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A Portuguesa vive apenas nas minhas memórias

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Faz cinco anos que eu sinto saudade. Mas não é de uma pessoa que se foi. Na verdade, não é nem de uma pessoa. É de uma "coisa" que eu amo desde quando eu era bem pequena. O meu primeiro amor. Como eu sinto falta dele. Ou melhor, dela. Você deve estar se perguntando para onde ela foi. Mas ela não foi a nenhum lugar. Está lá, no mesmo lugar. Mas sei lá, muita coisa mudou.

Desde que me conheço por gente, frequento aquele terreno na zona norte de São Paulo. Aos domingos, no verão, eu acordava cedo junto com meus irmãos para escorregar naqueles tobogãs e nadar com meus primos, tios e tias. E depois jogávamos bola, almoçávamos e esperávamos dar 4 da tarde para assistir a nossa querida Lusa.

Lembro como se fosse hoje. Era uma delícia. Contava os dias para chegar o final de semana.

Sempre senti muito orgulho de torcer para a Portuguesa. Me tornei referência por quase todos os lugares que passei por causa dela. "Ela torce para a Portuguesa". Essa frase muitas vezes veio acompanhada de gozações, que eu ignorava com naturalidade. O orgulho de ter sangue português correndo nas minhas veias sempre foi maior.

Tudo seguiu assim por muito tempo. E aqui vou avançar o tempo para explicar novos acontecimentos. Já não era mais uma criança, estava formada e trabalhava com jornalismo esportivo, que sempre foi o meu sonho. Mas continuava vivendo muito de perto o ambiente lusitano.

Acabara de acontecer novas eleições no clube e, junto da diretoria nova, estava meu pai, José Luiz Ferreira de Almeida, que se tornaria o vice-presidente jurídico. Eu estava muito feliz. A Lusa tinha permanecido na primeira divisão e já tinha uns bons milhões da televisão garantidos para o ano seguinte. Até o dia...

Lembro de ter visto na internet sobre um jogador irregular na última partida do ano, mas pensei "isso não vai dar em nada". Nunca ninguém havia sido punido tão duramente até então, por que isso aconteceria com a Portuguesa? Mas eu estava errada. Os dias seguintes foram intensos, dramáticos. Fui procurada na redação para ir até o Canindé e ajudar na apuração. Fui, com outros colegas. Toda a imprensa ficou do lado de fora, não estava autorizada a entrar. Menos eu. Como era sócia, não podiam me impedir.

Quando dei o primeiro passo dentro do clube, sabia que ali teria que dividir a minha paixão pela Lusa e o meu dever como jornalista. Logo encontrei com o Seu Ilídio Lico, presidente na época. Ele me reconheceu na hora. Estava muito apreensivo, claro. Mostrava um documento que não provava nada e falava algumas coisas tentando achar uma explicação, tentando se justificar.

Este dia me marcou para sempre. Não consegui levar nada de novo na redação. Mas vivenciei um clima de desespero e angústia que nunca vou esquecer. Também neste dia, ouvi do atual presidente, Alexandre de Barros - que me conhece há bastante tempo -, que eu estava "prejudicando a Portuguesa com tantas perguntas".

Os anos se passaram. A Portuguesa foi para a segunda divisão, depois para a terceira. Até que em abril de 2016 meu pai foi eleito presidente. Não era a primeira vez que ele concorria, mas era a primeira vez que se elegia. O que pensar e sentir numa hora dessa? Ficar feliz por ele e desejar boa sorte? Ou dizer "Pai, tem certeza disso? Ainda dá para desistir". E o que se sucedeu foi um dos momentos mais tristes da minha vida. A queda para a quarta divisão.

Ele teve que lidar com ameaças de todos os tipos, ver a sala da diretoria totalmente destruída por membros da torcida organizada e, o pior de tudo, ter de lidar para sempre com uma culpa que não é só dele. Mas não estou aqui para defender nem acusar ninguém. O fato é que, depois de tudo, eu me distanciei.

Poderia encerrar este relato dizendo que, apesar de tudo isso, minha relação com a Portuguesa nunca mudou. Não é verdade. Hoje, quando falo de Portuguesa, vem uma mistura de sensações muito diferentes. Sempre que me encontra, o colega Cledi Oliveira diz que "temos que salvar a Lusa". E eu digo que "aquilo não tem mais solução". Ao mesmo tempo, sempre que o time está jogando - apesar de ser poucas vezes -, acompanho na rádio web ou nos stories do Instagram. Mas nunca mais fui ao Canindé.

O Héverton foi escalado de propósito? Acredito que não. Mas essa é a minha opinião, só minha. Acho que foi amadorismo mesmo. O que deu de errado? O que poderiam ter feito de diferente? Por que aconteceu justo com o meu pai? Essas perguntas insistem em martelar na minha cabeça. Não temos como mudar o que aconteceu. Mas será que tem como voltar ao que era antes? Improvável. Não que falte esperança, mas confesso que ela diminui aos poucos, à medida que o tempo passa.

As piscinas não estão mais lá. A infância nas quadras do clube ficou no passado. A infância com a família vestida de verde e vermelho foi linda, mas não vai voltar.

É triste? Sim, pode ser. Mas eu prefiro ter tudo isso guardado na memória como uma doce lembrança. A Portuguesa faz parte da minha história. Isso ninguém tira de mim. A ela e aos seus torcedores, desejo, do fundo do meu coração, um futuro com dias melhores. Dias de alegria, como aqueles nos anos 90 que vivi intensamente.

Esta não é uma carta de despedida, Portuguesa querida. Talvez seja um pedido de desculpas por não acreditar em você como antes. Mas você sempre estará aqui, no meu coração e nas minhas melhores memórias.