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Felipe Mattioni, do Juventude, começou no Grêmio e defendeu Milan de Ronaldinho e Kaká

Felipe Mattioni (1ª à esq, agachado) em amistoso do Milan, em 2009 Getty Images

A geração revelada pelo Grêmio entre a metade e o final dos anos 2000 rendeu boas transferências ao clube. Uma delas foi a do lateral direito Felipe Mattioni, que surgiu bem em 2007 e rapidamente chamou a atenção do futebol italiano.

"Eu comecei a jogar futebol ainda criança, em uma escolinha de Ijuí, a minha cidade. Passei em um teste no Grêmio aos 14 anos e fiquei. Lá, joguei com Carlos Eduardo, Lucas Leiva, Douglas Costa... Era uma geração muito boa! Todos foram negociados com o futebol europeu", lembrou o atleta, hoje com 29 anos e defendendo o Juventude na Série B, à ESPN.

"Eu subi para o profissional com 18 anos, na pré-temporada de 2008. O (técnico) Vágner Mancini saiu e veio o Celso Roth, que gostou de mim. Fomos vice-campeões do Brasileiro, e eu fiz muitos jogos. Atuei bem e disputamos o título até o fim, apesar de eu ainda ser bastante jovem", recordou.

Por ter cidadania italiana, Mattioni chamava a atenção de olheiros estrangeiros, especialmente da "Bota", desde a base. E, em janeiro de 2009, não teve jeito: o Milan, na época um dos times mais fortes e poderosos da Europa, veio com tudo e contratou a joia gremista por 4 milhões de euros (R$ 17 milhões, na cotação atual).

Com isso, sua passagem pelo profissional do Grêmio acabou durado apenas um ano.

"Na base, eu tinha um certo destaque por causa da cidadania. Disputamos muitos torneios fora do Brasil e eu sempre ia bem. Aí acabou chamando a atenção também quando eu fui promovido, e muitos times estrangeiros vieram atrás, porque a lateral era uma posição bem escassa naquela época. Nisso, veio o Milan e tudo aconteceu", relatou.

"Havia várias propostas, porque eu havia sido vendido para um grupo de investidores. Mas, quando chegou o Milan, eu pensei: 'Tem que ser aí!'. Era u time que eu gostava desde criança, pois brincava com ele no videogame. Além disso, havia muitos brasileiros lá, como o Pato, que eu já conhecia, e meus ídolos Kaká e Ronaldinho, além de Dida e Emerson. Foi um sonho", suspirou.

Além dessa "seleção brasileira", os rubro-negros tinham à época no elenco nomes como Paolo Maldini, Andriy Shevchenko, Alessandro Nesta, Pippo Inzaghi, Andrea Pirlo, Clarence Seedorf, Gianluca Zambrotta, David Beckham e Gennaro Gattuso.

"Cheguei, fui para o time profissional e treinei bastante com as feras. Fiz algumas partidas pelo time de base, mas fiquei no profissional em período de adaptação. Eu era muito jovem, faltava maturidade ainda, então serviu como aprendizado. Eu via o profissionalismo de alguns jogadores, como Maldini e Seedorf, que chegavam uma hora antes de todo mundo para fazer academia. Mesmo já tendo ganhado todos os títulos possíveis eles seguiam profissionais e dedicados ao extremo", elogiou.

Foi com Gattuso, porém, que Mattioni viveu uma divertida história.

"Teve um treino que eu dei um drible bonito e ele ficou bravo. O Pato encostou em mim e falou: 'Felipe, pelo amor de Deus, não pega mais na bola que ele vai te quebrar na porrada!' (risos). Eu tive que me cuidar, porque ele chegava forte, mesmo!", brincou.

"Mas ele é um baita cara. Estava voltando de uma cirurgia complicada no ligamento cruzado fazia pouco tempo. Dentro de campo ele exigia muito de todos, era um pouco maluco até, mas fora era bem legal", comentou.

O brasileiro ficou no Milan entre janeiro e junho de 2009. Ao todo, jogou três amistoso e fez uma partida oficial contra o Catania antes de retornar às categorias de base. No entanto, seguiu convivendo com vários atletas do profissional, e formou boa amizade com Ronaldinho.

"Eu gostava muito do Ronaldinho, porque a simplicidade dele é algo fora do normal. É uma das melhores pessoas que você pode conhecer no meio do futebol. A gente jogava videogame sempre no quarto dele e tinha um frigobar lotado de Guaraná. A gente adorava beber o Guaraná do 'Bruxo' na faixa (risos)", divertiu-se.

