<
>

Autonomia, ganhos e 'carinho': entenda por que tantos clubes menores têm criado marcas próprias para seus uniformes

play
Presidente de banco patrocinador do Cruzeiro fala em ter um milhão de contas abertas neste ano (0:24)

Clube vai lucrar 50% do que for lucrado com a plataforma criada exclusivamente para o clube (0:24)

Enquanto as gigantes de material esportivo duelam, tendo milhões de dólares como armas, pelos contratos de fornecimento para os grandes clubes do Brasil e do mundo, os clubes médios e pequenos vêm descobrindo que ter uma marca própria de uniformes pode ser muito mais lucrativo do que vestir uma grife global.

Na Série A de 2019, serão três times jogando com camisas que em vez de nomes como Adidas, Nike e Puma, trarão, no lado direito do peito, logomarcas como Azulão (CSA), Esquadrão (Bahia) e Leão 1918 (Fortaleza). E o número pode crescer ainda nesta temporada. Com clubes de representatividade nacional, localizados em centros maiores, como o Rio de Janeiro - e até pela América do Sul.

Quem revela a possibilidade de tal aumento é Alexandre Dalla, diretor comercial da Bomache, fábrica cearense que produz a camisa do CSA e do Fortaleza, além dos uniformes de jogo com marcas próprias de Coritiba (1909), América-MG (Sparta), Sampaio Corrêa (Tubarão), Paysandu (Lobo), Santa Cruz (Cobra Coral) e River-PI (Carijó).

Diferentemente dos maiores contratos do País, como os de Corinthians, Flamengo e Palmeiras, a maior parte dos fabricantes de material esportivo não paga aos clubes menores - e até a alguns grandes, como o Fluminense - nenhum adiantamento ou luvas quando acerta para ser fornecedor.

Atualmente, os acordos são celebrados prevendo apenas o fornecimento do enxoval para uso dos times - profissional, base e funcionários, em alguns casos - e royalties percentuais pela número de peças vendidas. Muitos nem fazem peças casuais.

Em troca, as empresas cuidam da distribuição e fazem a criação, marketing e toda negociação com as fábricas. Por fim, colocam suas logomarcas nos uniformes e também se promovem.

Estar no uniforme de um clube de massa é quase sempre garantia de emprestar dele o prestígio e a simpatia dos torcedores e dos fãs de esportes em geral - e aumentar as vendas de suas linhas como um todo. Apelo que já não é tão grande em clubes de poder regional ou municipal, a ponto de justificar um pagamento além dos royalties.

Ao todo, 16 clubes têm marcas próprias no Brasil atualmente.

INTERMEDIÁRIOS

Entender como funciona uma marca própria é entender uma das rodas mais importantes e lucrativas da engrenagem do futebol profissional.

No Brasil, a história começou com o Paysandu. Foi em 2015 que o clube de Belém achou muito pouco os R$ 462 mil que arrecadou com royalties das vendas de 50 mil peças de seus produtos com a marca da gigante alemã Puma.

Diretor jurídico na época, Alberto Maia começou a estudar a possibilidade de rever o contrato, que lhe conferia 10% do que fosse apurado em vendas, além do enxoval completo para um ano - cerca de 10 mil peças.

Como a negociação com a marca não foi adiante, Maia se aproximou da Bomache e decidiu "eliminar os intermediários". Em vez de alguém falar com a fábrica, o clube mesmo faria esse trabalho.

Criação das peças e conceitos, contratação da fabricação e distribuição e marketing: Maia decidiu internalizar tudo no clube, em prol de aumentar o valor de royalty e, por consequência, a fatia do clube.

No fim de 2016, após oito meses de atuação, segundo o ex-dirigente, o Papão da Curuzu embolsava R$ 2,7 milhões líquidos com a operação da marca Lobo - cerca de R$ 2,2 milhões a mais do que recebera um ano antes.

Maia gostou tanto da experiência que largou a vida de dirigente e abriu a MM Manager Sports, empresa que hoje tem como cliente o CSA. Como o clube alagoano não tinha contingente de pessoas para tocar sozinho a gestão da marca própria Azulão, a MM faz esse papel.

