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Sancho, sensação do Dortmund, exclusivo: 'Fico feliz em ter aberto as portas para jovens jogadores ingleses' na Alemanha

DORTMUND, Alemanha -- Um clube diferente, um campeonato diferente, uma cidade diferente, um país diferente. A vida de Jadon Sancho mudou tanto, no futebol e em outras esferas, desde sua transferência ao Borussia Dortmund há 20 meses, que pode ser um pouco difícil se acostumar com tantas coisas de uma vez só.

"Se você me perguntasse três anos atrás onde eu estaria hoje, eu não conseguiria responder", disse à ESPN, com um grande sorriso no rosto, o jogador de 18 anos, em um estúdio de TV localizado na parte de baixo da arquibancada principal do Signal Iduna Park.

"Eu nunca pensaria que estaria aqui e que estaria me saindo tão bem", contou. "[Para mim, a maior surpresa é] a extensão que as coisas alcançaram. Tudo aconteceu tão rápido. Isso tudo é uma loucura."

O meia-esquerda londrino do bairro de Camberwell se tornou o rosto de um ideal, se tornou um argumento a favor das migrações em prol da promoção de uma carreira futebolística. Ele é o jovem conquistador que revelou aos jogadores de sua geração da escola inglesa um mundo enorme de possibilidades de crescimento além do Canal da Mancha.

"É um sentimento legal, um bom sentimento", disse o jogador se referindo ao seu papel de protagonista. "É importante dar a outros jogadores a oportunidade de jogar em outros lugares além da sua terra natal. Dar a eles uma visão mais ampla sobre o que tem mundo afora. Eu fico feliz em ter aberto essas portas."

Entretanto, com a crescente onda de clubes da Bundesliga batalhando para contratar o melhor talento inglês, desesperados com a ideia de perder o próximo Sancho, o ex-jogador do Manchester City alertou aos outros jovens que se encontram presos no complicado "vai e vem" entre o banco de reservas e o time titular na Premier League que sair para o melhor time da Alemanha não é, necessariamente, a solução definitiva para todos os problemas.

"Eles me perguntam como é, e eu respondo com sinceridade: não é fácil. É difícil."

Sancho admitiu que ele "não via" a Bundesliga como um campeonato tão "forte e físico" até assinar com Os Pretos Amarelos no verão de 2017. "Você tem que ser muito incisivo. Tem que se manter em alto nível", disse o jogador.

Foi necessária boa parte da primeira temporada para que seu estilo de jogo -- uma série de dribles imprevisíveis, jogadas maravilhosas e arrancadas fenomenais -- se tornasse consistente o bastante para que conseguisse conquistar mais tempo de jogo no time titular.

Em outubro, quando foi convocado pela primeira vez para jogar na seleção inglesa, estreando em novembro no time titular contra os E.U.A. devido ao seu rápido desenvolvimento, algumas pessoas no clube temeram que sua ascensão à seleção -- e toda a atenção despertada após isso -- pudesse ter acontecido cedo demais. No entanto, seu desempenho jogando pelos líderes do campeonato alemão se tornou tão impressionante que esses temores sumiram rapidamente. Sancho dá o crédito de seu notável progresso ao técnico do Dortmund, Lucien Favre, por sua conhecida obsessão pelos fundamentos do futebol.

"[Favre é] muito apaixonado e empenhado em fazer os atacantes detectarem quais são suas falhas e em certificar que eles busquem o aprimoramento dessas falhas nos treinos", contou o jogador. "Depois de treinar dessa forma, eu só pratico com meu pé esquerdo -- driblar, finalizar. [Favre diz] que pode não dar resultado amanhã ou até dentro de dois anos. Mas que um dia os resultados virão.

"É isso que eu gosto nele. Ele é muito atento a essas pequenas coisas que as outras pessoas não veem."

Outro fator que ajudou Sancho a crescer é um raro caso de entrosamento entre o pensamento do clube e da seleção, já que o Dortmund e o assistente de Gareth Southgate, Steve Holland, trabalham muito juntos nos bastidores. Não só isso como também o crédito que os colegas de equipe dão a Sancho ao confiar em suas jogadas espetaculares.

"Eu me divirto tanto [porque] os jogadores do time me encorajam a fazer essas coisas. Normalmente os jogadores não gostam de quem fica se aparecendo, ou seja lá a forma como as pessoas chamam, mas essa é a forma como eu me sinto bem jogando. Eles entendem isso, e o técnico também. [Eles] acham que isso é efetivo porque abre espaço para outros jogadores e fornece oportunidades."

O empate emocionante de sábado por 3 a 3 contra o Hoffenheim -- o Dortmund liderava por três gols, mas concedeu três gols nos últimos 15 minutos -- foi uma perfeita ilustração disso. Sancho jogou, sem dúvidas, seu melhor jogo profissional até hoje, marcando o próximo estágio de seu crescimento que ocorre na velocidade da luz. Ele abriu o placar com um gol sensacional, deu o passe para Mario Götze fazer o segundo do Dortmund, teve importante participação no gol de Raphael Guerreiro e quase balançou as redes com uma habilidade sensacional para fazer o quarto gol do Dortmund.

Contra os Spurs, na quarta-feira, ele está determinado a causar um impacto similar, principalmente depois das mensagens de WhatsApp provocantes dos seus colegas da seleção inglesa que jogam no Tottenham.

"Recebi muitos 'A gente se vê em breve' e 'Vamos acabar com você' -- coisas desse tipo", contou o jogador em meio a risadas. "Dele [Alli]? Ele é o que mais fala. Eu só fico na minha, tranquilo."

Sancho está especialmente empolgado para jogar bem na frente de seus amigos e família que estarão no estádio.

"Você sente como se tivesse que provar algo a mais. Eu sei que várias pessoas -- especialmente muitos garotos jovens e torcedores da Inglaterra -- vão comparecer para ver o que eu tenho a oferecer."

Mas há algo diferente, algo maior no meio disso tudo.

Sancho e muitos membros dessa nova geração de jogadores ingleses, os quais têm que batalhar por viverem em regiões desprivilegiadas durante a juventude, são os mais motivados pela necessidade de mudar positivamente a vida das pessoas mais próximas.

"Nós simplesmente amamos o futebol", afirma o jogador. "As pessoas com quem cresci tinham a mesma ambição que eu e viveram no mesmo contexto em que eu vivi. É uma situação muito difícil, porque eles só querem ajudar suas mães e suas famílias a terem uma vida melhor do que a que vivem atualmente.

"Eu acho que nós, homens, fazemos qualquer coisa para dar orgulho às nossas famílias. E acho que isto é o que nos move: esse desejo e essa motivação para continuar seguindo em frente."