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Novo Mundial e Champions mais bilionária? Especialistas duvidam: 'Real x United 6 vezes por ano cansa'

A Fifa, a Uefa e as ligas nacionais da Europa estão em pé de guerra.

Quando a Fifa anunciou a criação de um novo Mundial de Clubes, com 24 equipes, a partir de 2021, a Uefa e a ECA (Associação dos Clubes Europeus) se mostraram contrariadas.

Já quando a Uefa e a ECA se reuniram dias depois para discutir uma possível remodelação da Champions League, que passaria a ser um "clubinho dos grandes" com jogos aos finais de semana, as ligas nacionais se opuseram.

"Esses são projetos que os torcedores de boteco discutem às 5h da manhã", disparou o presidente de LaLiga, Javier Tebas, com enorme preocupação de ver o Campeonato Espanhol ser reduzido a nada com a possível atenção de Real Madrid e Barcelona à nova Champions.

Segundo especialistas ouvidos pelo jornal El País, os gigantes europeus não deveriam se assanhar tanto com a criação de uma Superliga, já que a competição pode trazer mais dano do que benefício aos grandes do continente, em suas avaliações.

"A Superliga Europeia é um projeto irrealizável, porque não possui fundamento. As quantidades (de dinheiro a arrecadar) que se fala são inexistentes. Para que a Superliga existisse, seria necessário destruir as ligas nacionais, que são de onde verdadeiramente vêm o dinheiro de grandes como Real Madrid, Barcelona, Juventus e PSG", afirmou Jaume Roures, fundador do Mediapro, gigantesco conglomerado espanhol de mídia.

De acordo com Timothy Bridge, diretor da área de negócios esportivos da consultoria Deloitte, a repetição de confrontos entre os grandes clubes rapidamente cansaria torcedores e telespectadores.

"Há um desejo de maximizar o potencial do esporte (com a Superliga), mas isso vem acompanhado de uma advertência: quanto mais conteúdo existe, maior o risco para ser valor total", sintetizou.

"Há muito nervosismo na indústria do futebol para ver de onde virá a próxima etapa de crescimento. A resposta não é seguir fazendo o mesmo. Haverá novas tecnologias e haverá novas formas de obter receita e se relacionar com os torcedores", complementou.

A visão de Bridge é compartilhada por Ignacio Palacios-Huerta, professor da London School of Economics e membro do comitê científico da ECA.

"Creio que (os que desejam fundar a Superliga) estão equivocados. Isso me dá a sensação de que eles acreditam que isso trará um crescimento exponencial gigante, mas, a médio prazo, um Real Madrid x Manchester United seis vezes ao ano seguramente acabará saturando (os torcedores)", observou.

"Uma liga essencialmente fechada nesse estilo é uma mudança demasiadamente drástica, que desvaloriza o potencial de saturação. Poderia ser benéfico a curto prazo, mas, posteriormente, traria péssimas consequências", garante.

O aumento do calendário, deixando o número de datas ainda mais saturado, também causou revolta a David Aganzo, presidente da AFE (Associação dos Futebolistas da Espanha) e membro da diretoria da FIFPro (Federação Internacional dos Jogadores Profissionais de Futebol).

"Nós, jogadores, somos a parte principal deste esporte, ainda que às vezes não pareça", ironizou, se referindo às decisões tomadas por cartolas sem consultar as associações que protegem os interesses dos atletas.

"Você tem que se preocupar com a saúde do futebolistas, com as temperaturas que ele joga, com as datas, com as férias, com sua vida social e sua família. Tenho companheiros que possuem férias curtíssimas e seus corpos já não aguentam mais. Parece que o dinheiro é tudo neste esporte, mas nem tudo é dinheiro", filosofou.