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'Desaposentado' e no futebol tailandês, Lenny ainda se arrepende de saída do Palmeiras: 'Felipão gostava de mim'

De volta ao futebol, depois de quase três anos sem jogar, Lenny tem duas certezas, no que diz respeito à sua carreira.

A primeira é que os erros do passado não podem mais ser corrigidos. Erros, aliás, que ele, entre risos, admite ter cometido aos montes. A segunda é que ser jogador de futebol é bem mais fácil do que ser dono de bares e restaurantes.

Aos 30 anos, e a um empate de subir para a primeira divisão da Tailândia com o Chiangmai FC, neste sábado (29) o atacante vive uma fase leve.

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Primeiramente quero agradecer a Deus, véii tô sem palavras, mas o Senhor é realmente fenomenal !! Tenho certeza que Ele fez o mundo girar, parar, pular, acho que até dar um esquivadinha Ele fez. Eu sou muito realista e sei que isso que aconteceu cmg era quase impossível acontecer, apesar de ser uma vontade enorme dentro de mim, eu nem nutria mais, simplesmente por saber o quão difícil seria, e ainda em vista do que eu pensava, por exemplo, o caminho mais fácil era eu voltar a jogar no Brasil e eu era cético em não querer, aliado ainda a 3 anos sem jogar... enfim, mesmo com todas essas coisas, e quase que 99% de chances de não acontecer mais, quem manda é o Homem lá de cima, só eu sei tudo que Ele fez, e EU VOLTEI !!! To extremamente satisfeito com esse momento, Ele não escreve uma História pela metade, um dia vocês saberão como tudo isso aconteceu, mas só adianto que não tenho como não acreditar que Deus existe e quando Ele acha que é a hora, Ele move tudo, gira o mundo, e faz acontecer ! #TodaHonraEGlóriaSeráDadaATiSenhor

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Da concentração de seu time em Khonkaen, onde enfrentará o homônimo time local, Lenny conversou com a ESPN sem rancores ou tristezas consigo mesmo e com o seu passado. Mas arrependido, sim, de algumas decisões que ele, hoje, mais maduro e escaldado, não tomaria.

Ter saído do Palmeiras, em 2011, é a que mais lhe persegue.

"Meu empresário da época me convenceu a sair. Eu devia ter ficado. O Felipão gostava muito de mim", relembra-se, com nostalgia, o jogador que despontou em 2006, no Fluminense, sendo até cogitado para ser o atacante "jovem aprendiz" daquele Brasil que fracassou na Copa disputada na Alemanha.

"Eu era tão alienado que não me ligava tanto nisso. Não tinha tanta rede social, também. Mas lembro que isso era falado. Sempre tem um cara mais jovem entre os convocados e diziam que poderia ser eu", diz ele.

Do Flu, Lenny, que não foi à Copa, foi emprestado para o Braga, de Portugal, até chegar ao Palmeiras, em 2008. No clube paulista, conquistou o Estadual com destaque.

"Na primeira semifinal, quando o São Paulo vencia por 2 a 0, sofri o pênalti que recolocou a gente no jogo. Na volta, fizemos 2 a 0 e fomos à final com a Ponte Preta. Daí, foi 1 a 0 lá e 5 a 0 aqui", relembra-se, com carinho.

Em 2010, Lenny quase passou em branco. Entre cirurgias e lesões, perdeu quase um ano e meio. Mas se recuperou

"No fim de 2010, eu já joguei um pouco. Em 2011, era provável que eu já jogasse, também. O Felipão gostava de mim", revela.

"Mas meu empresário na época falou pra eu ira para o Figueirense, com menos pressão, que seria melhor para mim. E foi terrível. Foi um grande erro", conta.

LENNY EMPRESÁRIO

Lenny decidiu abandonar o futebol em 2015. Até 2016, ainda tentou assinar contratos de curto prazo, mas não engrenava. Desde que deixara o Palmeiras, em 2011, na verdade, ele foi perdendo, aos poucos, o entusiasmo pela profissão.

"Tive muitas lesões depois do Palmeiras e aquilo, ano após ano, vai dando um desespero. Toda hora machucado, não conseguia jogar", diz.

Lenny começou, então, a peregrinar. Foi para o Figueirense. Passou pelo futebol japonês, Treinou no Madureira - mas só para não perder a forma. Jogou no Atlético Sorocaba e, na Portuguesa, jogou um amistoso.

"Eu estava acostumado a estar em clubes grandes e a jogar. Da grandes competições de clube, só não joguei a Champions League. Mas não suportava mais aquilo de não conseguir entrar em campo - e por clubes pequenos, com mentalidade amadora, algumas vezes. Jogar futebol era a única coisa que eu sabia fazer", diz.

Foi em janeiro de 2016 que ele fez um amistoso pela Portuguesa. E foi quando lhe ofereceram R$ 1,5 mil mensais de salário, que ele recusou.

Um mês depois, sua avó, por quem ele fora criado, morreu. E aquilo fez com que ele desejasse se firmar no Rio de Janeiro e abandonar a carreira de uma vez.

"Eu tinha um dinheiro parado e só via minhas economias irem embora. Tinha que entrar alguma coisa. Mas eu não tinha nenhuma experiência com nada. Ninguém na minha família tinha", conta Lenny.

Então, ele decidiu, de uma só vez, comprar um restaurante e duas lanchonetes. "De uma hora para outra, eu tinha 42 funcionários e zero know-how", relembra-se.

"E eu não tinha sócios, tinha que estar lá toda hora, olhando. Porque eu coloquei funcionários com experiência, mas é diferente. Só quem colocou dinheiro mesmo vai ficar ali, fazendo de tudo para virar", explica.

