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Ari garante que seguirá na seleção da Rússia e rebate Pogrebnyak

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Ari, atacante brasileiro, é convocado pela seleção russa e diz: 'Feliz pela oportunidade' (0:46)

Jogador já atua no futebol russo há 9 anos (0:46)

Nesta segunda-feira, o veterano atacante Pavel Pogrebnyak deu declarações racistas e xenófobas ao jornal Sport Express, reclamando da naturalização e convocação de "pessoas de cor", como o atacante brasileiro Ari, do Krasnodar, para a seleção russa.

"É ridículo que pessoas de cor joguem na seleção russa", afirmou o atleta, atualmente no FK Ural.

"Tenho uma opinião negativa a respeito (das naturalizações). Não vejo sentido. Por que deram um passaporte russo a Ari?", questionou.

Em entrevista à ESPN, Ari contou que foi "bombardeado" por ligações de jornalistas russos, mas preferiu ignorar Pogrebnyak.

"Sobre esse comentário, muitos jornalistas me ligaram aqui. Eu prefiro nem falar nada, porque um cara desses nem merece atenção. Triste pensar que nos dias de hoje ainda exista algo assim. Minha ideia é continuar defendendo a seleção", garantiu.

Ari também salientou que foi apoiado por muitos, e ressaltou a fama ruim que Pogrebnyak possui no futebol do país.

"Ele foi muito criticado pela imprensa e por colegas. Os jornalistas aqui me perguntaram se eu gostaria de falar algo, rebater. Eu disse que passei por tantas dificuldades já que isso nem me preocupa. Só lamento por ter sido um jogador de futebol, e que passou na carreira por outros países, que falou isso, ainda mais nos dias de hoje", afirmou.

"Muitos falaram que esse cara (Pogrebnyak) é um babaca de dar uma entrevista falando uma coisa dessas. A própria Federação deve multá-lo. São coisas que a gente fica triste pela situação", lamentou.

'RACISMO ESTÁ DIMINUINDO'

Segundo Ari, as declarações de Pogrebnyak vêm em um momento em que o racismo perde força na Rússia, de acordo com sua percepção.

"Já sofri racismo na Rússia, como outros jogadores negros que atuaram aqui, como Roberto Carlos, Hulk e Eto'o. Mas isso foi há alguns anos atrás, hoje em dia não vemos mais isso. É muito difícil acontecer, até mesmo em São Petersburgo, onde dizem ser mais comum", observou.

O brasileiro também relatou que é tratado com enorme carinho na Rússia.

"Aqui eu me sinto em casa, há estou há 10 anos morando, tenho uma filha aqui, muitos amigos e futuramente quero continuar morando aqui, revezando com o Brasil. Atuei por grandes clubes russos. A torcida do Lokomotiv até hoje pede a minha volta quando jogo em Moscou. Passei três anos e meio no Spartak, joguei Champions e fiz ótimas temporadas, até hoje me tratam muito bem. Quando um torcedor me encontra na rua, sempre me pergunta quando vou voltar", contou.

Ari assegura que também é muito querido entre os atletas da seleção.

"Os colegas de equipe sempre me trataram bem demais aqui, sem exceção. Os jogadores da seleção me respeitam muito pela minha experiência na Rússia. É por isso que eu nem me preocupo e nem fico chateado com esse tipo de situação (de racismo). Quem conhece meu futebol e torce pela seleção e pelos clubes que passei me admira. Para mim, isso, basta", bradou.

FEDERAÇÃO CRITICA

As falas de Pogrebnyak rapidamente ecoaram negativamente nos bastidores. O responsável pelo Departamento de Luta Contra a Discriminação da UFR (União de Futebol da Rússia), Alexandr Baranov, repudiou o discurso.

"As declarações são muito questionáveis e claramente não estão em concordância com os princípios da campanha mundial contra o racismo. Não se pode definir o lugar de um futebolista em uma seleção baseando-se na cor da pele", salientou.

Pogrebnyak, porém, foi apoiado pelo presidente do FK Ural, Grigori Ivanov, que também se mostrou contrário à naturalização e convocação de "futebolistas de cor" para a Rússia.

Ari, que começou a carreira no Fortaleza, joga na Rússia desde 2010, quando foi contratado pelo Spartak Moscou. Em 2013/14, ele foi para o Krasnodar, clube no qual é ídolo da torcida, e teve dois empréstimos para o Lokomotiv Moscou.

O brasileiro recebeu a cidadania russa em julho do ano passado, o que o impediu de disputar a Copa do Mundo no país. No entanto, após conseguir o passaporte, ele foi convocado pelo técnico Stanislav Cherchesov para a equipe nacional nos amistosos contra Alemanha e Suécia, em novembro de 2018.

Agora, porém, não foi chamado para os duelos pelas eliminatórias da Eurocopa-2020 por conta de lesão.

"Eu devo ficar mais umas duas semanas afastado, me recuperando. Estava em um momento ótimo, sendo artilheiro do time e recebendo as convocações. Infelizmente, me machuquei agora e não deu para ser chamado. Mas estou muito feliz aqui", disse Ari.

FERNANDES TAMBÉM QUESTIONADO

Pogrebnyak também se mostrou contrário à convocação do lateral direito Mário Fernandes, ex-Grêmio e há anos titular absoluto do CSKA, mesmo com o ala tendo sido talvez o maior destaque da Rússia na última Copa do Mundo.

"Nesta posição (lateral direita) nós temos Igor Smolnikov (do Zenit). Poderíamos muito bem seguir sem estrangeiros (na seleção)", opinou.

A Rússia, porém, disputará os próximos jogos com vários naturalizados, como o goleiro brasileiro Guilherme e os alemães Rausch e Neustadter, além do próprio Mário Fernandes.