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Arsenal só pode comprar jogadores por empréstimo, e o motivo preocupa

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Emery pede equilíbrio ao Arsenal e confia em vitória contra o Chelsea: 'Acho que vamos fazer um grande jogo' (1:19)

Duas equipes fazem o clássico da rodada da Premier League neste sábado, no Emirates Stadium (1:19)

Na última semana, o técnico do Arsenal, Unai Emery, disse algo surpreendente. “Não podemos contratar jogadores pelos quais temos que fazer um pagamento... Nós podemos fazer somente contratações por empréstimo”.

Não é o que você espera ouvir de um clube que está a seis pontos do quarto colocado e corre o risco de ficar sem a classificação à Uefa Champions League pela terceira temporada consecutiva, depois de ter disputado o principal torneio de equipes do mundo por 19 anos seguidos.

Nem é o que você espera de um clube que aparece no sexto lugar entre as receitas do futebol mundial no estudo Football Money League, da consultoria Deloitte, e que também possui a segunda melhor média de público na Premier League. De quebra, os Gunners conseguiram obter lucro em cada temporada desde 2008. (Recentemente, eles relataram um lucro de 44,6 milhões de libras em 2017, seguido de 25,1 milhões de libras nos seis primeiros meses desta temporada).

Arsenal e Chelsea enfrentam-se no Emirates Stadium neste sábado, às 15h30 (de Brasília), pela Premier League, com transmissão da ESPN Brasil e WatchESPN

Para alguns, as palavras de Emery trouxeram à lembrança a metade final da Era Arsène Wenger, quando os londrinos sentaram-se em uma grande reserva de dinheiro. O treinador afirmou que eles poderiam comprar jogadores, mas que não fariam isso “pelo bem” do clube, e os torcedores culparam o dono, Stan Kroenke, de ser mesquinho.

Não é bem a situação de agora. Emery iria alegremente gastar dinheiro se pudesse. Em vez disso, o Arsenal oferece um estudo de caso do quanto grandes decisões de recém-chegados, feitas em um curto período de tempo, podem ter enormes efeitos colaterais. A situação deles ilustra o quão difícil pode ser colocar a pasta de dente de volta no tubo.

Volte sua atenção para 12 meses atrás e considere os dez dias que chocaram o Emirates. Wenger seguia no cargo, mas seus poderes foram drasticamente reduzidos. Dick Law, o negociador de transferências do clube de longa data, tinha saído, assim como Steve Rowley, que passara mais de duas décadas no clube. Para substituí-los, o chefe-executivo Ivan Gazidis (que desde setembro de 2018 está no Milan) trouxe Raul Sanllehi, ex-Barcelona, como diretor de futebol de fato e Sven Mislintat, ex-Borussia Dortmund, como chefe de scout. (Mislintat estaria deixando o clube também).

Gazidis, Sanllehi e Mislintat se reuniram para atacar três questões quentes que iriam causar um grande impacto quanto ao futuro dos Gunners. Eles sabiam que tinham de vender Alexis Sánchez ou se arriscariam a perdê-lo de graça no fim da temporada. Sánchez, por fim, escolheu o Manchester United em vez do Manchester City – aquela decisão estava fora da mão deles -, mas o que não estava fora das mãos deles foi a escolha de trazer Henrikh Mkhitaryan. O armênio chegou a um acordo até 2021. Uma pessoa dentro do Arsenal, falando sem se identificar, estava bastante satisfeito. “Claro que estamos felizes... temos um jogador de 70 milhões de libras em troca por um rapaz que não queria estar aqui e que teria deixado nada. É muito melhor do que qualquer pequena quantia que o United teria nos pago”. Isso foi em 22 de janeiro de 2018. Nos dias seguintes, o triunvirato do Arsenal trabalhou nas outras duas grandes decisões.

Uma foi a recontratação de Mesut Özil. Como Sánchez, ele estava a seis meses de ser um agente livre e também queria um grande aumento salarial. O Arsenal escolheu estender o vínculo até 2021 por um valor próximo do pedido pelo atleta.

Finalmente veio a contratação do atacante Pierre-Emerick Aubameyang, por um valor recorde para o clube de 57,6 milhões de libras. O gabonês esteve no mercado no verão anterior, mas Wenger optou em vez disso por outro atacante central, Alexandre Lacazette, que também foi um grande investimento (46,5 milhões de libras, podendo virar 52,6 milhões de libras com bônus). Entre o fim de 2017 e o começo de 2018, o francês chegou a ficar nove partidas sem gol.

Aubameyang, por outro lado, tinha marcado 69 vezes em 79 partidas na Bundesliga nos dois anos anteriores. E, embora houvesse algumas reservas quanto à sua personalidade – ele havia perdido sessões de treinamento no Dortmund e tentara projetar uma saída no verão anterior -, eles finalmente acertaram o valor da transferência e o salário até 2021, algo próximo do dobro do que Lacazette havia definido seis meses mais cedo.

Colocando de forma diferente, no período de poucos dias, o trio do Arsenal (Gazidis, Sanllehi e Mislintat) comprometeu uma enorme quantia para os três anos e meio seguintes em salários para três jogadores. Anualmente, os acordos com estes atletas representam aproximadamente um quinto do total da folha de pagamento do clube. Além disso, estes três em questão tinham 28, 29 e 29 anos no momento em que assinaram, significando que eles teriam um valor pequeno de venda, particularmente ao considerar os seus salários.

O que aconteceu desde então? Com 26 gols em 41 jogos em todas as competições, Aubameyang tem valido o investimento. Quanto aos outros dois, a história é diferente. Mkhitaryan começou 18 jogos da Premier League nos últimos 12 meses. É o mesmo número que Özil, que, acima de tudo, não parece agradar tanto a Emery. O dinheiro destinado a Mkhitaryan e Özil não é uma quantia morta, mas ainda assim é uma grande quantidade de fundos para jogadores que têm sido improdutivos.

Emery não aparenta vê-los como jogadores-chave. Presumivelmente, quando foi entrevistado para o emprego, ele sabia que eles estavam lá e que o clube tinha longos compromissos com eles. Naquele momento, você imaginaria o clube ter dito algo como: “OK, Unai, você é brilhante e um grande técnico, e estamos felizes por ter você. Mas você pode nos prometer que faça o trabalho funcionar com esses rapazes, porque achamos que eles são talentosos e estamos dando a eles muito dinheiro?”

Tudo isso, junto ao longo conservadorismo de Kroenke, ajuda a explicar tanto as palavras de Emery na última semana e o fato de uma oferta de contrato para Aaron Ramsey ter sido feita e então retirada.

Isso não é sobre dar uma chance ao triunvirato que tomou essas decisões fatais há um ano. A realidade é que Gazidis, Sanllehi e Mislintat tinham que fazer três enormes chamadas em uma questão de poucos dias, sem saber quem seria o técnico seguinte e quais tipos de jogadores ele desejaria.

Eles tomaram uma das decisões corretamente, é o que parece no momento, e duas erradas. Mas as escolhas feitas há um ano estão causando um impacto duradouro, tanto no que diz respeito aos jogadores que eles podem contratar como também nos que eles podem manter.

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