"Não tem fim de semana, não tem hora. Tinha dia que eu pensava: 'vou tocar o f***-se'. Mas daí, eu ficava imaginando que as coisas estavam dando errado e eu não estava lá", diz.

É curioso ver um ex-jogador reclamar de falta de fim de semana. Mas Lenny explica as diferenças. Foi com uma gargalhada que ele respondeu à pergunta quanto ao que era mas fácil: ser jogador profissional ou empresário.

"É muito mais fácil ser jogador!", exclama. "Contador, fornecedores, Ceasa, ações trabalhistas, fiscalização, ministério público, rotina chata... o jogador tem só de jogar", diz.

"Não é uma crítica aos jogadores, mas a verdade é que jogador recebe tudo na mão, para focar apenas no jogo. O futebol faz de você um robô. Você chega para o treino, te dão uma roupa. Você sai, vai para ônibus, de lá para o aeroporto, com o check-in já feito, depois para o hotel...", conta.

"Há um jogo decisivo no sábado, mas eu estou aqui no hotel, falando ao telefone. Não tenho que me preocupar com nada, só com jogar. E é isso que esperam de mim, entregar no campo", exemplifica.

"A gente é doutrinado só para jogar, não para viver", diz. "Depois que você sai é que você vê o tanto de coisa que tem para fazer", diz. "O jogador de futebol reclama da rotina porque só está acostumado com aquilo e, realmente, muitas vezes, não imagina o que existe lá fora."

TAILÂNDIA POR ACASO

Aos poucos, Lenny foi redimensionando sua vida como empresário. Por conta de música alta, o Ministério Público fechou um de seus restaurantes. De um outro, ele se desfez. E, no que restou, ele colocou um sócio, ganhando um pouco de respiro. Em paralelo, entrou de sócio em uma academia de ginástica, onde passou a treinar.

"Aí, deu uma aliviada. Na Academia, meu sócio era fisiculturista. E e entrei nessa, fiquei forte pra caramba, estava em forma", conta.

Já com ajuda, ele voltou a ter uma rotina mais tranquila. Foi por isso que ele achou tempo para jogar futevôlei, no início desse ano. E, na praia, jogando futevôlei, ele se encontrou com Alexandre Gama, seu ex-treinador no Fluminense desde a época do infantil.

"Ele me contou que havia um time tailandês precisando de um atacantes e perguntou se eu topava, mesmo sabendo que eu estava parado", conta. "Àquela altura, minha rotina estava mais sossegada e eu aceitei".

Só que Lenny foi vetado. O técnico soube que Lenny não estava jogando e o vetou, desconfiado.

Um tempo depois, o ex-jogador Boquita, com passagens por Corinthians e Portuguesa, o convidou para integrar um time que ia fazer uma série de amistosos no exterior. Não havia salário, mas todas as despesas seriam cobertas. O destino? A Tailândia.

"Era pra ser. Não sei se é destino ou Deus. Gosto de pensar que foi Deus. O fato é que eu estava na Tailândia", relembra-se. Assim que chegou, Lenny ligou para Alexandre Gama, dizendo o que estava fazendo por lá.

"Ele me pediu o endereço, porque ia levar o presidente do clube, que era dono de outros dois times, para ver o jogo. Ele tinha um time na primeira, um na segunda e um na terceira divisão", diz, sobre o empresário Mitti Tiyapairat.

"Só que eu dei o endereço errado, sem saber. Deu um tempo e o Gama me ligou. Pedi desculpas e tal, expliquei que não conhecia nada e disse a ele que haveria um outro jogo, no dia seguinte. E foi até bom. Porque eu joguei mal no primeiro jogo", conta.

Já no segundo, Lenny fez dois gols e deu assistência para um terceiro, antes de pedir substituição, aos 30 do segundo tempo.

"O dono do time veio falar comigo no alambrado e perguntou há quanto tempo eu não jogava. Disse que eram três anos e ele se espantou. 'E tá jogando assim?', ele perguntou. A gente conversou e ele me ofereceu um contrato de seis meses no time da terceira divisão, para uma experiência. Eu aceitei", conta.

No dia da assinatura, porém, as coisas haviam mudado para melhor. Ele iria atuar na segunda divisão. E, em vez de seis meses, ele teria um ano e meio para mostrar serviço. Seu técnico seria Carlos Eduardo Parreira, soprinho do Parreira tetracampeão com a seleção em 1994. Ao ver Lenny de perto, avaliou que ele poderia jogar em bom nível.

"Achei ótimo, mas eu estava pesado, por causa da musculação. O começo foi complicado. O futebol aqui é muito rápido e eu estava parecendo um caminhão, desses trucados, na hora de girar. Fiquei preocupado, por causa de meu passado com lesões", diz.

Em vez disso, Lenny bateu um recorde pessoal no país asiático e completou dez partidas seguidas. "Desde 2010, eu não conseguia fazer mais de sete, oito jogos seguidos, no máximo", conta ele, há quatro meses na Ásia.

Além dele, o Chiangmai tem no elenco o atacante Soares, com quem Lenny jogou no Fluminense, e o zagueiro Luiz Verdini.

Depois de tantas decepções, Lenny já não faz planos a longo prazo no futebol.

"Eu estou pensando só no ano que vem. Acho que 2019 pode ser meu ano", diz ele. Com o fim da segundona do Tailandês, Lenny vai treinar com o Chiangrai, do mesmo grupo do seu time, mas da Série A.

"Vou só treinar, não posso jogar a Primeira Divisão, mas vai ser muito bom para mim", diz ele, que vai se reencontrar com Alexandre Gama.

E, quem sabe, com o sucesso no futebol, novamente.