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Corrida de Camelo, cerveja a R$ 350, Alex 'Pelé' e crianças fumantes: ex-Palmeiras conta histórias de seus 6 anos no exterior

Na terra da próxima Copa do Mundo, o Catar, o futebol perde para a corrida de camelos como modalidade mais querida do fã de esportes local.

Os prêmios para o dono do camelo vencedor dos principais páreos pode chegar perto de R$ 5 milhões, e até 45 mil pessoas comparecem às provas transmitidas pela TV com comentários especializados.

Enquanto isso, jogadores de futebol nem sempre conseguem se dedicar somente ao esporte. Muitos têm emprego na polícia, nos aeroportos, no corpo de bombeiros. Algo que, aliás, é uma tradição em alguns país daquela parte do mundo que convencionou-se chamar de "Mundo Árabe".

Viver 100% do futebol é coisa para os estrangeiros, contratados a peso de ouro para elevar um pouco o nível dos clubes locais. Com isso, vem também o ônus: quando o time ganha, ganham todos. Quando perde, os derrotados são os "gringos".

É nesse cenário que o zagueiro Maurício Ramos, talvez um dos poucos a passar quase incólume da fúria da torcida no nem tão longínquo período de vacas magras do Palmeiras, no começo da década de 2010, desfila hoje seu estilo dedicado e sério de jogar.

Maurício é um dos capitães do Al-Sailiya, de Doha, atual terceiro colocado da Liga catari, atrás de de Al Saad e Lekhwyia. O título, no entanto, não é o principal objetivo da equipe.

"A ideia é garantir a vaga na Champions League asiática", explicou o jogador ao ESPN.com.br.

Em Doha, Ramos vai se acostumando às complicadas regras de um país que está praticamente sendo reconstruído e reformado, em turnos ininterruptos de 24 horas, para receber a Copa em três anos e meio.

In loco, ele vê de perto a construção dos estádios e estações de metrô. Estádios que poucas vezes ficam cheios nos jogos do seu e dos outros clubes locais.

"Quando precisam de público, os xeques pagam ingresso para que os operários indianos, que trabalham nas obras, compareçam aos jogos, dão de presente", diz ele. "Isso é realmente uma grande diferença. Não é todo mundo que se acostuma a jogar para estádios quase vazios, em especial os brasileiros", comenta ele.

Os indianos, que recebem cerca de R$ 1000 mensais num país de custo de vida elevado, aliás, são também responsáveis por uma outra revolução: a inflação nos preços das bebidas alcoólicas.

"Eles estavam bebendo demais, então, o xeque aumentou em 100% os impostos sobre as bebidas", conta Maurício. "Uma caixa de cerveja custa hoje o equivalente a R$ 350. Minha esposa gosta de uma cerveja, mas eu já disse pra ele ir com calma que aqui é diferente", brinca ele.

Mauricio também aprecia um bom vinho, que ele só consegue comprar mediante apresentação de uma identificação especial.

"No início, é um choque viver aqui. As academias são exclusivas para homens e mulheres. Eu não posso entrar em um salão de beleza com a minha esposa, por exemplo. Mas, aos poucos, você vai se adaptando", diz ele.

"Recentemente, uma brasileira passou três meses presa por tentar entra no país com bacon", relata Maurício. A carne de porco é item proibidos na religião judaica e na muçulmana - com a diferença de as sanções nos países que professam a Fé de Maomé normalmente serem muito mais duras.

O Catar não é o primeiro país árabe conhecido pelo jogador que esteve nos Emirados Árabes, onde jogou por três temporadas no Al Sharjah.

"Mas lá é bem mais tranquilo, mais ocidentalizado. As mulheres podem andar de shortinho na rua, por exemplo", diz.

Também há coisas muito boas no Catar, porém, ele pondera.

"É tudo muito seguro. Você pode deixar o seu carro ligado e aberto, que ninguém vai mexer. Já esqueci meu celular em um restaurante, voltei para buscar e ele estava intocado, onde eu havia deixado", conta.

"ALEX É PELÉ"

A realidade é bem diferente da que ele viveu na Turquia, onde esteve entre 2016 e o ano passado. Por lá, pelos médios Adanazpor e Rizespor, Maurício viu um fanatismo comparável, se não maior, que o dos brasileiros.

