela me ligava dizendo que estava sentindo a mesma sensação. Era assim que começavam as crises”, relatou.

“Isso fez com que eu me afastasse de todo resto, não somente do futebol, para cuidar dela. Foi o período mais complicado da minha vida. Pedi licença para poder me concentrar nesse cuidado. Eu tive que buscar ajuda psicológica não somente para ela, mas para mim também”, afirmou.

Por causa dos problemas em casa, Anselmo ficou um longo tempo sem poder se dedicar à sua profissão.

“Infelizmente, a gente não tem controle sobre isso. Se o problema fosse comigo, teria como separar e lidar com isso. Mas quando toca na minha família, eu perco as forças e não sei lidar”, admitiu.

Consciente da gravidade da situação, o jogador procurou ajuda profissional e conseguiu se restabelecer.

“Eu sou muito retraído com algumas situações e tenho dificuldades para me abrir. Tenho que confiar demais porque passei por uma situação de roubo com a pessoa que mais confiava na minha vida. Por isso, criei um certo bloqueio com isso. Ainda faço algumas sessões com um psicólogo para que tenha mais força. Graças a Deus, ela está curada. Se caso ela tiver algum tipo de recaída eu sei como agir”, analisou.

No fim de 2018, com os problemas já solucionados, Anselmo decidiu que era hora de voltar aos gramados.

“O Flávio, ex-volante do Palmeiras, me procurou dizendo que tinham clubes interessados em mim e se poderíamos negociar. Nesse meio tempo surgiu a diretoria do Santo André. Era muito interessante para mim porque não poderia ficar muito tempo longe de casa devido ao meu problema pessoal. Eles abriram as portas para mim para que pudesse retomar a carreira”, agradeceu.

Desde então, ele tem ajudado ao time no ABC Paulista na Série A2 do Paulistão. Após viver alguns altos e baixos no torneio, ele assumiu a titularidade do ataque da equipe andreense.

“Tinha muita vontade de jogar o Paulistão de novo. Está sendo muito prazeroso, passamos por cima de muitas dificuldades. A expectativa está sendo mais alta do que quando vim para cá. Eu esperava fazer mais gols para ajudar mais ao time, mas estou jogando em uma função diferente. O treinador me disse que não poderia me cobrar isso porque a bola não estava chegando”, contou o jogador, que tem um gol no torneio.

O Santo André briga pelo acesso. Na primeira partida da semifinal, venceu o Água Santa por 2 a 0 no estádio Bruno José Daniel. Agora, pode perder por até um gol de diferença em Diadema que estará na final e garantirá uma vaga para a Série A1 do Paulista de 2020.

“Posso ainda contribuir ainda mais e tenho certeza que nos próximos jogos a minha estrela vai voltar a brilhar. Estamos no caminho para a o acesso, mas falta ainda um jogo e será difícil. Temos que jogar da mesma forma em Diadema”, bradou.

Com fôlego renovado depois dos problemas, o jogador, que completará 39 anos em outubro, não coloca um prazo para pendurar as chuteiras.

“Eu sou muito apaixonado pelo que eu faço, gosto demais mesmo. Enquanto meu corpo estiver aguentando e eu não estiver me arrastando no gramado, eu quero jogar. Creio que consiga jogar mais uns dois anos e passe dos 40 (risos). Quando não conseguir mais acompanhar o ritmo da molecada, é porque chegou a hora de parar”, finalizou.