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Brasileiro que foi jogar na Tailândia após mensagem por Facebook conta drama de grupo preso em caverna

Há quase quatro anos o zagueiro Victor Cardozo, 28, mora e joga na Tailândia. Natural de Sapucaia, interior do Rio de Janeiro, ele virou um astro no futebol local, onde atua pelo Chiangrai United, e imaginava curtir o clima festivo que costuma tomar conta do país durante o mês em que ocorre a Copa do Mundo.

Não tem sido bem assim. O noticiário local tem se dividido entre o Mundial da Rússia e a cobertura de uma história com ares trágicos. Desde 23 de junho, um grupo de 12 meninos e um técnico estão presos na caverna Tham Luang, no distrito de Mae Sai,ao norte do país, bem próxima da fronteira com Mianmar.

"O sobrinho do nosso massagista está nesse grupo. Inclusive eu vi a imagem do menino. E ele está bastante apreensivo. A família está em frente à caverna esperando, torcendo. Os especialistas estão falando que deve demorar semanas, até meses. Nosso time tem dado muito apoio para ele", disse Victor para a ESPN Brasil.

"A gente está na torcida para eles saíam logo. Foram dias de apreensão e medo. Eu te diria que aqui o povo divide um momento de alegria com a Copa porque o futebol é o primeiro esporte do país. Ao mesmo tempo muita tristeza com o noticiário dos garotos presos na caverna", completou o defensor.

O grupo de 13 pessoas chegou a ficar nove dias desaparecido. Foi encontrado quase por milagre, mas não pode ser resgatado imediatamente porque toda a entrada da caverna está inundada e as chuvas não param.

Uma equipe internacional de especialistas foi formada para fazer o resgate. Estão reunidos técnicos em exploração de cavernas, mergulhadores e até militares. A dificuldade é tamanha que um mergulhador morreu na sexta, 6.

A operação pode durar semanas e até meses, segundo as autoridades locais.

"Para nós, as notícias vêm de todas as formas. Os canais de TV ficam 24h no caso. Vemos muitas coisas pelo Face também. O massagista também nos relata cada passo. A gente se preocupa muito. Eu sou pai... não tem como a gente não se colocar no local dos pais das crianças que estão lá, presas", disse o zagueiro.

Victor Cardozo ficou sensibilizado com a historia desde o início. Dedicou até um dos seus gols pelo Chiangrai United aos 13 que estão presos na caverna. Na comemoração, ergueu uma camisa com o número 13.

"Foi um gesto simples, mas em memória deles, na torcida para que eles sejam resgatados o mais rápido possível. Depois do jogo o massagista veio me agradecer. Ele não tinha palavras, na verdade. Disse que, vindo de um estrangeiro, aquele gesto valia muito. Foi bem emocionante", relembrou Victor.

ROTINA ALTERADA

Acostumado a um outro ambiente, Victor tem visto uma mudança no clima no país diante do drama daquelas 13 pessoas. Um contraste com tudo que já viveu lá nesses quase quatro anos.

"O povo tailandês é muito brincalhão, como o brasileiro. Gostam de brincar muito com os estrangeiros e nos recebem muito bem. Mas as últimas semanas têm sido de tristeza por causa da tragédia".

Agora alterada, a festividade da cultura local ajudou o carioca a se adaptar mais facilmente, superando até as dificuldades do idioma local (tailandês) e da alimentação.

"Quando eu cheguei facilitou ter o inglês e encontrar pessoas que falam inglês. Hoje eu até entendo um pouco de tailandês e falo algumas coisas básicas, mas é um idioma difícil. Já a alimentação foi outra história. Cheguei a perder cinco quilos quando cheguei porque não conseguia tomar as sopas. Eles tomam muito. E eu não gostava".

Depois de adaptado e com o paladar já acostumado, Victor até experimentou os pratos exóticos do país.

"Comi escorpião e achei terrível. Uma casca dura e sai uma gosma muito peculiar. Não é legal. Também comi grilo e parece ração de cachorro", disse, aos risos. "Mas esses pratos são especiais. Não se come isso no dia a dia. Explico para as pessoas, os amigos, que têm uma percepção errada. Pensam que só se come isso por aqui. Nada a ver".

DE CONVITE PELO FACE À ARTILHEIRO

Victor construiu a fama que ostenta hoje na Tailândia por meio dos gols. Apesar de ser zagueiro, ele fez 38 somando os jogos de todas as temporadas que disputou. Foi até artilheiro de alguns clubes que passou.

Uma história que começou com um convite vindo pelas redes sociais.

"Estava no São Bento, em Sorocaba, e recebi uma mensagem no Facebook e procurei saber quem era, quem estava interessado. Era o Ubon UMT United. Aceitei o convite e cheguei para jogar a terceira divisão", relembrou.

"Em seis meses, subimos para a segunda divisão. Em um ano estávamos na primeira. E hoje estou no Chiangrai United, um dos grandes da Tailândia. Tem bastante torcida, um time legal, bom de se trabalhar. Está no top-3 do país".

A transformação em zagueiro-artilheiro começou no Brasil e foi potencializada na Tailândia. Lições que Victor tirou de uma modalidade tipicamente brasileira.

"Eu pratico futevôlei desde os meus 12 anos. Isso me dá um tempo de bola muito bom, e posso tirar um pouco de vantagem dos outros defensores", disse Victor Cardozo.

"Essa característica eu trouxe mesmo do Brasil. Sou um zagueiro com uma média de gols elevada. Cheguei a fazer gols nos times daí, no Esportivo foram seis, nos outros times. Mas aqui que aflorou. Eu me amadureci também".

Bem de vida, astro no país e realizado, Victor Cardozo só não sabe como será o futuro. Ele tem contrato com o Chiangrai United até o final deste ano. Ainda não houve conversas para renovação.

"Não descarto nenhuma possibilidade. Eu amo a Tailândia, mas estou aberto. Se vier alguma coisa legal do Brasil por que não?", concluiu o defensor.