"Lá é loucura. Um Galatasaray x Fenerbahce é um Palmeiras x Corinthians, se não for pior", diz ele. "Estádios estão sempre lotados e os caras são completamente apaixonados", comenta.

Ramos gostou da experiência turca. No país, suas raízes futebolísticas nacionais, no Coritiba que o revelou, e no Palmeiras que o projetou, vieram bem a calhar. Jogou, afinal, nos dois times mais importantes na carreira do maior ídolo local das últimas décadas.

"O Alex lá é Pelé. Se você fala que é brasileiro, a primeira coisa que te falam é 'Ah, Alex de Souza'", conta ele, sobre o atual comentarista dos canais ESPN.

Da Turquia, Maurício Ramos levou também impressões mistas. Encantou-se, por exemplo, com as belezas naturais. Mas estranhou alguns hábitos.

"Lá, fuma-se muito. Crianças de 13, 14 anos, estão sempre fumando nas ruas", conta.

ALVIVERDE

O coração de Maurício Ramos é alviverde - seja pelo Coritiba, seja pelo Palmeiras, clube para o qual ele passou a torcer depois das intensas cinco temporadas que passou no clube da Zona Oeste de São Paulo.

Do Catar, ele procura assistir aos jogos dos dois times, com mais facilidade de encontrar partidas do clube paulista, por conta do protagonismo que hoje o Coxa, na Série B, não tem momentaneamente.

Além do orçamento, muito maior do que aquele do seu tempo, Maurício vê o Allianz Parque como grande diferença deste Palmeiras para o "seu".

"Você não imagina como é ruim não ter casa", conta ele, sobre o período em que o velho Parque Antárctica foi fechado para ser reformado e dar lugar ao novo e moderno estádio do clube.

"A atmosfera no Palestra Itália era diferente. A gente jogou no Canindé, em Barueri, Pacaembu... Mas não nos sentíamos em casa em lugar nenhum", diz.

Daquele período, sem dúvida, o ano que mais marcou foi 2012. Naquela temporada, ele experimentou os dois lados: conquistou seu único título de primeira linha com o Palmeiras, mas foi rebaixado para a Série B com o grupo.

"Depois do título, tudo deu errado", relembra-se. "Eu nunca vi isso: os 11 titulares se machucaram. Valdivia tinha lesão crônica, Assunção machucou, Thiago Heleno, eu me machuquei, Barcos se machucou...", conta ele, rindo de nervoso. "Tudo que podia dar errado, deu", diz.

Aquele grupo parecia mesmo estar sob o signo da má-sorte.

"Quer mais do que na final da Copa do Brasil, em Barueri?", indaga. "Fui dormir tranquilo e, quando acordei, o pessoal veio me falar que o Barcos não ia jogar e que estava sendo operado de apendicite", lembra-se.

Hoje, Maurício ri de fatos como esse. Mas, na época, sofreu muito com os maus momentos do time.

"Porque eu aprendi a gostar do Palmeiras. Aliás, aprendi muita coisa com o clube. É uma torcida que cobra muito, mas que é obcecada pelo time, muito apaixonada", diz.

Sobre o time atual do Alviverde, o zagueiro, que conhece bem o estilo de Felipão, manda um recado aos demais torcedores.

"O Felipão é apegado ao estilo dele, sempre cauteloso, sei bem como é. O palmeirense precisa ter paciência com esse time, porque rlr tem qualidade", diz. "Mas o esquema não vai mudar, não", diz, entre risos.

Maurício não se preocupa em falar de seu carinho pelo Palmeiras. Não teme, por exemplo, que isso possa atrapalhar uma transferência futura para outro clube do Brasil.

Até porque, voltar não é uma possibilidade que ele avalia como palpável num futuro próximo. Nos últimos seis anos, que passou fora do país, o defensor aprendeu a apreciar os prazeres da vida como expatriado.

"Eu gostaria de me aposentar no exterior", revela. "Há muita coisa boa para se aproveitar. Minha filha fala francês e inglês", conta ele, que também aprendeu o idioma bretão quando jogava na Turquia.

"Com as coisa ruins, a gente vai aprendendo. E, com coisa boa, a gente se acostuma fácil", afirma.