<
>

Felipão, 70 anos: Do Japão ao Kuwait, conheça os causos do treinador pelo 'lado B' do futebol

play
Felipão, 70 anos: de 'alegria nas pernas' a 'tesão para dar pênalti', veja as 10 melhores frases do aniversariante (4:12)

O treinador completa 70 anos nesta sexta-feira (4:12)

O técnico Luiz Felipe Scolari, um dos maiores personagens da história do futebol brasileiro e mundial, completa 70 anos nesta sexta-feira.

Atualmente em sua 3ª passagem pelo Palmeiras, Felipão possui uma longeva e vitoriosa carreira como treinador, que foi iniciada em 1982, no CSA, mesmo time pelo qual se aposentou como zagueiro.

Ao longo destes 36 anos, ele passou por diversos times e seleções em várias partes do planeta, faturando quase 30 títulos e vivendo uma série de aventuras.

Os melhores causos, porém, ocorreram longe dos holofotes de clubes como Verdão e Grêmio, ou das seleções de Brasil e Portugal, equipes pelas quais Scolari participou de suas conquistas mais importantes.

Antes e depois da fama, o bigodudo viveu poucas e boas principalmente no futebol asiático, no qual comandou uma série de time e equipes nacionais, experimentando o verdadeiro "lado B" do futebol.

Por isso, o ESPN procurou velhos amigos do aniversariante desta sexta-feira e selecionou algumas das melhores histórias de Luiz Felipe Scolari em suas andanças pelo mundo.

Confira:

'QUERO QUE A BARREIRA ANDE'

por Mabília*

Eu fui treinado pelo Felipão por pouco tempo no Grêmio, no começo da minha carreira, e depois no Japão. Ele é um dos meus espelhos na profissão.

No nossos time do Jubilo Iwata, havia o italiano 'Totó' Schillaci, que jogava demais, e o Dunga. Ou seja: o artilheiro da Copa de 90 e o capitão da seleção brasileira na Copa de 94. Era um elenco muito forte. E ainda tínhamos o Adílson Batista na defesa!

A minha maior lembrança é que os japoneses são muito disciplinados nos treinos, e obedecem todos os comados que treinador dá.

No entanto, eles têm uma cultura de honestidade muito forte. O Felipão queria que eles cavassem faltas e pênaltis, e também que a barreira andasse. E os caras não queriam fazer nada disso (risos). São conflitos culturais no dia-a-dia, e isso me chamava muito a atenção.

Tivemos uma palestra uma vez sobre isso, com os árbitros mostrando o que não queria que os jogadores fizessem. Aí era só vídeo de brasileiros cavando falta e pênalti (risos).

Quando o cara saiu da sala, o Felipão mandou segurar todos os jogadores e disse: ‘Querem ser campeões? Eu quero que cave pênalti, que cave falta e que a barreira ande’ (risos).

Ele é extremante competitivo e, quando vai para um lugar que a cultura é de fair play, aí já viu (risos)...

Brincadeiras à parte, o Felipão foi idolatrado no Japão. A torcida tinha uma relação muito boa com ele e os jogadores. Tínhamos muitos jovens de qualidade, que amadurecem com o Felipão. Prova disso é que vários deles depois foram depois para seleção japonesa.

Apesar do Felipão não ter ganhado títulos no Jublio Iwata e ter ficado pouco tempo, com certeza deixou um legado de trabalho, principalmente na parte tática, Ele é muito exigente nos treinos e detalhista demais, e todos aprenderam muito.

Enquanto a gente trabalhou junto no Brasil, eu via que todo time do Brasil que perdia um jogo e ligava para o Felipão para trazê-lo de volta (risos). Ele era assediado toda semana!

Não era fácil para ele, porque era o treinador mais valorizado no Brasil devido às conquistas com o Grêmio. Ele não foi para o Japão por uma questão financeira, porque o dólar estava um para um com o real. Acho que ele foi mais para dar um tempo da pressão do Brasil. Foi dar uma espairecida, renovar as energias e voltar para a peleja.

Uma vez o Felipão me contou que a ida dele para o Palmeiras em 1997 foi curiosa.

