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Como a obsessão do Real Madrid em fazer de Neymar 'seu próprio Messi' levou o clube ao talentoso Vinícius Jr.

A obsessão de Florentino Pérez por Neymar só trouxe decepção, vergonha e sofrimento. Até agora. Até a chegada de Vinícius Jr.

Neymar era o garoto que o Real Madrid viu primeiro. Não só antes de encontrar Vinícius, mas antes mesmo que o Barcelona encontrasse Neymar. Ele era o diamante bruto que o sistema de caça-talentos sul-americano trouxe para treinar na Espanha e mostrar seu brilho, mesmo tendo 14 anos.

"Eu nunca vi um garoto tão habilidoso com essa idade", disse Jesús Gutiérrez, técnico da escola de Madri e que comandou as 10 sessões de treinamento em que Neymar estrelou.

"Ele era o melhor. Como madridista de nascença, lamento profundamente o fato de o clube não ter assinado e fechado com Neymar, porque ele poderia ter sido o Messi de Madri, o garoto estrangeiro que sai do nada, e termina passando 10 anos como a estrela... e lenda do time principal."

Mesmo assim, apenas alguns anos mais tarde, Neymar ainda era o jogador sobre o qual Pérez tinha certeza de ter bem firme em suas mãos, e que acreditava genuinamente ser a resposta ao número 10 dos catalães.

Sandro Rosell, presidente do Barça, definitivamente com grande custo para si e para a sua presidência, foi esperto o suficiente para alavancar sua presença e a de seu clube e se envolver nas negociações entre Neymar, Santos e Real Madrid.

Os planos do Madrid foram pelo ralo. O gênio havia escorregado de suas mãos.

Enquanto Neymar estava ao lado de Lionel Messi e Luis Suárez, ele jogou um caminhão de sal na ferida de Pérez: um triplete, duas LaLigas, um Mundial de Clubes, quatro vitórias em El Clásico contra Los Blancos, incluindo duas no Santiago Bernabéu, em que o jogador participou diretamente de oito gols pelo Barcelona.

Duas coisas ocorreram desde o momento em que Neymar abandonou a ideia de se juntar ao Madrid.

Primeiro, Pérez gastou muitos recursos na busca pelo segundo Neymar. E isso tem se revertido em benefícios que ele e seu clube estão começando a colher.

O indignado presidente do Madrid aumentou sua caça aos talentos nos times brasileiros, contratou especialistas para garantir que os acordos fossem fechados de forma eficiente, e reservou 100 milhões de euros para taxas de transferências e comissões.

Segundo, ele cutucou e tateou pela situação de Neymar. Poderia o Madrid triunfar sobre o Paris Saint-Germain, que estava investindo um valor recorde para pagar a cláusula de rescisão de Neymar com o Barcelona? A decisão foi um "não".

Não com o risco duplo que a) Neymar pudesse optar ir para o PSG mesmo assim ou b) Cristiano Ronaldo, que ocupava o lado esquerdo do Madrid em direção ao gol exatamente como faz Neymar em sua estratégia preferida, não fosse tolerar a chegada do brasileiro.

A possibilidade de passar por tanta raiva e sofrimento no caso Neymar incentivou o Madrid a comprar Vinícius e Rodrygo. Rodrygo ainda está em empréstimo ao seu clube de origem, o Santos, mas Vinícius é outra história.

É totalmente crédito de Los Blancos o fato de garoto ter sido encontrado, analisado, contratado e anunciado ao mundo quase um mês antes de jogar sua primeira partida pelo Flamengo no Campeonato Brasileiro.

Não importava o quão talentoso fosse o herói da história naquela época, ele tinha apenas 16 anos, era inexperiente tecnicamente, ainda sem ter marcado um gol no time principal, e sul-americano em vez de europeu -- uma diferença cultural significativa em termos de desenvolvimento esportivo.

Além disso, seu preço era um recorde histórico no futebol brasileiro. Esse era um risco sério -- um risco calculado, interessante, emocionante e compreensível, mas ainda um risco.

