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Há 50 anos, Santos de Pelé parou guerra na África; mas pode não ter sido bem assim

Um dos feitos que mais orgulha os torcedores do Santos completa 50 anos nesta segunda-feira, 4 de fevereiro. É a história de que o time de Pelé conseguiu parar uma guerra na Nigéria, em 1969, ao jogar um amistoso em Benin City.

Na época, o país africano estava no meio de uma guerra civil, iniciada em maio de 1967, quando a região do Biafra, no sudeste da nação, se emancipou. O conflito durou até janeiro de 1970, com derrota dos separatistas. Os cálculos são de mais de 2 milhões de mortos.

Havia uma comoção global contra a violenta repressão do governo nigeriano sobre os biafrenses. Artistas como Joan Baez, Jimi Hendrix e John Lennon, autoridades como o Papa Paulo VI e organizações como a ONU tentaram conter o conflito. Sem sucesso.

O Santos foi levado para a Nigéria a convite do governo local para jogar contra uma seleção da região do centro-oeste, onde está Benin City. O amistoso não fazia parte da programação inicial daquela excursão para a África, turnê que deveria ter se encerrado três dias antes com a última partida acontecendo na cidade de Lourenço Marques (hoje Maputo), em Moçambique.

A delegação do time brasileiro acabou se deslocando para Benin City sem saber o que estava acontecendo.

"Quando chegamos, alguém falou que o nosso time ia parar uma guerra. A reação foi uma só: 'O que? Vai parar uma guerra? Que guerra? Tava tudo normal!'", disse Lima, 77, que jogou no Santos de 1961 até 1971, alcançando a marca de 694 partidas e 63 gols.

"E o empresário responsável pelas nossas excursões falou: 'Eles estão guerreando entre eles e vocês é que vão resolver esse problema", afirmou Edu, 69, ponta-esquerda do Santos de 1966 até 1978, com 584 partidas e 183 gols pelo time alvinegro.

A história que os santistas relatam é que o governo nigeriano decretou um cessar-fogo para que eles pudessem se deslocar do hotel para o estádio Ogbe em segurança e depois retornar ao local onde estavam hospedados.

Havia apenas um jornalista brasileiro acompanhando a delegação do Santos durante aquela excursão para a África. Era Gilberto Castor Marques, que escreveu para "A Tribuna". Nas páginas do jornal, ele registrou que foi decretado feriado local por causa do Santos.

O Santos de Pelé venceu a equipe local por 2 a 1. Gols de Toninho Guerreiro e Edu. No dia seguinte, foi embora do país. A guerra prosseguiu tão terrível quanto antes e só cessaria com a total dominação da região separatista.

"A Guerra do Biafra foi muito terrível. Para o Santos se apresentar naquela partida o tenente que mandava no país deu garantias de que o conflito seria suspenso, que não haveria troca de tiros. Foi o que aconteceu", disse o historiador do Santos, Guilherme Guarche.

Lima e Edu, dois personagens daquele time, não tem dúvida alguma do que aconteceu em 4 de fevereiro de 1969.

"O Santos parou uma guerra!", enfatizaram para a reportagem.

PAROU MESMO?

A história narrada acima faz parte das glórias do Santos tanto quanto o bicampeonato mundial da era Pelé. Virou música cantada pelos torcedores nas arquibancadas. Também já foi estampa de camisa. Tema de livros.

Mas justamente em seu cinquentenário surgiu uma nova versão que derruba a tese que o Santos parou um conflito na Nigéria. Ela é do antropólogo João Paulo Florenzano, 53, professor da PUC-SP, e que estuda o tema há dez anos.

"O que eu afirmo tem como base toda uma pesquisa desenvolvida ao longo do projeto de pós-doutorado para a USP. A minha tese é que o Santos não interrompeu uma guerra civil na Nigéria. Ele não só não interrompeu a guerra, como na verdade foi utilizado como peça de propaganda pelo governo militar da Nigéria contra a república separatista de Biafra", disse para a reportagem.

O depoimento é inédito e está fundamentando em evidências que o antropólogo afirma ter encontrado durante viagens que fez para o continente africano, testemunhas da tragédia de Biafra e estudo do material produzido pelos correspondentes daquela guerra.

"No momento em que o Santos joga na cidade de Benin, o território de Biafra encontra-se reduzido a um quarto do que era originalmente quando declarou a secessão. Não tinha saída para o mar. Estava cercado territorialmente, com o espaço aéreo vigiado. Do outro lado do rio Níger, a mais de cem quilômetros de distância, nós temos a cidade de Benin. Não havia um exército disputando militarmente o controle daquela cidade. Tampouco o entorno. Nem sequer a região onde ela está inserida, que é o estado do centro-oeste, estava ameaçado".

"Portanto, a tese, segundo a qual foi necessário um cessar-fogo para que o Santos jogasse na Cidade de Benin, do ponto de vista dos dados reunidos nessa pesquisa, não se sustenta", completou o historiador.

A interpretação de Florenzano para o que ocorreu durante a visita do Santos a Benin City é ainda mais surpreendente.

"Levar o Santos para se exibir na Cidade de Benin era a melhor propaganda possível para o governo federal mostrar para a sociedade nigeriana que aquela região chave para o país estava sobre pleno controle das autoridades", disse.

"Outro fator. Já no fim do segundo semestre de 1968 e início de 1969 começam a surgir sinais muito evidentes de insatisfação contra o prolongamento da guerra. E é por isso também que o governo faz um esforço grande para inserir o país no roteiro da excursão do Santos. É o velho instrumento de acreditar que o futebol pode desviar as atenções e fornecer um alivio para a população", prosseguiu.

O antropólogo planeja lançar um livro narrando os feitos do Santos na África e com os dados detalhados que o levam a contestar a versão de que o Santos parou uma guerra. No cinquentenário do feito, ele já publicou textos aprofundados sobre o assunto.

"O artigo que defende essa hipótese encontra-se publicado no site do Ludopédio, um site acadêmico. Chama-se 'A guerra do Santos: 50 anos de uma viagem histórica'. Aqui é possível acessar as cinco partes do material".