"Para alguns clubes, é difícil entender a máquina burocrática e ter um contingente de marketing e outras necessidades. E nós ajudamos com toda essa gestão para quem precisa", explica. Mas o caso do CSA é exceção.

Em muitos casos, a Bomache ajuda os clubes também na gestão de lojas próprias. Mas há casos em que os clubes se encarregam disso diretamente.

AUTONOMIA

Stênio Gonçalves, do Fortaleza, se inspirou no Paysandu para ajudar a criar a Leão 1918, em 2015. A história é parecida com a do Papão. Mas o caso era ainda mais complicado, já que o clube cearense dizia não saber quantas peças, de fato, a italiana Kappa comercializava.

"Além disso, não tínhamos autonomia para criar camisas e outras peças comemorativas, por exemplo, já que a Kappa licenciava vários clubes e não podia encaixar uma ideia nova no cronograma de produção", explica.

O Fortaleza, com o trabalho do designer Bruno Baima, torcedor do clube, cria suas camisas dentro de casa. Elas então são fabricadas, distribuídas e comercializadas, no caso do Tricolor de Aço, pela Bomache. Mas poderia ser outra empresa.

A Esquadrão, marca do Bahia, não tem um contrato de exclusividade com nenhuma fábrica. Guilherme Bellintani, presidente do clube, quer ainda mais autonomia e decide quem vai fabricar qual peça de acordo com as possibilidades das plantas fabris.

Antes de criar sua marca, em setembro de 2018, o Bahia recebera R$ 800 mil no último contrato que tivera, com a Lotto, tendo vendido 80 mil camisas. Nos primeiros seis meses no novo formato, ele já reporta a venda da mesma quantidade de peças - com R$ 3 milhões de receita, além do enxoval para uso.

O aumento, na visão dos clubes, não se deve apenas a uma gestão mais acertada, mas também ao carinho que o torcedor passa a ter por uma marca que funciona única e exclusivamente por e para seu clube do coração.

"Certamente. O torcedor compra com mais carinho quando sabe que aquele dinheiro vai, em grande fatia, para o clube", diz ele.

Mas nem todos pensam assim.

"Eu negociei com o Fluminense em 2017, por exemplo, a criação de uma marca própria. Na época, a diretoria me disse que a torcida era muito exigente e não ia gostar de ser vestida por uma marca desconhecida, mesmo que própria", conta Alexandre Dalla.

"Existe uma ideia de a marca própria é um tapa-buraco, quando, na verdade, é o contrário", diz ele. "Quem vai ter mais carinho com a camisa do clube do que o próprio clube?", indaga.

MAS E A TECNOLOGIA?

Climalite, Climacool, Dri-Fit... Embora as marcas ostentem essas tecnologias, na verdade, quem as desenvolve são as indústrias têxteis - os fabricantes dos tecidos.

É claro que as marcas participam para co-desenvolver tecidos e, muitas vezes, contam com laboratórios internos de pesquisa e exclusividade de determinados tipos de tecidos. Mas, no fim das contas, em especial nos modelos feitos para os torcedores, menos tecnológicas, as camisas têm por base o poliéster, com mais ou menos algodão e outras fibras mescladas.

"Eu tenho o mesmo fornecedor têxtil das gigantes do mercado", garante Alexandre Dalla, da Bomache.

PARA TODOS?

Para os menores, que não conseguem negociar adiantamentos ou luvas, Guilherme Bellintani, presidente do Bahia, não acredita que o modelo de marca própria possa ser aplicados a todos os clubes.

"Não vejo os maiores do Brasil de do mundo passando para algo assim", diz ele.

Já Alexandre Dalla, até advogando em causa própria, acredita que não exista motivo para que os gigantes não adotem o modelo.

"No dia que um Real Madrid, por exemplo, fizer as contas, vai entender o quanto pode ganhar a mais se criar sua própria marca de uniformes", acredita. "A meu ver, a barreira é apenas cultural. Muitos entendem como prestígio ser vestido por uma grande empresa. Mas, na ponta do lápis, os ganhos são menores", afirma.

Até que um gigante adote o expediente, é difícil saber se Dalla está certo. O que já é fato é que nenhum clube que adotou marca própria no Brasil, até hoje, recuou para o modelo antigo.