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Cristiano Ronaldo, frustrado, quer que a Juventus comece a atuar mais como o Real Madrid tricampeão da Champions

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Cristiano Ronaldo de volta ao Real Madrid? Zidane se nega a entrar no assunto (0:42)

O treinador francês do clube merengue elogiou o astro português, mas disse, no momento, está focado nos últimos 11 jogos. (0:42)

Não é sempre que se pode dizer que os eventos no estádio San Paolo, em Nápoles, nos lembram daqueles que acontecem no Staples Center, em Los Angeles. Surpreendentemente, foi exatamente o que aconteceu no fim de semana passado, já que o comportamento do maior astro de futebol do mundo lembrou bastante o de um contemporâneo da NBA.

Vamos deixar claro que nenhum companheiro de Cristiano Ronaldo teve que empurrá-lo para acompanhar uma jogada como Kyle Kuzma fez com LeBron James, em uma das jogadas mais emblemáticas desta temporada de NBA. No caso de Cristiano, ninguém jamais ousaria. Mas a sensação foi a mesma.

“Enquanto a Juve defendia, ele (Ronaldo) não se mexia,” disse a Gazzetta Dello Sport para justificar a nota de 5,5 dada ao jogador de 34 anos na vitória da Juventus, fora de casa, contra o Napoli por 2 a 1, no dia 3 de março.

A linguagem corporal de Cristiano Ronaldo, sem surpresa, vem sob os holofotes, embora qualquer um que tenha seguido sua carreira saiba que, como com LeBron, isso não é novidade. Mas esta é uma semana crucial para Ronaldo. Ele foi levado a Turim para ganhar a Uefa Champions League pela Juve, e enfrenta o Atlético de Madrid, clube do qual foi algoz em duas decisões quando jogava pelo outro time da cidade, o Real Madrid. Mas desta vez, a vantagem é de Simeone e cia. 2 a 0 a favor.

Cristiano Ronaldo se mostrou bastante irritado, passando grande parte do segundo tempo contra o Napoli gesticulando e quase implorando para que seus companheiros se juntassem a ele no campo de ataque. Em um certo momento, ele saltou e jogou as mãos para baixo, um movimento familiar para quem acompanha sua carreira. Já são três jogos sem balançar as redes. Cristiano está frustrado.

“Mister”, disse Ronaldo em direção ao banco de reservas na esperança de que o treinador Massimiliano Allegri fosse mudar a formação ou o estilo de jogo e abandonasse a cautela. Quando isso não aconteceu, a falta de entusiasmo de Cristiano se tornou evidente em sua vontade (ou falta dela) na hora de pressionar os defensores do Napoli.

O Napoli ficou com um jogador a menos aos 25 minutos de jogo, quando o goleiro Alex Moret cometeu falta no próprio Cristiano Ronaldo fora da área e foi expulso direto, sem cartão amarelo.

Como se já fosse ruim o suficiente a situação do time da casa, Miralem Pjanic cobrou a falta na gaveta do colombiano Ospina, lembrando a todos que, nessas situações, poucos são tão perigosos como ele. O bósnio é o sétimo jogador com mais gols de falta na história do Campeonato Italiano. Mesmo assim, Pjanic tem tido que se acostumar a ver Cristiano Ronaldo acertar a barreira em várias oportunidades. Minutos depois, Emre Can fez o segundo da Juve, praticamente definindo o confronto.

Mesmo com um homem a menos, o Napoli assustava a Juventus. Piotr Zielinski acertou a trave, e quando Pjanic foi expulso no começo do segundo tempo, só deu Napoli. O domínio era absurdo. O time da casa completou mais de 300 passes, 118 no campo de ataque. Para a tristeza (ou frustração) de Ronaldo, os líderes do Italiano trocaram míseros 20 passes no campo ofensivo. Nas finalizações, vareio também: 14 a 1 para o Napoli.

O ataque de fúria de Cristiano Ronaldo foi totalmente compreensível. A Juventus teve sorte de que Lorenzo Insigne desperdiçou aquele que seria o empate do Napoli. Até o treinador do Napoli, Carlo Ancelotti, que treinou Cristiano Ronaldo no Real Madrid, se surpreendeu com a atuação da sua equipe, definindo como “domínio total”.

Allegri simpatizou com a atitude do seu novo jogador de mais de 100 milhões de euros e relativizou a coisa toda “Não é que ele estava bravo,” disse. “Nós não jogamos no segundo tempo. O time percebeu que o jogo estava difícil e passou a se defender.”

Ronaldo estava certo em exigir mais. A Juventus tinha 13 pontos de vantagem no topo da tabela quando foi até Nápoles e teve a chance de ousar mais. Mas essa é a mentalidade da Juventus: há dois anos, Giorgio Chiellini disse que nunca jogará como o Real Madrid.

O que ele quis dizer é que a Juventus gosta de ganhar jogos por 1 a 0. Eles querem controle. O Real Madrid, por outro lado, sempre deu a impressão de estar confortável na “desordem”, arriscando o controle para tentar superar os adversários por 4 a 2 ou 5 a 3. Como tal, a própria associação de Ronaldo com esse estado de espírito - a linguagem corporal que ele mostrou em Nápoles - representa um desafio para este aspecto particular da identidade do seu novo clube.

Talvez também explique porque grande parte da reação à derrota da Juventus para o Atlético de Madrid, na partida de ida das oitavas de final da Champions League, foi entendida como uma oportunidade para afirmar que precisam ser mais como o Real Madrid - o que é curioso, tendo em mente que o clube caiu fora da competição após um 4 a 1 vexatório para o Ajax em pleno Bernabéu.

Na noite de sexta-feira (8), a “Velha Senhora”, muito mais descansada, teve uma partida tranquila contra a Udinese, sem se esforçar muito para fazer 4 a 1. Allegri reiterou dois princípios fundamentais do futebol da Juventus. Um deles é que "vencer é extraordinário. Não é normal." Apesar do fato de a Juventus se sentir assim.

A outra é que a possível eliminação contra o Atleti na noite de terça-feira (12) não seria um fracasso. "Isso me faz rir", disse ele. O clube ficaria desapontado, vê essa questão toda por parte da diretoria. Torcedores e mídia italiana, no entanto, fazem questão, sim - particularmente após a contratação de Ronaldo.

No mês passado, Zlatan Ibrahimovic, perguntado sobre a transferência de Ronaldo para a Juventus, respondeu: “Ele (Cristiano) fala sobre desafios, mas decidiu ir para um time que vence o Campeonato Italiano de olhos fechados há vários anos... Ir para a Juventus não é desafio nenhum.”

Mas é aqui que Zlatan se engana: o desafio de Cristiano Ronaldo não é ajudar a Juventus a conquistar o oitavo título italiano consecutivo, mas sim vencer a Champions League depois de 23 anos. E é isso que está em jogo na terça-feira. A questão é: a noite terminará em festa ou choro?