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A culpa do que acontece com Messi é de Guardiola, diz colunista do mais importante jornal espanhol

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Arnaldo analisa jejum da Argentina e pede mais entrega de Messi: 'Precisa dar a cara' (3:26)

'Não dá para o cara antes do jogo estar cabisbaixo', disse o comentarista (3:26)

Com Lionel Messi e a Argentina muito longe até agora de produzir o que se espera de um dos melhores jogadores do mundo e de uma seleção considerada favorita à conquista da Copa do Mundo, o colunista Ramón Besa, do jornal El País, o mais importante da Espanha, teorizou sobre o que está atrapalhando La Pulga – e, consequentemente, a Albiceleste – na Rússia: o técnico Josep Guardiola, do Manchester City.

Segundo Besa, “Pep” mimou demais Messi no tempo em que ambos trabalharam juntos no Barcelona, conquistando tudo e mais um pouco juntos. Na opinião do jornalista, o sistema “fazer Messi feliz à custa de tudo” terminou por criar um grande jogador e uma grande equipe por um período, mas que atualmente termina por causar mais dano ao camisa 10 e principalmente à inoperante Argentina.

“Messi tinha até há pouco duas vidas paralelas, que com o tempo, e por surpresa, se encontraram depois da derrota para a Croácia. Havia o futebolista feliz e vencedor do Camp Nou e o jogador resignado e perdedor da Argentina. Hoje, a pergunta na Rússia é a mesma que se ouve em Barcelona: por que a Argentina não ganha a Copa do Mundo, ou dificilmente conseguirá conquistá-la em Moscou, e nem o Barça vence a Champions desde Berlim-2015, quando ambos os times possuem o melhor do mundo? Não há resposta, e nem se espera, do protagonista: Messi”, escreve Besa.

De acordo com a coluna, os jogadores argentinos “se encontram presos à angústia e à frustração”, sendo vítiamas do “legado de Maradona”, um “oráculo que funciona em festas e ante às câmeras, mas dificilmente no campo”, ao contrário de Johan Cruyff.

Na opinião do jornalista, Messi explodiu no Barcelona porque Guardiola seguiu os ensinamentos de Cruyff e fez de tudo para lapidar o diamante bruto que tinha em suas mãos na Catalunha.

“Nenhum treinador soube interpretar melhor a Cruyff do que Guardiola, e pode ser que nunca tenha havido um técnico mais influente para o atacante argentino que o hoje comandante do Manchester City. Guardiola ‘matou’ por Messi”, observa.

“Ele tomou decisões que muitos reprovaram de início, como abrir mão de Eto’o depois de oficializar a saída de Ronaldinho. Ainda não se deu com um dos melhores jogadores individualistas do mundo, Ibrahimovic. Tudo em prol de inventar (e ter sucesso) com Messi como falso 9, algo que não se falava antes”, salienta.

No entanto, na visão de Besa, esse zelo excessivo por fazer Messi feliz e totalmente satisfeito com o time jogando em prol dele terminou por criar um jogador que hoje sofre com problemas diretos disso.

“Guardiola só cometeu um erro, que hoje atrapalha a Argentina e o Barça: afirmar que o futebol é um jogo tão simples que consiste somente em deixar Messi feliz. Tão fácil quanto complicado, porque hoje o argentino está extraviado e à mercê da corrente, vítima dos críticos que exigem sua cabeça por ser pecho frío [NR: gíria argentina para jogadores que não são decisivos], como se o futebol fosse apenas um assunto de gols, senão também de guerreiros que berram o hino e olham com paixão para a bandeira – ainda que depois se tornem vulneráveis, como o desastrado goleiro Caballero”, disserta.

Ainda de acordo com o jornalista, o técnico da Argentina, Jorge Sampaoli, se esforçou para tentar fazê-lo feliz, aos moldes de Guardiola, mas não conseguiu. Pelo contrário: seus constantes erros na marcação da equipe e em sacrificar seu modelo de jogo para adequar Messi terminaram por fazer com que La Pulga hoje não tenha mais diálogo com o treinador, como revelou o jornal Clarín neste sábado.

“Messi não responde, sequer fala. Sampaoli se empenhou em almoçar ao menos uma vez por mês em sua casa para saber o que ele queria, o que lhe convinha, o que ele precisava para voltar a ser o menino feliz desenhado por Guardiola”, revela.

“Mas ele não sabia que ao camisa 10 às vezes convém ser provocado, estimulado ou irritado, mais do que afagado. Como fez, por exemplo, Luis Enrique, que sacrificou sua liderança em favor do tridente com Luis Suárez e Neymar. Agora, é a vez de Ernesto Valverde. O atual treinador blaugrana não só mostrou ser um bom comandante como também soube ganhar a confiança do craque – até o momento”, explica.

Para Besa, Sampaoli ainda tem uma última chance para reatar com Messi e fazê-lo feliz.

“Ele terá que montar uma boa equipe para que Messi possa triunfar, e não definir uma escalação de ‘servidores’ do camisa 10. O craque necessita de sócios, não amigos, um assunto capital em qualquer empresa, também no futebol – e especialmente no Barcelona”, analisa.

E, claro, também há a inevitável comparação com Cristiano Ronaldo, que brilha na Copa do Mundo, enquanto o principal atleta da Albicelesta ainda parece dormir no Mundial da Rússia.

“A grandeza de Cristiano Ronaldo, e sua principal diferença para Messi, é que ele marca gols independentemente de com quem ele joga e de quem enfrenta, sempre alimentado por seu ego e pela marca ‘CR7’. O português é um solista, como Ibrahimovic. Não tem nada a ver com Messi”, opina.

“É como disse Jorge Valdano certa vez: ‘a Argentina joga como se Messi não existisse’. Uma reflexão tão certeira como a de Guardiola. Não se trata de rebaixar a importância do 10, o melhor jogador do mundo e talvez da história, mas sim de contextualizar sua função no Barça e na Argentina. O assunto é coletivo, não individual, como bem sabe Sampaoli. Ele mesmo soube como ganhar várias vezes da Argentina enquanto foi técnico do Chile, e agora não sabe como fazer a Argentina jogar contra Croácia ou Islândia – veremos ainda contra a Nigéria”, escreve.

Para Besa, Sampaoli deve fazer Messi “voltar a ser criança” se ainda quiser ter qualquer esperança de vencer a Copa do Mundo na Rússia.

“Há que convencê-lo a partir do jogo e fazê-lo participar desse processo, para que por nada nesse mundo ele queira perder uma partida com o Barcelona ou a Argentina que evocam seus sonhos de infância em Rosario. Acabada sua vida dupla, Messi já não está aqui para arrumar os problemas dos demais, mas sim para se salvar como número 1 do mundo com ajuda do Barça e da Albiceleste”, diz.

“Mais do que pedir algo a ele, é preciso agradecê-lo e ganhar pela causa da reivindicação futebolística, coisa que não deveria ser tão complicada em uma seleção com tanta tradição como a Argentina, ou em um clube com a categoria histórica do Barça”, finaliza.