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Felipão 70 anos: primeiros abraçados por ele em 1999, gandulas o veem como técnico mais legal a passar pelo clube

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Felipão, 70 anos: de 'alegria nas pernas' a 'tesão para dar pênalti', veja as 10 melhores frases do aniversariante (4:12)

O treinador completa 70 anos nesta sexta-feira (4:12)

Já era madrugada, em 1º de novembro de 2018. Há cerca de uma hora, o Palmeiras empatara por 2 a 2 com o Boca Juniors e estava eliminado da Copa Libertadores, na semifinal. O gandula Leonardo Brancaccio, 56, estava cabisbaixo e andava com semblante triste pelos bastidores do Allianz Parque. Pela derrota e pela chance de não poder repetir um gesto de 19 anos atrás.

O dia é 16 de junho de 1999. Zapata bate o pênalti para fora, no gol do placar do Estádio Palestra Itália, que explode. Do banco de reservas do Palmeiras, todos saem correndo para a esquerda, na direção do goleiro Marcos. Menos Felipão.

O técnico corre para a direita, onde abraça um grupo de gandulas, maqueiros e outros funcionários de gramado. O primeiro a ser abraçado é Dionísio, que não trabalha mais no clube. O segundo é Brancaccio. Carlos Barbieri e Marcel Teixeira logo se juntam eles.

"É, eu achei mesmo que a gente iria repetir aquele abraço neste ano", diz ele, há 25 anos em campo em todos os jogos do Palmeiras e, por consequência, testemunha ocular das três passagens de Scolari pelo Palmeiras.

Leonardo, que é gerente comercial de uma empresa multinacional, trabalha voluntariamente nos jogos do Palmeiras desde 1993. "É a minha higiene mental", diz o comerciário, que não hesita nem por um minuto para afirmar: Felipão é o técnico mais legal com quem trabalhou nos jogos do clube.

"Sempre cordial, educado. Sempre nos deu muito valor", diz o gandula. Parece um contra-senso, quando se pensa na imagem de Felipão quase sempre nervoso e esbravejando. Ou dando respostas atravessadas para jornalistas em entrevistas coletivas. Mas, com eles, não.

"Realmente, não dá para falar um 'A' do Felipão. Sempre foi muito correto e educado. Fiquei muito feliz de ele ter voltado", diz Carlos Barbieri, 38, gandula nos jogos do Palmeiras desde 1996. Marcel Teixeira, 38, que também começou a trabalhar repondo bola em jogos do Alviverde em 1996, faz coro com os colegas.

"Com ele, a gente tem muito mais proximidade do que com qualquer outro técnico. Felipão dá atenção para todo mundo", afirma. Barbieri e Teixeira também foram companheiros de Brancaccio naquele abraço coletivo de 1999.

"Nenhum técnico tinha feito aquilo, de abraçar os gandulas. Não tem como se esquecer", relembra-se Teixeira, emocionado.

REPOSIÇÃO

Em especial nos anos 1990, os gandulas do Palmeiras tinham certo protagonismo durante os jogos. Durante a campanha vitoriosa da Libertadores, era comum que bolas, vindo da direção do banco do Palmeiras, entrassem no gramado durante ataques adversários, obrigando os árbitros a interromperem os jogos.

Teixeira, Brancaccio e Barbieri juram que nunca arremessaram essas bolas. Ou que tampouco viram Felipão fazê-lo ou ordenar que fosse feito.

"Ele nunca falou nada sobre isso. Dizia apenas para termos atenção no jogo. 'Gurizada, atenção no jogo'. Era só isso que ele dizia, e ainda diz", jura Brancaccio. "O mesmo que o Luxemburgo, o Leão, o Kleina... todos dizem isso e é óbvio", explica. "Todo técnico, em todo estádio, pede atenção dos gandulas".

Outros técnicos foram muito mais explícitos que ele nas orientações sobre o tempo de reposição de bolas. "O Levir Cupli, por exemplo (comandou o Palmeiras em 2002), dizia claramente para a gente não armar contra-ataque para os adversários", revela Leonardo, entre risos.

O trio também desmente uma lenda que circula nos grupos de palmeirenses, acerca da mudança da cor do uniformes dos gandulas. Até a chegada de Felipão, os funcionários de campo vestiam laranja. Agora, vestem azul - mais discreto, para que os gandulas ficam menos evidentes e, assim, possam "desaparecer" em momentos estratégicos dos jogos, diz a lenda.

"A gente trocou porque o laranja era muito feio e estava gasto. Não tem nada a ver com o técnico", diz Brancaccio.

MESMO VESTIÁRIO

Na época do Estádio Palestra Itália, a equipe de gandulas e os jogadores dividiam o mesmo espaço. Então, a proximidade era maior, tanto com Felipão quanto com o grupo.

"Eu me lembro de uma vez que o Júnior Baiano, de algum jeito, roubou RG do Felipão e mostrou para todo mundo. Como todo RG antigo, o dele era muito engraçado", conta Marcel Teixeira, exemplificando o tipo de contato que tinham com o grupo naquele época.

"Agora, no Allianz, a nossa sala é longe dos vestiários do elenco", explica.

Mas não foi só no Allianz que Felipão e os gandulas do Palmeiras viveram aventuras. Leonardo, por exemplo, entrou no túnel de acesso ao vestiário do Morumbi logo atrás de Felipão, depois dos pênaltis da Libertadores de 2000.

"Ele saiu que nem um louco, mandando bananas para a torcida do Corinthians. E eu vinha logo atrás dele, xingando todo mundo, junto com ele", conta, ele, entre gargalhadas.

MAIS TRANQUILO

Barbieri, Brancaccio e Teixeira descrevem com emoção o reencontro com o técnico, nesta volta ao clube.

"Ele se lembrava de todos nós, nos abraçou", conta Barbieri. "Ele me viu de longe e tirou sarro do meu cabelo branco, disse que eu estava ficando velho", conta Leonardo Brancaccio.

O trio é unânime em dizer qual a principal diferença do Felipão de hoje para aquele das passagens anteriores.

"Ele está mais tranquilo, mais sereno", diz Barbieri. "Eu não vou dizer comedido, não é isso. Mas é como se ele estivesse mais à vontade. Está num clube com quem é identificado e não tem mais nada a provar a ninguém", diz Brancaccio.

"Ele é muito família. Com a idade, parece que está melhor", diz Marcel Teixeira.

Os três não escondem que são fãs do treinador. Tanto como, digamos, colega de trabalho e como torcedores do Palmeiras. No dia em que o técnico completa 70 anos, eles são só agradecimentos para Scolari.

"Eu só tenho que agradecer a ele, por tudo que ele representa e fez pelo Palmeiras. Eu queria dar um abraço muito forte nele. Eu o associo muito ao meu pai", diz Brancaccio, emocionado. "O que Felipão fez em 2012, por exemplo... Qualquer um cairia com aquele time. Mas quantos seriam campeões com aquele elenco?", indaga ele.

"Realmente, não dá para comparar o Felipão com os outros técnicos. E olhe que muitos deles eram legais. Ele tem carisma, ele é diferente", diz Barbieri.

Mas talvez, a melhor definição do que Felipão representa não só para os gandulas, mas também para todos os palmeirenses, venha de Marcel Teixeira.

"Eu gostaria de tê-lo na minha família", resume ele.

De certo modo, eles e todos os torcedores alviverdes o têm.