Estavam todos ligando para ele do Brasil: Corinthians, Flamengo, Cruzeiro e também Palmeiras. Ele consultou a esposa, Dona Olga, e perguntou: 'E aí, o que eu faço?'. Ela respondeu: 'Faça uma proposta que ele não vão aceitar. Você não está dizendo não'.

Aí ele fez lá e fez a proposta... Mas o Palmeiras aceitou (risos).

*Ex-meio-campista, Marcelo Mabília foi comandado por Luiz Felipe Scolari no Grêmio e também no Júbilo Iwata-JAP, em 1997. Atualmente, trabalha como treinador do Metropolitano-SC, pelo qual foi campeão da última Série B de Santa Catarina

'VERY GOOD PRICE'

por Celso Roth*

Eu era preparador físico e o Felipão me deu a primeira chance como treinador do sub-20 do Qadsia, do Kuwait. Eu era o tradutor dele também na equipe principal para o inglês.

O mais curioso foi que quando eu cheguei ao Kuwait, às 2h30 da manhã, ele foi me receber no aeroporto. Mas, três horas depois, já precisou ir para o Egito para fazer a pré-temporada da equipe principal do Qadsia (risos). Nós só nos reencontramos quase dois meses depois porque eu fui para a Hungria com time sub-20!

Eu tive que ficar sozinho e me virei lá no Kuwait. Depois, demos muita risada da situação, porque ele tinha prometido me ajudar, dar todas as dicas para o começo da carreira de treinador. Mas as coisas não aconteceram da forma como planejamos, pelas circunstâncias do futebol.

Os árabes falam inglês por serem os melhores mercadores do mundo. Conseguimos nos comunicar bem com isso. Eu tinha que traduzir as palestras do meu querido amigo. Eu traduzia com aquela perfeição fantástica (risos)! E o melhor é que eu tinha que incorporar o Felipão muitas vezes (risos).

O mais engraçado é que várias vezes ele dava uma engrossada com os jogadores, naquele estilo paizão do Felipão de dizer a coisas, eu ia lá e dizia de uma outra maneira. Ele me via traduzindo e depois e falava rindo: ‘Tu está me enganado. Não está falando o que eu estou dizendo (risos)’.

O time não ganhava há muito tempo um título, acho que uns 20 anos. Aí nós ganhamos a Copa do Emirado e foi um festa fantástica. Nós jogamos a final em campo neutro e fomos depois para o nosso estádio. Quando chegamos, Felipão foi carregado nos braços pelos torcedores. Foi um técnico que ficou marcado para sempre na história, porque tirou o clube da fila.

Trabalhar no período do Ramadã foi extremamente interessante. A gente tinha que respeitar, porque depois que nasce o sol não pode mais comer e nem beber. Então, tínhamos que mudar horário de treinos e sempre respeitar as cinco rezas diárias. Aprendemos muito e precisamos nos adaptar. Isso é importante para qualquer estrangeiro: não dá para viver aonde não se respeitar o ambiente local.

Outra coisa engraçada é que os árabes são muito espertos. Quando a gente saía para dar uma volta, eles viam a gente e logo soltavam: 'very cheap' e 'very good price' (risos). E o Felipão se saía muito bem no comércio, porque o inglês dele era parecido com o dos árabes (risos).

Nós tivemos negociações homéricas com eles nos mercados onde fazíamos as compras. Trouxemos muitas coisas interessantes para o Brasil. Foram sei lá quantos tapetes (risos)! Também compramos vários objetos de decorações de casa, só coisas lindas!

Nós fomos embora do Kuwait assim que o país foi invadido pelo Iraque, em agosto de 1990, na Guerra do Golfo. Por sorte nós não estávamos no país naquelas semanas. O Valmir Louruz, que era da nossa equipe, teve dificuldades para sair e ir para a Arábia Saudita.

O Felipão tem 70 anos e é uma pessoa que a gente tem que colocar no seu patamar devido. Ele está dando seu melhor no Palmeiras, com toda a energia, e demonstrando que idade não é empecilho para se continuar trabalhando.

*Celso Juarez Roth foi preparador físico e auxiliar de Luiz Felipe Scolari no início da carreira. Após virar treinador, comandou boa parte dos maiores clubes do Brasil. Sua conquista mais importante foi a Libertadores de 2010, com o Internacional