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Falcão pelos campos: de 'resposta a Tevez' a 'sonho destruído' por treinador

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São Paulo e Falcão; relembre a passagem do craque por frases, desde 'eu vim aqui para dar certo' até 'fui denegrido' (2:48)

Em 2005, lenda do futsal se aventurou no futebol sob o comando de Emerson Leão (2:48)

A carreira de um dos maiores atletas da história chegará ao fim nesta quinta-feira. Considerado o maior jogador de todos os tempos do futebol de salão, Falcão busca no duelo entre Corinthians e Sorocaba erguer uma taça pela última vez como atleta profissional.

Mas ele poderia ter sido "rei" também nos campos. Isso se tivesse tido mais oportunidades nas três vezes que tentou migrar de esporte. A mais clara delas foi no São Paulo, em 2005, quando, em um time que viria a se tornar campeão paulista, da Copa Libertadores e do Mundial, pouco teve espaço. O motivo? Falta de paciência e tolerância do técnico Emerson Leão.

"O Falcão é um cara excepcional. Naquele período que esteve com a gente, ele se esforçou muito. Trabalhava bastante para ser sempre melhor. E ele realmente é diferente. Dava para ver que o toque de bola, o domínio, era totalmente diferente. Mas ele precisava de um período de adaptação e eu acho que faltou tempo para ele conseguir ter sucesso", lembrou Marco Aurélio Cunha, na época diretor de futebol do São Paulo e um dos grandes entusiastas com a contratação do atleta.

"Naquela época ele não tinha o mesmo prestígio de agora. Hoje em dia ele é incontestável. Mas mesmo assim, a torcida comprou muito essa ideia, gostava muito dele. E o Leão não gostava desse 'oba oba'. Isso incomodava muito ele. Eu acho que ele podia ter mais tolerância", opinou o ex-dirigente, que ressaltou a mudança de postura do treinador.

"O Leão de hoje é muito diferente do daquele tempo. Mas na época ele queria um time cascudo, e o Falcão não tinha esse perfil. Isso conflitava com a ideologia dele e as poucas chances incomodavam bastante o Falcão. Eu cheguei a conversar com ele algumas vezes e dava para perceber que ele estava incomodado. E foi quando chegou uma proposta muito boa para ele voltar para o salão", complementa.

E Marco Aurélio, que atualmente trabalha na seleção brasileira feminina de futebol, lembrou que, se Falcão tivesse tido um pouco mais de paciência com o futebol de campo, tudo poderia ter sido diferente: "É engraçado como são as coisas. Logo depois que ele decidiu voltar para o futsal, o Leão saiu e chegou o Autuori. Acho que faltou paciência dos dois lados. Quem sabe, se ele tivesse ficado, poderia ter construído uma carreira no São Paulo".

E como surgiu a ideia do camisa 12 ir para o campo? O zagueiro Alex Bruno, que fez parte do elenco do São Paulo entre 2004 e 2008, tem uma teoria.

"O Corinthians tinha acabado de contratar o Tevez e o São Paulo decidiu contratar o Falcão. Realmente a chegada dele mexeu com toda a torcida e também com os jogadores. Gerou uma grande expectativa de como ele iria se sair nos campos. Daí ele fez aquela estreia maravilhosa contra o Ituano. Infelizmente não teve muitas chances, mas foi bem bacana. Ele tinha condições de dar certo no campo, mas precisava de um tempo e ia demorar um pouco na adaptação", opinou ele.

A história, porém, foi negada por Marco Aurélio Cunha, que disse que a contratação foi um pedido exclusivamente do presidente do clube na época.

"A chegada dele foi um desejo do Marcelo Portugal Gouveia, que era um cara de mente muito elevada e acompanhava muitos esportes. Ele foi visionário e, assim como fez quando trouxe o Lugano, achando que era um cara que poderia se tornar um líder, ele achou que o Falcão poderia ter o mesmo efeito, sendo um líder técnico", explicou.

Apesar de sua passagem ter durado cerca de cinco meses, Falcão deixou saudades no São Paulo.

"Ele era muito técnico, era algo impressionante. Em espaço curtos era um fenômeno. Muito habilidoso, muito mais do que a gente. Mas ele tinha um pouco de dificuldade para carregar a bola, parecia que ela prendia ela no pé, igual no salão. Ficou aquela coisa que se ele tivesse mais chances, será que não teria dado certo? Nós, jogadores do São Paulo, ficamos com essa dúvida", disse o ex-zagueiro, que ficou bem próximo do colega na época.

"Ele era um parceirão. Morávamos no CT no são Paulo. Conversávamos demais e ele me dava muitos conselhos. Mesmo sendo um cara renomado, brincávamos muito. Era um cara nota 10", complementa.

Para Alex, que naquela temporada conquistaria três importantes títulos, o "culpado" pela não sequência de Falcão nos campos é o mesmo eleito por Marco Aurélio Cunha.

"Eu acho que o Leão vacilou. Deveria ter colocado o Falcão pelo menos para testar. Ele colocou só na partida final contra o Mogi Mirim pelo Paulista. Mas foi muito pouco", disse, contando que, além dele, o volante Josué e o goleiro Rogério Ceni eram os mais chegados em Falcão naquele elenco do São Paulo.

Mesmo com o "gosto amargo" da passagem frustrada pelo futebol, os ex-companheiros acreditam que o retorno para as quadras acabou sendo benéfico para Falcão. "Ele voltou ao salão e estourou ainda mais, foi campeão mundial. Acabou que foi bom para ele no final das contas", opinou Alex.

"No futsal, ele é único. No campo, ele ia dividir esse espaço com outros caras, como Neymar, Ronaldinho. Eu acho que ele, no futsal, tem o mesmo papel que esses jogadores têm no campo. É um grande vencedor", finalizou Marco Aurélio.

* A reportagem tentou, por diversas vezes, entrar em contato com Emerson Leão para que ele pudesse dar sua versão, mas o treinador não respondeu as mensagens e nem atendeu as ligações.