<
>

Como 'Gandalf' entrou na cabeça de jogadores do México e os fez acreditar que podem vencer a Copa

Com sua barba branca, olhos azuis penetrantes e estrutura robusta, o "coach mental" da seleção do México, Imanol Ibarrondo, não pareceria estar fora de lugar se fosse flagrado participando de um teste de elenco para o papel do mago Gandalf, da trilogia "O Senhor dos Anéis", nos cinemas.

A aura mística que esse senhor carrega faz muitos especularem sobre qual é sua real função em El Tri, que neste sábado enfrenta a Coreia do Sul, em Rostov, pela 2ª rodada da fase de grupos da Copa do Mundo 2018. Afinal, empregar alguém que não é um psicólogo para cuidar da preparação mental dos atletas é algo pouco usual no futebol profissional.

No México, a presença de Ibarrondo no estafe da seleção causa intriga e confusão na mesma medida. Todavia, a vitória sobre Alemanha, em Moscou, na estreia da Copa, certamente colocou o trabalho deste "mago Gandalf" em evidência.

Ibarrondo flutua por diversos setores da seleção mexicana. Assiste aos treinos atentamente e participa de coletivas de imprensa - na última sexta, sentou-se justamente na cadeira de trás da reportagem da ESPN.

Ele não dá muitas entrevistas, preferindo "disfarçar-se" como apenas mais um membro da comissão técnica de Juan Carlos Osorio, a quem trata como "o chefe".

Mas basta conversar com ele uma única vez para desmistificar as coisas: esse cara certamente não é um mago que joga feitiços sobre o grupo de jogadores.

Na verdade, seu trabalho é baseado em passos milimetricamente planejados, é totalmente racional em seu núcleo e não aparece para o público, pois é feito 100% nos bastidores.

"Meu trabalho tem diferentes fases. Na fase inicial, ninguém conhecia ninguém, nem eu aos jogadores, nem os jogadores a mim. Como esse é um trabalho coletivo, tive que conhecer muito bem o grupo", contou à ESPN antes do Mundial.

Ibarrondo foi contratado em 2 de outubro de 2016, e sua primeira missão era restaurar a confiança de um grupo que havia sido dizimado pela goleada por 7 a 0 sofrida para o Chile na Copa América Centenário, nos Estados Unidos.

Cerca de um mês depois, ocorreu a famosa vitória por 2 a 1 do México sobre os EUA, em Columbus, Ohio, no dia 11 de novembro, pelas eliminatórias da Copa. Foi a primeira vez desde 1972 que El Tri derrotou os norte-americanos fora de casa.

"Pouco a pouco eu ganhei a confiança dos jogadores, gerando um laço de confiança que em seguida me permitiu iniciar alguns trabalhos mais individuais", relatou o basco de Bilbao, autor de um livro chamado "A primeira vez que chutei com a perna esquerda".

A impressão que dá é que Ibarrondo, que jogou profissionalmente na primeira divisão espanhola em sua jventude, jamais propagandeou a importância do seu trabalho para ninguém. Sua atuação é muito mais sutil, e complementa os trabalhos feitos em campo por Osorio e sua comissão.

As linhas de trabalho de Ibarrondo e Osorio se cruzam em um ponto: o colombiano é muito interessado nas estratégias cerebrais de times que sempre vencem, como os All Blacks da Nova Zelândia no rugby, enquanto o basco quer levar os mexicanos a esse estágio de confiança.

"A performance mental não substituiu a preparação esportiva", admite Ibarrondo.

"Primeiro, trabalhe as prioridades: fique em forma, treine bem, coma bem, descanse e tenha certeza que seu corpo está em condição top. Depois, conversaremos e tentaremos dar aquele pouquinho de segurança extra e confiança importantes no trabalho mental", explica.

Antes do Mundial da Rússia, o coach visitou um por um os atletas mexicanos que jogam na Europa. Depois disso, criou-se um laço ao redor desse grupo, que fica bastante notável nas coletivas de imprensa da seleção.

Por exemplo: todos que conhecem o time do México sabem que a frase "el quinto partido" ("a quinta partida") é um tema que sempre ronda o grupo e jamais vai embora. Ele faz referência ao jogo das quartas de final da Copa, algo que El Tri parece nunca conseguiu alcançar nas últimas edições do torneio da Fifa, caindo quase sempre nas oitavas.

