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Felipão 70 anos: Defesa em 1º lugar, estilo paizão e seriedade; ex-comandados ainda veem no técnico as características dos primeiros anos de carreira

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O treinador completa 70 anos nesta sexta-feira (4:12)

Mais preocupado com a defesa. Muita marcação, velocidade de contra-ataque e centroavante de referência. No dia-a-dia, cara de bravo e seriedade. Mas, ao mesmo tempo, muito próximo e amigo dos jogadores, a quem protegia e por quem comprava brigas. Um paizão, que dava conselhos, perguntava da vida, procurava ajudar.

Os relatos sobre como Felipão era nos seus primeiros dias como técnico, em 1982, no CSA, são praticamente os mesmos de 1991, nove anos depois, quando ele conquistou o seu primeiro título de âmbito nacional, a Copa do Brasil, com o Criciúma.

E, basta ouvir os jogadores do Palmeiras falarem dele atualmente, 36 anos depois da estreia no cargo, para ver que Felipão ainda traz muito das características que tinha no início de sua carreira.

No CSA, ele conquistou seu primeiro título como técnico, o Alagoano de 1982. No clube catarinense, ganhou seu primeiro título de âmbito nacional. No clube paulista, ele tem hoje grandes chances de conquistar seu primeiro título brasileiro em um campeonato de pontos corridos.

DE COLEGA A CHEFE

Mesmo como jogador, Felipão já era quase técnico. E quem diz isso é alguém que trabalhou ao lado dele nas duas situações. Rommel, 60, foi colega de time dele, em 1981. E seu comandado, em 1982, quando Scolari se tornou treinador do CSA e conquistou o Campeonato Alagoano.

Rommel era o camisa 10 do CSA do técnico Valmir Louruz (1944-2015), quando Felipão chegou para encerrar a carreira de jogador no clube. Por seu perfil sério e focado, o gaúcho logo se tornou capitão da equipe, embora não fosse dos melhores do ponto de vista técnico.

"Tecnicamente, ele era fraco. Mas mostrava muita liderança e, já naquela época, um grande conhecimento tático", diz o ex-jogador. "Eu acho que ele já veio para o CSA pensando em fazer essa transição para treinador", diz Rommel.

"Como jogador, ele não era ruim, era péssimo", diz, aos risos, outro colega de time dele no CSA, o atacante Jacozinho.

Famoso por ter ofuscado Zico em seu jogo comemorativo de volta ao Flamengo, em 1985, ao fazer um golaço após tabelinha com Diego Maradona, o ex-atacante, brincadeiras à parte, se lembra com carinho do jovem Scolari.

"Ele dava muita botinada, mas era um cara sensacional, muito inteligente, e acabamos nos tornando amigos", conta Jacó. Mas nem sempre foi assim.

Felipão chegou ao CSA no final de 1981, pelas mãos de Louruz, junto com alguns outros jogadores do sul do país. "Eram uns oito gaúchos, mais ou menos", conta Jacozinho.

"Logo no primeiro treino, eu já dei uma caneta nele, para testar", diverte-se Jacozinho.

O grupo que Felipão encontrou no CSA já tinha suas regras. "Cair na noite" após as partidas disputadas fora de casa era uma delas. "A gente já saía do hotel com a mala pronta pra só chegar e ir embora, depois da noitada", conta Jacó. Esse também era o expediente planejado quando o CSA viajou para um jogo, durante a Taça de Prata de 1981

"Eu acho que era contra a Inter de Limeira (Nota da Redação: O CSA não enfrentou a Internacional em 1981). Ele veio com um papo de que não queria que a gente saísse depois do jogo, que ia fazer um churrasco pra gente e tal, que o campeonato estava chegando em um momento importante", relembra-se Jacó. "Mas a gente queria sair, não tinha conversa, não tinha essa de que ele era o capitão", diz.

"Quando o jogo acabou, a gente começou a ver quem ia, e o Felipão de cara feia. Fomos do mesmo jeito. Quando chegamos a Maceió, ele veio falar comigo, bravo", conta Jacozinho. "Aí, eu respondi também, disse para ele que já tínhamos o nosso esquema e que ele era bem-vindo para se juntar ou ficar na dele, mas que não viesse querer mandar", conta.

"Ele não gostou nada, mas ainda bem que durou um dia só o nervosismo dele comigo", diverte-se Jacozinho.

DEFESA EM PRIMEIRO LUGAR

Rommel lembra-se de que Felipão era um capitão que comandava o time só no olhar. Essa foi uma das qualidades que ele levou adiante, quando se tornou treinador. "Ela tinha uma maneira de lidar com o grupo, um tipo de liderança muito grande", diz ele.

"Ao se tornar técnico, ele mudou muito pouco. Ele estava acima da gente, hierarquicamente, mas continuou igual, falava nossa língua", diz o ex-meia. "Ele já chegou mais velho ao CSA, já tinha passado por muita coisa. Não era de brincadeira, mas era amigo", afirma.

"No que diz respeito ao estilo de jogo, era muito parecido com o que ele aplica até hoje. Isso de defender sempre, fechar a casinha e deixar o ataque mais livre para ser criativo", diz Rommel. "Ele me dizia: 'quero que você jogue com liberdade, não fique preso a um só setor. Você é o meu jogador de criatividade", relembra-se.

No Palmeiras de 1999, que ganhou a Libertadores, Felipão fazia algo parecido. Sampaio, Rogério e até Zinho marcavam muito, para que Paulo Nunes, Alex e Oséas jogassem mais soltos.

"No comando do ataque, jogava o Dentinho, um centroavante alto, muito forte, como referência", conta. Foi o primeiro jogador do tipo escalado pelo treinador, que depois teria em Jardel e Oséas os principais expoentes desse modelo de jogador.

No Criciúma de 1991, campeão da Copa do Brasil, a preocupação defensiva também era prioritária. Mas, assim como no CSA, alguns jogadores tinham um pouco mais de liberdade. Era o caso de Jairo Lenzi, ponta-esquerda daquele time.

Foi dele o escanteio cobrado com perfeição para o gol de Vilmar, que deu o empate e o título ao time de Felipão, contra o Grêmio em Porto Alegre. Em Santa Catarina, um 0 a 0 garantiu o título.

"Aquele título pegou todo mundo de surpresa. A gente mal acreditava que estava na final, quanto mais que seríamos campeões", conta Lenzi, saudoso.

"A parte defensiva prevalecia. Eu mesmo, muitas vezes, também marquei laterais. Ele nos cobrava que estudássemos as características do adversário. Assistíamos, no videocassete, aos lances deles. E ele nos cobrava, depois, perguntava as características dos jogadores", conta Lenzi. "No ataque, o Soares (1963-2018), nosso centroavante, fazia a parede e ganhava bolas pelo alto", diz.

Outra característica que Felipão já trazia daquela época era a Fé - e um pouco de superstição. Muito católico, Scolari fez amizade com um padre da cidade de Criciúma quando foi técnico do time da cidade. Padre Pedro gostava muito de futebol, assistia e até participava de alguns treinos de dois toques do Tigre.

"O padre entrava no campo e o Felipão já avisava: 'peguem leve com ele, hein? Não vão machucar o cara, é pecado. Vai que dá azar', ele nos dizia", conta.

Coincidência ou não, ninguém nunca deu uma chegada dura no sacerdote, e o Criciúma conquistou a Copa do Brasil. No caminho do campeão, que, àquela época, disputava a Série B do Brasileiro, ficaram Ubiratan-MS, Atlético-MG, Goiás, Remo e Grêmio.