<
>

Júlio Sérgio revela como situação na Roma o fez virar treinador e estagiar com Guardiola

Após uma carreira de 15 anos como goleiro profissional com passagem por times como Santos e Roma, Júlio Sérgio viu que era hora de pendurar as luvas. Logo em seguida, começou a colocar em prática a ideia de virar treinador, algo que vinha amadurecendo desde os tempos em que jogava na Itália.

"Os últimos anos na Roma foram muito difíceis porque eu não podia jogar por uma ordem da diretoria, me disseram que não ia jogar mais lá. Se quisesse jogar teria que ser emprestado. Eu resolvi ficar por lá porque estava me recuperando de uma lesão muito séria e naquele momento eu procurei a me preparar para ser treinador", disse Júlio Sérgio, atualmente técnico do Linense, ao ESPN.com.br.

Ele disse que uma conversa com Rudi Garcia, então treinador da Roma, foi fundamental para que tomasse essa decisão.

"Na época ele me falou: 'Júlio, a diretoria me deu uma ordem que não posso utilizá-lo. Então, vou te tratar como todo mundo e espero que você tenha uma postura profissional'. Eu respondi: 'Perfeitamente, assim será'. Quando pedi para rescindir meu contrato um tempo depois, eles foram muito generosos e me pagaram praticamente tudo pela minha postura. Como fui muito profissional, eles foram assim comigo", explicou.

Em 2014, Júlio Sérgio voltou ao Brasil e encerrou sua carreira pelo Comercial-SP após o Paulistão.

"Fiz essa transição bem, pois é difícil parar de jogar, mas como vinha de muitas lesões não foi tão difícil assim. Fiz um curso da treinador da Uefa e logo fui convidado para fazer a Série D do Brasileiro pelo Crac-GO, em 2015", relatou.

Depois, o ex-goleiro fez estágios na Roma, seu ex-clube, e também na rival Lazio. Também teve experiência com Carlo Ancelotti, no Real Madrid, além da semana que passou observando os trabalhos de Pep Guardiola, no Bayern de Munique, e Diego Simeone, mo Atlético de Madrid.

"Eu fui mais para ver a postura do Guardiola, como ele trabalha. A gente sabe que ele é um revolucionário das táticas, e conversar com ele te faz entender melhor os movimentos que o time faz em campo. Foi fantástico, muito proveitoso. Fui com o Vágner Mancini e Dorival Jr. e aprendi muito. Agora estou tentando colocar tudo isso em prática e continuar crescendo", relatou.

Após pasar um período nos EUA, ele treinou o Sertãozinho-SP, foi auxiliar do técnico Moacir Júnior e comandou o Prudentópolis-SP antes de assumir o Linense-SP, em 2018.

"Estou aqui desde a Série D do Campeonato Brasileiro e quase conseguimos o acesso. Ganhamos em casa, mas perdemos fora e não conseguimos a vaga. Agora, a gente vai jogar a Série A2 do Paulista e nos reapresentamos no dia 19 de novembro", contou.

Influências

Ao longo da carreira, Júlio Sérgio teve a chance de trabalhar com treinadores de renome no futebol europeu como Eusebio Di Francesco (Roma), Claudio Ranieri (campeão inglês pelo Leicester), Luis Enrique (vencedor da Champions League com o Barcelona e hoje na seleção espanhola) e Rudi García (Olympique de Marselha).

"Eles acrescentaram muito na minha personalidade como treinador. O Ranieri foi cara que mais joguei, era muito bom de vestiário. Mas ele teve alguns problemas de relacionamento com aqueles que não jogavam. Fiz uma pré-temporada com o Luis Enrique e vi que tinha ideias muito bem definidas e modernas para o futebol italiano. Viajar no dia do jogo, um futebol de mais posse de bola e cadenciado. Uma cara mais de futebol espanhol", analisou.

Já Rudi Garcia o influenciou principalmente na parte de como controlar um vestiário.

"O Rudi veio com uma proposta mais parecida com o futebol italiano, mas com um vestiário muito bom. Na sexta-feira ele deixava a gente escolher o que íamos fazer, como massagem e fisioterapia ou se quisesse só ir para o campo, podia. São coisas quase impensáveis hoje para o futebol brasileiro. O modo de condução no lado humano são coisas que procurei trazer um pouco disso tudo para tentar fazer algo diferente no Brasil", contou.

"Mesmo assim, não adianta querer implantar aqui o futebol que é feito na Europa. É outro jogo, outra estrutura e outro ritmo de jogo. Aqui no Brasil peguei muitas coisas com o Luxemburgo, Leão e Ivo Wortmann. Lá fora peguei um dos países onde tem a parte tática mais bem definida, que é a Itália", relatou.

Carreira como goleiro

Natural de Ribeirão Preto, interior de São Paulo, Júlio Sérgio começou nas categorias de base do Botafogo-SP e passou por Malutrom-PR, Francana-SP e Comercial-SP antes de chegar ao Santos, em 2002. Ao lado de jogadores como Diego, Robinho, Elano, Renato e Léo, ele ajudou a tirar a equipe da fila de 18 anos e conquistar o Brasileiro daquele ano.

"O primeiro campeonato que fiz pelo Santos foi essencial demais porque saí Série A2 do Paulista para jogar o Nacional e ser campeão. Nosso time era muito jovem e quase desconhecido", recordou.

Ele ficou na Vila Belmiro até 2005, quando transferiu-se para o Juventude. No meio do ano seguinte, foi para a Roma. Após ficar três temporadas na reserva, o goleiro assumiu a titularidade em 2009/10, com o técnico Claudio Ranieri, e foi vice-campeão do Italiano.

"Fiz dois ótimos clássicos contra a Lazio naquela temporada. No primeiro jogo, fiz uma defesa muito difícil. Espalmei um chute, a bola bateu no travessão e voltou para o atacante. Ele chutou, mas eu defendi no reflexo mesmo estando caído", afirmou.

"No jogo do segundo turno do Italiano contra eles eu defendi um pênalti quando estávamos perdendo por 1 a 0. Depois, conseguimos a virada por 2 a 1 com dois gols do Vucinic. Tenho grandes memórias destes tempos. Foi uma careira muito melhor do que imaginava", relatou.

Após jogar a temporada 2010/11, Júlio Sérgio foi emprestado por um ano para o Lecce. Ao voltar para Roma, ficou sem jogar até o começo de 2014, quando transferiu-se para o Comercial. Depois de atuar no Paulistão daquele ano, ele se aposentou nos gramados.