Naquela época, o Madrid não considerava tê-lo em seu plantel -- fosse como um membro do time de juniores, fosse como um jogador do Castilla, seu time B. Ele ficou no Rio por empréstimo. E isso mostrou o quão inexperiente o Madrid considerava seu prodígio. Mas é preciso admitir que eles estavam sendo realistas.

Esse garoto de 18 anos, que está nos primeiros estágios de seu desenvolvimento, está longe de ser a solução completa para a situação caótica nos campeões europeus. Isso seria como dizer a alguém desesperadamente perdido no escaldante deserto do Saara que, só por ter encontrado uma cerveja gelada, ele não precisa de um GPS, uma barraca para conseguir uma sombra, um camelo para levá-lo a um lugar seguro ou alguns litros de água para sobreviver à jornada.

Falando metaforicamente: o Madrid ainda está em busca de todas as ferramentas para colocá-los de volta na direção certa.

Mas, meu amigo, no momento, a cerveja vem descendo deliciosamente. E se isso for um sinal de que as coisas estão prestes a melhorar?

Vinícius não é só extremamente talentoso em termos de equilíbrio, ritmo, domínio de bola e ousadia. Ele também está muito acima da média para a sua idade em termos de visão periférica, tomada de decisões em campo e força física.

Vinícius ainda é inexperiente? Sim. É possível que seu desempenho caia um pouco em algum momento devido ao fato de que é tudo muito novo, desafiador e turbulento para um garoto de 18 anos? Com certeza.

Entretanto, parece que estamos vendo um jovem jogador que não é só força e habilidades técnicas, mas cujo cérebro futebolístico funciona no mesmo ritmo dos pés. Isso é raro e faz a diferença, principalmente por ser tão jovem.

Descobrir que o desenvolvimento de Vinícius está muito além do que se poderia ter esperado de alguém que o Madrid descartou para sua equipe B quando chegou - e o manteve ali até que seu caos esportivo fizesse com que mudassem de ideia - é muito empolgante, principalmente quando um verdadeiro fenômeno como Ousmane Dembélé já começa a brilhar em LaLiga.

Para o Madrid, isso se parece muito com aquele momento que os apostadores conhecem bem, logo após passarem uma noite diante das mesas : quando você está ganhando, pare - dê uma pausa e pense, conte seus lucros.

A segunda tática de Pérez - tentar tirar Neymar do PSG na janela passada - foi parte da bagunça em que eles se encontram agora. E já era hora de desistir.

Evidentemente, parecia possível que o fair play financeiro pudesse exigir que o PSG vendesse um de seus maiores jogadores. Havia rumores de que, nessa situação, Neymar poderia ...talvez ...ser persuadido a deixar passar a satisfação de jogar partidas fora de casa contra as potências do futebol mundial, Dijon e Amiens.

Entretanto, com Ronaldo saindo e batendo a porta na cara de seu passado, com dúvidas sobre quem iria produzir gols imediatamente e com um PSG sem obrigação e sem vontade de vender Neymar, o Real Madrid teve que correr e recontratar Mariano no final da janela de transferências.

Lembre-se: esse é o mesmo atacante que o presidente do Lyon, Jean-Michel Aulas, alega ter sido mencionado por Pérez uma semana antes quando o presidente madridista dizia não ser o tipo de jogador de que Los Blancos realmente precisavam.

Independentemente da permanência de Neymar no PSG na próxima temporada, ou de uma eventual pressão para conseguir uma negociação, parece estar muito claro que ele ainda tem saudades do Camp Nou e que seus ex-colegas do Barcelona iriam recebê-lo de braços abertos.

Mesmo que eles conseguissem contratar Neymar de alguma forma, o Madrid ainda poderia sofrer com o perigo dos torcedores - e dos jogadores de Los Blancos - tratarem o brasileiro como alguém que está ali porque suas outras opções não deram certo. Isso é perigoso.

Vinícius não é Neymar. Não há necessidade de fazer comparações em relação ao futebol jogado. Mas o brasileiro mais novo oferece ao Real Madrid - e especialmente ao seu presidente - uma chance de abraçar uma vida sem a obsessão debilitante por Neymar.