IDA PARA A ESPANHA E DEPOIS INGLATERRA

Sem espaço em meio aos "galácticos" do Milan, Felipe Mattioni foi emprestado ao Mallorca, da Espanha, para ganhar rodagem. Por lá, se destacou bastante na temporada 2009/10 e acabou chamando a atenção de outros clubes.

"Foi emprestado com opção de compra e fui muito bem. Fizemos uma ótima campanha e chegamos a classificar para a Champions, mas por conta das dívidas do clube, acabamos não disputando.[N.R.: o Villarreal acabou convidado pela Uefa para disputar o torneio no lugar do Mallorca]. Foi meu melhor ano na Europa, e fui eleito uma das revelações e um dos melhores laterais do Espanhol", rememorou.

"Cheguei também a fazer um golaço que concorreu ao prêmio de gol mais bonito da competição. Foi um ano maravilhoso, em que pude aplicar tudo o que aprendi no Milan. E como o futebol espanhol é muito técnico, minhas características encaixaram muito bem", contou.

Na temporada seguinte, com o Mallorca em crise financeira, o brasileiro gostou do projeto apresentado pelo técnico Mauricio Pochettino, hoje no Tottenham, e assinou com o Espanyol, continuando assim em LaLiga.

Quis o destino, porém, que sua carreira entrasse em um momento de grande dificuldade.

"Fui comprado pelo Espanyol depois de conversar muito com o Pochettino. Só que cheguei lá e sofri duas lesões bem sérias, infelizmente. Foi uma em cada início de temporada, em joelhos diferentes. Eu estava em um momento ótimo, e o Mauricio gostava muito de mim, mas não consegui jogar. Quando me recuperei, demorei ainda mais um ano e meio para conseguir entrar em forma e jogar", lamentou.

Em 2014/15, o contrato de Mattioni com o Espanyol acabou, e o brasileiro ficou sem time. Passou a treinar por conta, esperando uma nova chance, mas as lesões haviam complicado sua situação no futebol europeu. Até que um dia seu telefone tocou...

"Eu estava fazendo a pré-temporada e um dia o Roberto Martínez, que na época comandava o Everton e hoje é técnico da Bélgica, me ligou. Eu estava sem clube, e ele havia dito que gostava de mim da época do Mallorca. Falou que queria me ajudar a recomeçar no futebol, e me apresentou um projeto para ficar dois anos no Everton", relatou.

RECUPERAÇÃO E VOLTA AO BRASIL

Quando chegou a Liverpool, Felipe ouviu de Martínez que seria emprestado e retornaria ao Everton no fim da temporada, assumindo então a vaga do lendário Tony Hibbert, que jogou 16 anos pela equipe azul e estava para aposentar.

"Fui para o Doncaster Rovers, que era treinado pelo Darren Ferguson, filho do Alex Ferguson. Era para eu ficar dois meses e disputar 10 jogos. Mas acabei sofrendo uma lesão na panturrilha e voltei ao Everton depois de seis partidas", lamentou.

O gaúcho acabou ficando no Everton até o final da temporada 2015/16, e por lá também fez grandes amigos.

"Eu me dava muito bem com o Lukaku, porque nós fazíamos dupla nos treinos de finalização antes dos jogos. Sempre ganhávamos os campeonatos que o Martínez organizava, porque o cara era muito bom, mesmo! Não errava um chute, era só bomba (risos)", sorriu.

Quando Roberto Martínez foi demitido dos Toffees e a esposa de Mattioni engravidou, em uma gravidez de risco, ele decidiu que era o momento de retornar ao Brasil. Passou por trancos e barrancos, mas hoje está feliz de novo.

"Fiquei uns sete meses sem jogar até que o (técnico) Julinho Camargo me chamou para ir para o Boa Esporte. Eu fui sem saber muita coisa sobre o clube. Cheguei e fiquei só três meses, porque o clube era muito ruim e saí de lá", detonou.

"Aí fiquei mais cinco meses parado e, no começo deste ano, fui para o Veranópolis jogar o Gaúcho. Lá eu consegui ter uma ótima sequência, fui um dos destaques do Estadual e acabei contratado pelo Juventude para a Série B", celebrou.

Pelo time alviverde, o lateral direito vem sendo titular absoluto, e soma 16 jogos e um gol, números que há muitos anos não conseguia.

"Estou muito feliz e quero continuar jogando sempre. Eu queria fazer 30 jogos oficias ou perto disso. Quero ajudar como puder até o fim da temporada para não cairmos para a Série C", afirmou.

"Eu almejo ainda voltar a jogar uma Série A ou de repente voltar ao futebol do exterior, mas no momento estou focado e concentrado aqui no clube. Gosto demais daqui e quero seguir crescendo. Estou bem fisicamente e estou feliz de novo", finalizou.