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Hoje no Vasco, zagueiro encantou Wenger aos 14, mas desistiu do Arsenal

O técnico Arsene Wenger, que ficou 22 anos no Arsenal, é reconhecidamente um dos maiores especialistas do mundo em descobrir novos talentos do futebol ainda na adolescência. Afinal, ele achou e lapidou, ainda na flor da idade, atletas como Cesc Fábregas, Robin Van Persie e Patrick Vieira, só para citar alguns. Em 2008, ele ficou encantado com um garoto brasileiro de 14 anos, mas acabou "perdendo" o possível reforço.

Trata-se de Luiz Gustavo Tavares Conde, jogador de 24 anos que pertence ao Vasco da Gama, que enfrentará o Corinthians, neste domingo, pelo Campeonato Brasileiro.

Quando ainda dava seus primeiros chutes na bola, ele teve a oportunidade de treinar nos Gunners e agradou, mas desistiu do clube.

"Quando eu estava na base, tive convites do Arsenal, Chelsea e Manchester United, mas optei pelo Arsenal, pelo fato deles trabalharem os jovens e darem mais oportunidades. Fui em 2008, com 14 anos, na mesma época em que o Wellington Silva, do Fluminense, foi também", lembrou Luiz Gustavo, em entrevista ao ESPN.com.br, em 2016.

"Fiquei um mês treinando lá, no fim do ano, e foi coisa de outro mundo. Eu conheci o Wenger e ele gostou de mim, me colocou pra treinar com o time B, que tinha molecada de 16 anos pra cima e só eu com 14. Eu era o mais novo de todos, tinha só um pouquinho de barba (risos)", brinca.

O nível técnico do polivalente atleta, que atua como zagueiro, volante e nas duas laterais, impressionou a comissão técnica dos Gunners, que chegou a duvidar se ele tinha mesmo 14 anos.

"Os caras desconfiaram que eu era 'gato' [N.R.: expressão usada para se referir a um atleta com idade adulterada nos documentos], porque estava me destacando no meio de uma molecada bem mais velha do que eu. Queriam fazer exame de pulso, idade óssea e tudo mais", recorda Luiz Gustavo.

"Aí liguei desesperado pra casa perguntando: 'Pai, eu tenho idade adulterada? Estão achando que eu sou gato!'. Eu estava desesperado, chorei muito no telefone (risos). Aí meu pai me tranquilizou: 'Pode fazer, moleque, você é besta por acaso? Tá louco?'. Hoje eu dou risada lembrando disso, mas na época deu medo. No fim, fiz os exames e deu tudo certo", relata.

Quase ficou no Arsenal

No mês em que passou no Arsenal, Luiz Gustavo treinou tão bem com o time B que acabou promovido por Wenger para completar os trabalhos na equipe de cima. Ainda adolescente, o jogador teve a oportunidade de dividir o campo com alguns dos maiores astros da Premier League, um feito e tanto

"Aprendi muito nesse tempo lá, foi uma coisa fantástica. Treinei com Adebayor, Fábregas, Van Persie, Sagna, Eduardo da Silva, Denílson. Eu não falava nada de inglês, mas conversava um pouquinho com todo mundo por meio de intérprete. Depois dos treinos, saía pra jantar com o Eduardo e o Denílson, eles eram muito gente boa", conta.

Quase dez anos depois, o paulista de Valentim Gentil diz ter agradado, mas revela que preferiu não ficar no Arsenal por um motivo muito simples: saudades de sua família.

"Eu fui muito bem nesse período, sei que agradei, mas pesou a saudade de casa. Eu não conseguia ficar longe da família. Ficar em São Paulo, no Palmeiras, era uma coisa, mas em Londres eram 13 horas de avião, do outro lado do mundo, eu sem falar inglês. Foi muito complicado, pesou demais. Eles queriam que eu ficasse, mas eu saí muito novo e quis voltar. Se pra acostumar em Mirassol já foi difícil, imagina na Inglaterra", salienta.

