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Novo Mundial de Clubes e mudanças na Copa do Mundo: o que esperar de encontro do Conselho da Fifa

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O Conselho da FIFA é a assembleia de 37 membros que substituiu o Comitê Executivo após a eleição de Gianni Infantino, em 2016, como o presidente do órgão que dirige o futebol. O conselho inclui representantes de cada uma das seis confederações e é geralmente encarregado de fazer decisões administrativas e organizacionais, algumas das quais precisam ser ratificadas pelo Congresso da FIFA, ou seja, todas as 211 nações que fazem parte dele.

Eles se encontram nesta sexta-feira em Miami e têm muito para discutir. Três das maiores preocupações envolvem a expansão da Copa do Mundo de 2022, no Qatar, para 48 equipes; renovar o Mundial de Clubes e transformá-lo em um torneio que acontece a cada quatro anos com 24 equipes; a criação de uma "Liga das Nações Globais", após o sucesso da versão europeia.

Aqui vai um jogo de perguntas e respostas para entendermos o que acontecerá quando a reunião acontecer.

Ok, vamos começar com a Copa do Mundo no Qatar. Já é um país pequeno, de onde vem a ideia de adicionar mais times e jogos na competição?

Infantino diz que, como já está aprovada a expansão para 48 times na Copa do Mundo de 2026, por que não tentar fazer o mesmo já no Qatar? Claro, a Copa de 2026 será em Estados Unidos, México e Canadá, que juntos têm quase 200 vezes a população do Catar e 2000 vezes a área. De fato, um estudo de logística da Fifa diz que é impossível fazer uma competição assim sem ter que aumentar o calendário, movimento esse que já descartado.

Então por que isso ainda está sendo considerado?

Porque o mesmo estudo sugere que dá para fazer se você tivesse “dois ou quatro” lugares com “um ou mais” países vizinhos. Basicamente, se o Qatar estiver disposto a compartilhar um pouco de sua Copa do Mundo, dá para aumentar o número de participantes para 48. O problema é que o Qatar tem péssimas relações com vários dos países vizinhos, principalmente Arábia Saudita, Bahrein e Emirados Árabes Unidos. Os três acusam o país-sede da Copa de 2022 de apoiar o terrorismo e de ter feito um “bloqueio” no país. Entre outras coisas, eles não fazem mais voos diretos para o Qatar.

Olhando no mapa, não vejo outras opções...

O estudo cita 10 possíveis estádios na região, mas sete deles estão em países que atualmente bloqueiam o Catar, o que obviamente está fora de cogitação. Depois, há dois no Kuwait e um em Omã; esses são possibilidades, exceto que o tempo é curto e, no mínimo, eles precisam ser reformados. Ou, a solução de curto-prazo, você convence sauditas e emiradenses a pararem com o bloqueio.

Alguns dos inimigos de Infantino dizem que esse é seu objetivo final: ser capaz de vender a narrativa de que o futebol leva à paz e ganhar um prêmio Nobel. De qualquer forma, é isso que eles estarão discutindo e a expansão deve ser aprovada, seja definitivamente ou com mais certeza no Congresso da Fifa em Paris, no início de julho.

Isso seria considerado um golaço para Infantino porque permite que mais países participem da Copa do Mundo?

Exatamente. E tem mais: a mudança para 48 times já na Copa de 2022 geraria uma renda de 400 milhões de dólares a mais para a Fifa – Infantino liga bastante para a receita da Fifa. Ele faz questão de observar que os desembolsos para os membros para fins de desenvolvimento aumentaram quatro vezes desde que ele está no comando. Tem sido seu mantra e ele continua usando-o, mesmo correndo sem oposição para a reeleição.

Dito isso, não é inteiramente um golaço. A expansão pode ser desafiada por alguns países e usada como moeda de troca se Infantino não conseguir o que quer com o Mundial de Clubes.

Fale mais sobre isso, a Copa do Mundo de Clubes...

Basicamente, ele quer substituir a Copa das Confederações por uma Copa do Mundo de Clubes disputada por 24 equipes. Seria realizada a cada quatro anos, possivelmente já em 2021. Ele acha que isso seria ótimo para as finanças da Fifa. Seria realizado em junho, com uma única nação anfitriã. Enquanto o resto dos convidados ainda é algo a ser discutido, pode-se imaginar que, pelo menos, seis ou oito grandes europeus seriam presença certa: Real Madrid, Bayern, Barcelona, Juventus, Manchester United e assim por diante.

