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França na Copa do Mundo: Fekir quase promoveu tragédia na Ligue 1; hoje, pode ser herói na Rússia

Em 5 de novembro de 2017, o Lyon passava o carro por 4 a 0 em cima de seu maior rival, o Saint-Étienne, em plena casa do adversário, pela Ligue 1. Aos 39 do 2º tempo, o meia Nabil Fekir, sem qualquer misericórdia, fez o 5º e fechou a conta, em uma das maiores humilhações da história do clássico.

Um gesto, porém, quase transformou aquela tarde numa tragédia.

Ao comemorar seu tento, o destaque dos Gones tirou sua camisa e, assim como fez Lionel Messi contra o Real Madrid, mostrou o número 18 e seu nome para os torcedores da equipe alviverde, em uma forte provocação.

Não deu outra: imediatamente, centenas de fãs revoltados pularam para dentro do campo para tentar agredir os atletas do Lyon, que tiveram que sair correndo para os vestiários, enquanto a polícia agia no gramado para afastar os vândalos.

A partida ficou paralisada por quase meia hora, e foi retomada depois, terminando mesmo em 5 a 0. Depois disso, Fekir virou ainda mais ídolo em Lyon, ganhando um bandeirão especial com um desenho da cena. Ao mesmo tempo, virou persona non grata na cidade vizinha - não se sabe o que pode acontecer se um dia o meio-campista resolver passar por lá...

A atitude do atleta gerou enorme polêmica e discussão na França. Ao mesmo tempo que muitos ressaltavam seu talento, também salientavam sua inconsequência. Afinal, com aquela provocação, poderia ter causado um trágico incidente.

Especulou-se inclusive que, depois disso, Fekir deixaria de ser chamado para a seleção francesa pelo técnico Didier Deschamps, conhecido por sua obsessão pelo bom comportamento e pelo rigor nas regras de conduta.

No entanto, o grande futebol do meia, que encerrou a temporada comendo a bola, foi mais que suficiente para o atleta de 24 anos garantir uma posição nos 23 convocados pelo treinador dos Bleus na Copa do Mundo 2018.

E nesta sexta-feira, na partida entre França e Uruguai, pelas quartas de final do Mundial, em Níjni Novgorod, Fekir tem sua grande chance de redenção. Afinal, ele é o grande favorito a substituir o suspenso volante Blaise Matuidi e começar como titular contra os sul-americanos, tendo uma chance de ouro para ser herói e marcar seu nome na história dos Mundiais.

Se jogar bem, quem sabe não seja perdoado até lá em Saint-Étienne...

'VEM DANDO SHOW HÁ MUITO TEMPO'

Na Rússia, Fekir vem sendo usado como arma por Deschamps no decorrer das partidas. Ele entrou nos quatro jogos da França na Copa até agora, tendo somado 59 minutos em campo.

Quem o conhece bem sabe que ele pode ser ainda mais decisivo.

"Fekir é diferenciado, sempre comento com meus amigos. Todo esse sucesso dele que o pessoal está vendo agora só mostra que ele tem muita qualidade e ainda muito espaço para crescer. Quem ainda não o conhecia não sabe o que estava perdendo. É um grande jogador, que já vem dando show na França há muito tempo", diz à ESPN o zagueiro brasileiro Marcelo, titular do Lyon.

"Trata-se de um jogador técnico, que cadencia bem o jogo e é excelente finalizador. Chega bem na área e tem facilidade de marcar gols, principalmente quando joga como segundo atacante. No entanto, ele também vai muito bem quando atua vindo um pouco mais de trás, como armador. Mas em qualquer posição ele é matador", exalta o ex-atleta de Santos, PSV Eindhoven, Hannover e Besiktas.

No mercado da bola europeu, Fekir é um dos nomes mais badalados. Recentemente, ficou próximo de se transferir para o gigante Liverpool, mas a negociação acabou melando. Marcelo diz que todo esse assédio é mérito do craque.

"Eu, como zagueiro, posso jogar a bola de qualquer jeito que ele vai lá e controla com uma qualidade técnica enorme. Para mim, ele é um dos atletas de maior capacidade técnica no mundo hoje. Não é à toa que há tantos grandes clubes atrás dele", observa.

E apesar da "aprontada" do camisa 18 na casa do Saint-Étienne, Marcelo garante que Fekir é, na verdade, muito bem comportado.

"Ele é tranquilo. É de família argentina e ;e muçulmano. Um garoto tranquilo e até um pouco reservado, não é de falar muito. Mas, dentro de campo, mostra toda a emoção que não demonstra fora. É nosso capitão, e tem seus momentos mais reservados e outros mais explosivos. Ele é bem religioso, concentrado e firme naquilo que acredita", afirma.

Outro brasileiro que conhece Fekir muito bem é o meia Ederson, que deixou recentemente o Flamengo. O jogador de 32 anos atuou quatro temporadas pelo Lyon e viu o hoje atleta da seleção francesa surgir na base dos Gones para o estrelato.

"É um garoto muito humilde. Ele subia da base para treinar com a gente nos profissionais do Lyon. Foi criado lá. Quando ele começou a treinar, os companheiros de time ficavam brincando que éramos irmãos. Tinha uma galera que nos achava parecidos. Acho que lembra um pouquinho mesmo (risos)", brinca Ederson.

O ex-seleção brasileira é outro que cobre o francês de elogios.

"O canhotinho é muito habilidoso. Tem um poder de finalização alto, com muita rapidez. É um jogador de qualidade e tem velocidade. Está numa fase muito boa no Lyon, fazendo gols e dando passes", cita.

"Tem evoluído muito nas batidas de falta. Antes não era tanto, mas vejo que está treinando muito. Acredito que isso seja ainda inspiração que o Juninho Pernambucano deixou por lá. Ele é uma referência para essa geração, que o via nos jogos e nos treinos", finaliza.