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Como o futebol ajudou cidade da Copa a superar 900 dias sem comida e vencer a Guerra

Monumento em São Petersburgo em homenagem ao jogo durante o cerco na 2ª Guerra Igor Resende / ESPN.com.br

Como diz o ditado, o futebol não e é e nunca será só um esporte. E São Petersburgo, uma das sedes da Copa do Mundo de 2018 e palco do segundo jogo do Brasil na competição, contra a Costa Rica, é umas das maiores provas vivas disso.

Afinal, o futebol ajudou a cidade a superar o cerco alemão que a deixou por quase 900 dias sem comida durante a Segunda Guerra Mundial. Para piorar a situação, um dos piores invernos da história castigou o local. O somatório dos ataques inimigos, fome, hiportemia e doenças causou a morte de mais de um milhão de pessoas.

O cerco a Leningrado, então nome de São Petersburgo, é uma das histórias mais marcantes da Segunda Guerra Mundial. Em seu ataque à então União Soviética, a Alemanha nazista chegou aos arredores da cidade em setembro de 1941. Adolf Hitler, então, decidiu que conseguiria a vitória através da fome e cercou completamente o local, impedindo a entrada de comida ou qualquer outra coisa.

Leningrado já era, então, uma das principais cidades soviéticas, responsável, por exemplo por 11% da produção industrial do país.

Do lado de dentro, os moradores começaram o racionamento de comida enquanto eram bombardeados quase que diariamente. Para se ter uma ideia, o governo calculou em dezembro que os trabalhadores teriam uma cota de 600 gramas de ração por dia, enquanto mulheres e crianças tinham direito a 400.

O valor, que já era mínimo, foi reduzido ainda cinco vezes até o fim de 1942.

A cidade, porém, se negava a desistir da luta. E usou o futebol para mostrar aos nazistas que nunca se renderia.

O futebol havia sido paralisado em Leningrado no dia 21 de junho de 1941, com a suspensão do Campeonato Soviético durante os tempos de guerra. A maioria dos jogadores locais, inclusive, trocou de uniforme e vestiu o de exército para defender o país.

A decisão de usar o futebol como uma das armas para melhorar a moral da população veio do Partido Comunista local.

O Dínamo Leningrado, hoje Dínamo St Petersburg, era o maior time local e cedeu grande parte dos jogadores para o exército. Dois dos principais jogadores do time, Valentin Fedorov e Arkady Alov, foram eleitos os responsáveis por encontrar e reunir os ex-companheiros. Boa parte dos atletas deixou os fronts de batalha para irem ao gramado.

O adversário foi formado com os trabalhadores da fábrica metalúrgica Leningradsky Metallichesky Zavod – e o time foi denominado pela sigla LMZ. Muitos dizem que a ‘alma’ daquele time seria a do Zenit, com alguns atletas do clube então envolvidos.

A partida aconteceu exatamente no dia 31 de maio de 1942, no campo reserva do Dínamo, já que o estádio oficial havia sido bombardeado. O local está situado a poucos quilômetros de onde hoje é a Zenit Arena, palco da Copa do Mundo.

E é difícil hoje separar o que de fato é história e o que virou lenda na partida. Fato é que os times não tinham condições de jogar por 90 minutos e acordaram em dois tempos de 30. O Dínamo, que tinha melhores condições físicas por conta da maior cota de comida do exército, venceu por 6 a 0. Há quem diga que o público no local era grande. De certo é que ao menos os funcionários da fábrica, de um hospital localizado em um local próximo e alguns membros do partido estiveram presentes. E que o jogo foi transmitido a toda cidade pelo rádio.

E a partida ficou longe de ser a única disputada durante o cerco. Há até quem diga que houve jogos ainda antes deste, do Dínamo conta a Frota do Báltico. Este encontro, porém, é o que ficou imortalizado com um monumento na cidade.

O futebol, é claro, não venceu a guerra sozinho. Mas ajudou muito a manter a moral da população, mantendo certo grau de normalidade à vida dos moradores. E mandou uma mensagem mais do que direta aos alemães: Leningrado nuna se renderia.

O esporte só voltou normalmente à União Soviética em julho 1944, ainda antes do fim da Segund Guerra Mundial. Curiosamente, nenhum time de São Petersburgo conseguiu ser campeão antes de 1984, quando o Zenit levantou o troféu.

O Dínamo St Peterburg enfrentou várias crises durante a sua história e chegou a decretar falência. Foi retomado e hoje disputa a segunda divisão com dinheiro de um bilionário, mas vai deixar a cidade após a Copa do Mundo rumo a Sochi, onde deve ser o novo dono do estádio construído para o Mundial.