No entanto, a vitória sobre a Alemanha renovou a esperança de que o país dessa vez irá conseguir superar a primeira rodada do mata-mata pela primeira vez desde 1986.

Muitas reportagens foram escritas em diferentes línguas antes da Copa-2018 sobre o México não ter chegado ao quinto partido nos últimos seis Mundiais. Ibarrondo, porém, não revela como trata o tema com os atletas.

"Se eu te disser que jamais discuti o quinto partido com os atletas, acho que você não vai acreditar em mim", brincou.

"Acho que é um tópico que é mais discutido pelas pessoas de fora, os torcedores e a imprensa, do que entre os jogadores e a comissão", despistou.

"Esse grupo é muito maduro já. Nós estamos focados na verdade em nos tornarmos um time capaz de alcançar resultados extraordinários", prosseguiu.

"A demanda é que a gente não fique pensando no tal quinto partido, mas sim em cada dia, em cada treino, em cada conversa, em cada relacionamento do grupo e em cada carrinho dado em campo. Nós trabalhamos para nos tornarmos as melhores versões de nós mesmos", filosofou.

Outra coisa que dá para notar é que os jogadores do México agora falam abertamente que o time veio à Rússia para buscar sua primeira Copa do Mundo, mesmo que a equipe esteja distante de ser favorita nas casas de apostas e nunca tenha chegado sequer perto de brigar pelo troféu.

Questionado se isso pode atrapalhar, o coach diz que é justamente o contrário: ele estaria preocupado se os mexicanos achassem que não é possível ser campeão.

"Eu imagino que os jogadores do Irã também sonham em ganhar o título. Na verdade, eu não consigo imaginar que existe um jovem no mundo que não sonhe em ganhar grandes coisas", disserta.

"Isso é totalmente justo e legítimo. E eu diria mais: é necessário e essencial", pontua.

E essa ambição foi mostrada da melhor forma possível na grande partida de El Tri contra os atuais campeões mundiais, no último domingo.

A confiança dos mexicanos era visível desde o primeiro minuto de jogo. Os latino-americanos não foram traídos pelos nervos, anularam o rival, tocaram bem a bola e criaram boas chances antes mesmo da Alemanha relar na bola. Até memso o garoto Jesús Gallardo, em sua primeira Copa do Mundo, teve confiança o bastante para sair driblando na defesa.

"Quando trabalho com um grupo, gosto de criar espaços cheiso de tensão, para que as pessoas se sintam desafiadas a mostrar vulnerabilidade. Isto é: compartilhar seus medos, angústias, desejos, sonhos, objetivos, desafios", analisa.

"Acredito que quando um time é capaz de compartilhar tudo isso internamente, ele se mostra vulnerável por dentro, mas também se mostra invulnerável por fora", observa.

E enquanto a meta do México naturalmente é ter sucesso na Rússia, também há outra frase que é fácil de ouvir quando se conversa com Osório e os jogadores tricolores: "merecer vencer". Não é coincidência que Ibarrondo também usa essa assertiva com frequência.

"Vencer não depende só de você. Depende também do adversário", salienta.

"Se você focar apenas em vencer, isso pode gerar muita ansiedade e angústia, mas 'merecer vencer' depende 100% de você. Merecer significa se transformar em uma pessoa ou time que mereça vencer. Isso é 100% focado no desempenho e trabalho de todos, e eu acredito que dá confiança, segurança e força", exalta.

O atacante Javier Hernández, o Chicharito, talvez tenha resumido bem tudo isso quando ele apontou que o sucesso do México na Copa não depende de Osrio, Hirving Lozano, Ibarrondo, dele mesmo ou de qualquer outro indivíduo.

"O que queremos é fazer todo o possível para que o universo conspire a nosso fazor e a gente mereça vencer", disse.

"E mesmo sabendo que a gente merece vencer, a beleza do futebol é que a vitória nunca é garantida", resignou-se.

Se o México continuar "merecendo vencer" e conquistar o sucesso na Copa do Mundo, Ibarrondo com certeza terá sido uma importante mola propulsora no processo.

Afinal, como disse o mago Gandalf nos livros, "Tudo o que temos de decidir é o que fazer com o tempo que nos é dado".