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Ex-Corinthians conta como presente de Tite o ajudou a superar momento mais difícil da carreira

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No começo de 2013, Adilson estava em casa e quando foi surpreendido por um telefonema de Tite. O atacante, que havia defendido o Corinthians no ano anterior, estava afastado dos gramados após suspeita de um problema no coração.

“Curioso que eu nem tinha o telefone dele, porque morria de medo homem. Era o Tite! Ele falou: ‘Eu sei que você está afastado e vai ficar um tempo parado. Me dá o endereço da sua casa que vou te mandar um livro para ler e ir refrescando a cabeça’. Eu mandei o endereço e uns três dias depois chegou um livro”, recordou o jogador, atualmente no Juventus, ao ESPN.com.br.

“Sendo bem sincero não sou muito fã de ler, é difícil achar um jogador que gosta (risos) - mesmo tendo terminado os estudos e começado faculdade de educação física. O livro se chama “Fora do Comum” e veio com uma dedicatória do Tite: ‘Um sincero abraço! Coragem é fé, vai dar tudo certo’. Esse livro, eu guardo na minha casa como se fosse um troféu, junto com a faixa de campeão da Libertadores, as medalhas, os troféus e as camisetas do Corinthians”, relatou.

A leitura do livro o ajudou a superar o período mais complicado no futebol.

“A maior dificuldade foi achar que não poderia mais fazer aquilo que amo. Tinha só 25 anos, pouco tempo de carreira e estava em momento bom. Era o meu auge, depois de ter chegado a um patamar muito alto, me sentia privilegiado e realizado. Poderia ter sido minha última chance, e isso me deixava muito triste”.

Adílson afirma que não conseguiu o afastamento pelo INSS (Instituto Nacional do Seguro Social) e precisou utilizar parte de suas economias.

“Eles disseram que eu poderia trabalhar em outras coisas. Ouvi do médico que estava com a mão e a perna boa. Tive que ficar sem salários por oito meses, só fazendo exames. O dinheiro que eles pagariam iria me ajudar. Se um atleta parar por um problema assim, dificilmente consegue se aposentar, porque pode trabalhar em coisas que não exigem esforço físico”.

Nesse período ele viu seu extenso círculo social se reduzir drasticamente.

“Eu achava que todo mundo era amigo ainda mais quando estava em time grande. Achava que todo mundo me queria próximo e gostava de mim. Quando estava no Corinthians, eu tinha uns 500 amigos, depois que aconteceu isso, o número se reduziu para uns dez. Hoje, eu mantenho esses amigos e a minha família. No futebol, você faz colegas. Amigos, são muito raros”, analisou.

Adílson ficou parado por cerca de oito meses, realizando exames, até provar que tinha condições de jogar futebol novamente e continuar com sua carreira normalmente.

Ídolo do XV de Piracicaba

Adilson começou nas categorias de base do Cruzeiro e passou pelo “Terrão” do Corinthians antes de se transferir ao Lausanne, da Suíça. Ele ainda chegou a ser contratado pelo Benfica, mas foi repassado ao Estrela Amadora, de Portugal.

Depois, voltou ao Brasil e rodou por Barueri e SEV Hortolândia, antes de chegar ao XV de Piracicaba, em 2008. Ainda defendeu Mogi Mirim e Noroeste antes de voltar ao Nhô Quim e virar ídolo.

“Foi onde tudo começou para mim. Fiz uma história muito bonita no XV. Consegui o acesso para a Série A1 do Paulista e ser campeão da A2 de 2011 marcando dois gols na final contra o Guarani”, recordou.

“Eu fui especulado em vários clubes, mas queria muito jogar o Paulistão pelo XV, que não jogava na elite há 19 anos. Fu muito bem, marquei oito gols e o observador técnico do Corinthians, que era o Fábio Carille, gostou de mim e me indicou. Teve interesse do Ceará e do Atlético-PR, mas optei pelo Corinthians”.

Logo em sua chegada, ele passou por um incidente que poderia ter abreviado sua passagem pelo Parque São Jorge.

“Eu poderia ter jogado contra o Sport pelo Brasileiro, mas tomava um remédio chamado Roacutan, para espinhas, e achava que não teria problemas. Quando o [médico do Corinthians] Joaquim Grava ficou sabendo, me deu uma bronca gigantesca. Apesar de o remédio não ser doping, ele é tarja preta (venda controlada e com potencial a dependência)”, relatou.

“Eu fui cortado da lista de relacionados para o jogo. Ele me disse que eu seria multado, falou um monte para mim, e eu até chorei. Daí, o Sheik e o Júlio Cesar falaram para eu falar com o Tite. Ele já sabia o que tinha acontecido e pedi desculpas porque queria muito jogar”, afirmou.

A reação do treinador corintiano surpreendeu o atacante recém-chegado.

“O Tite me disse: ‘fique tranquilo porque terá outras oportunidades. Eu posso não te conhecer ainda, mas sei o ser humano que você é. Antes de contratar um jogador nós pegamos informações. Você teve propostas melhores e mesmo assim quis vir para cá’. Eu não parava de chorar”.

“Quando eu estava saindo, ele me chamou: ‘vem cá e dá um abraço’. Eu chorei mais ainda. Ele falou: ‘Fica tranquilo que você terá outras oportunidades e continua fazendo o que você tem feito’.

É o melhor treinador com que já trabalhei. Até hoje, quando eu mando alguma mensagem, ele me responde de forma educada e atenciosa. Pode demorar alguns dias, porque ele tem muitos compromissos, mas sempre responde. Eu vou levar isso para sempre na minha vida”, contou.

Adílson chegou a fazer 12 jogos pelo Corinthians e afirma que esteve na lista dos 30 relacionados para o Mundial de Clubes, mas ficou de fora da lista de 23 jogadores que foram ao Japão.

Recomeço

Depois da passagem pelo Parque São Jorge e de ter ficado afastado dos gramados, Adílson conseguiu retomar a carreira no XV de Piracicaba no segundo semestre de 2013.

“Foi o primeiro lugar em que busquei ajuda e eles me abriram as portas naquele momento. Voltar a jogar foi difícil no começo, porque eu tinha perdido um pouco da confiança. Sentia um pouco de medo no começo mas, pouco a pouco, tudo voltou ao normal. Também me ajudou o fato de me aproximar mais de Deus, passei a frequentar mais a igreja e foi mais tranquilo depois”, garantiu.

Depois de jogar o Estadual de 2014, ele foi para o Santa Cruz atuar na Série B do Campeonato Brasileiro. Em seguida, passou por Matonense antes de ir ao Yangon United, de Mianmar, na Ásia.

“Era um futebol um pouca abaixo da média mas, financeiramente, foi muito bom para mim e aprendi bastante”, garantiu.

O atacante ainda jogou por Portuguesa e Marília antes de chegar ao Juventus, que disputa atualmente a Copa Paulista. O jogador tem dois gols até aqui na competição.

“Eu penso que pode ser uma ótima chance na minha carreira jogar em uma equipe tradicional e de nome. É um clube que tem muita torcida. Preciso dar o meu máximo e fazer gols. Quero ajudar muito meus companheiros. Temos condições de estarmos na elite do Paulistão. Quero usar muito a minha experiência para ajudar essa molecada, nosso time é muito jovem. Não somente dentro de campo, mas como fora de campo também”, finalizou.