Em 2016, Luiz Gustavo disse que se arrependeu da decisão que tomou aos 14 anos.

"Claro que me arrependo muito de não ter ficado, mas isso pensando com a cabeça de hoje. Na época, não queria ficar longe da família, e nem pensava nessas coisas, em fazer carreira fora e tal. Não tinha muita noção do que era aquilo na minha vida, de como poderia ter sido diferente. Com a cabeça de hoje, me arrependo bastante", afirma.

Na volta dos Gunners, o volante retornou ao Mirassol, pelo qual prosseguiu nas categorias inferiores, até chamar a atenção do Palmeiras, que o levou para sua base.

"Aposentando" o irmão

Antes de se firmar na base do Palmeiras, Luiz Gustavo rodou por diversos clubes em busca de oportunidade, sempre ao lado de seu irmão mais velho, Bruno, que também queria ser jogador. Muito apegados à família, eles chegaram a recusar idas a Cruzeiro, Corinthians, Santos e São Paulo para não ficarem longe de casa, e por isso preferiram o Mirassol, equipe que ficava mais perto da cidade natal de ambos, Valentim Gentil.

Em 2009, porém, Luiz topou defender o Palmeiras, e se separou da família pela primeira vez. Curiosamente, ele seria um dos "responsáveis" por encerrar mais cedo a carreira do irmão, que também era visto como talentoso, mas preferiu parar.

"Nós nos enfrentamos em uma Copa São Paulo, em 2011, e ele era volante também. Goleamos o Mirassol por 7 a 0. Depois, os dois times estavam hospedados no mesmo hotel, fui visitá-lo no quarto dele e ele estava chorando muito. Aí ele me falou: 'Luiz, isso aqui não é pra mim, não. Você está bem encaminhado, mas chegou a hora de eu parar. Isso aqui não é mais pra mim'. E aí ele parou, nunca mais jogou profissionalmente. Fiquei triste, claro, porque ele sempre foi meu parceiro, mas infelizmente nem tudo é como a gente quer na vida", analisa.

Pelo Palmeiras, Luiz Gustavo seguiu fazendo sucesso nas categorias de base, e jogou em quase todas as categorias das seleções de juniores, do sub-15 ao sub-20. Em 2012, foi promovido ao elenco principal pelo técnico Luiz Felipe Scolari, mas acabou não tendo muitas chances.

"Subi com 18 anos para o profissional, com o Palmeiras mal na tabela no Brasileiro, já que o foco era a conquista da Copa do Brasil. Muitos jogadores estavam machucados, e o Felipão me chamou para jogar. Minha estreia foi contra a Ponte Preta, infelizmente perdemos por 1 a 0. Eu ainda fiquei mais um ano, e no segundo turno de 2013 fui emprestado ao Vitória, time em que eu iria me firmar depois", lembra o atleta.

"Eu acho que fiz só uns oito jogos pelo Palmeiras. Queria ter tido mais chances, é claro que penso nisso até hoje. Toda a geração da minha idade poderia ter sido mais aproveitada, como Bruno Dybal, Diego Souza, João Denoni, Matheus Sales, Lucas Taylor, Nathan, João Pedro, Victor Luís... Infelizmente pegamos o clube num momento muito difícil, com problemas internos na época. Hoje, seria diferente", lamenta.

Emprestado ao Vitória em 2013, o atleta agradou e teve seu empréstimo renovado pelo clube baiano duas vezes, ficando em Salvador até 2015. Depois, foi emprestado à Ferroviária para a disputa do Paulistão, mas uma lesão o impediu de mostrar seu futebol em Araraquara. Em seguida, foi para o Avaí.

Ano passado, ele defendeu o Oeste de Itápolis na Série B do Brasileiro e acabou chamando atenção do Vasco, que o contratou no começo de 2018. Desde então, ele atuou por 12 vezes pelo time carioca.