Parece ótimo. Qual o problema, então?

Para começar, ele errou com a Uefa e outras confederações quando aumentou a proposta há um ano. Naquele tempo, ele disse que tinha uma oferta de 25 bilhões de dólares por 12 anos de investidores não especificados – descobrimos depois que incluía o Saudi Sovereign Wealth Fund, basicamente o governo saudita – para sediar uma Copa do Mundo entre clubes de quatro em quatro anos e um campeonato entre oito clubes de dois em dois. Os classificados ganhariam a vaga pelos respectivos torneios nacionais de suas confederações. E ele precisava dessa aprovação em 60 dias.

A Uefa rejeitou, sentindo-se obrigada a assinar, particularmente porque a informação que Infantino estava oferecendo era muito pouca. Os adversários políticos do presidente da Fifa acusaram o suíço de estar “vendendo o futebol,” enquanto seus defensores acusavam a Uefa de ser submissa aos grandes clubes europeus que, por sua vez, querem o verão para torneios lucrativos sem valor esportivo.

As coisas ficaram tão feias no último encontro do Conselho que os representantes da Uefa ameaçaram ir embora. Não apenas isso, mas houve uma conversa de eles criarem sua própria versão do mundial de clubes no verão, possivelmente com clubes sul-americanos.

O que mudou desde então?

Eles estão trabalhando nos bastidores para fazer algum tipo de acordo. Infantino tem votos suficientes no Conselho para forçar a realização de uma Copa do Mundo de Clubes, mas sabe que é melhor ter a Uefa junto porque, sem o apoio deles, os principais clubes podem fazer um boicote. E isso tornaria a competição praticamente inútil.

Deve ser dito, também, que a oferta original de 25 bilhões de dólares não está mais de pé, pelo menos não nos termos originais.

Por que isso aconteceu?

Apesar do sucesso da Liga das Nações na Europa, em outros lugares não decolou. A Concacaf lançou sua versão própria, mas outras confederações ainda não fizeram e é difícil imaginar que isso aconteça em curto prazo.

O mais provável é que essa parte da ideia seja descartada, mas eles ainda vão querer falar sobre a Copa do Mundo de Clubes e em uma entrevista recente, Reinhard Grindel - chefe da federação alemã e um influente membro do Conselho da Fifa – disse que acha que vai acontecer "se não for 2021, então certamente 2025". Ele acrescentou que, se a FIFA não o fizer, "outra pessoa o fará". É uma sugestão bastante clara de que a Uefa está disposta a apoiar a proposta... Mas apenas se os termos forem favoráveis. E isso significa que você pode esperar algumas negociatas e, potencialmente, um atraso na decisão final - não apenas para isso, mas pela Copa do Mundo de 48 equipes, até o Congresso da FIFA em junho.

Mas vai ser em junho que tudo será resolvido, certo?

De um jeito, ou de outro, sim. Pelo menos a decisão sobre a Copa do Mundo de 2022 vai. Infantino disse que as eliminatórias começam pouco depois, então eles têm que ter uma decisão tomada nesta data. Há outras coisas que podem ter um impacto no jogo, mas não as vejo sendo resolvidas em Miami.

“Outras coisas,” tais como?

A mais importante é o tal do calendário Fifa. Estipula, basicamente, quando teremos jogos de seleções e quando teremos jogos de clubes. O calendário atual expira em 2024 e, como sempre, haverá uma negociação não muito amigável entre clubes e federações. Temos tido conversas sobre menos pausas, mas para que as pausas tenham mais partidas, assim o número de jogos não sofreria nenhum baque. Algumas pessoas ainda querem competições nacionais no meio de semana para que a Champions League fosse jogada aos sábados e domingos.

Há também uma série de mudanças em como as transferências de jogadores são conduzidas, particularmente a regulamentação de empresários e limites sobre tamanhos dos elencos, empréstimos e janela. Tudo isso entrará em jogo, embora a maioria não deva ser resolvida em Miami.