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Lado B da Copa: Conflitos separatistas, 'maior rivalidade do mundo' e jovem promessa: Conheça o extracampo do futebol na Sérvia

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Lado B da Copa: Conflitos separatistas, 'maior rivalidade do mundo' e jovem promessa: Conheça o extracampo do futebol na Sérvia (1:23)

Futebol é uma das formas de manifestação em função das crise políticas do país (1:23)

No início da década 90, a Iugoslávia passava por inúmeros conflitos em seus distritos. O patriotismo fazia com que a raiva em relação aos vizinhos ficasse ainda mais aflorada. Foi então que, após inúmeras irregularidades políticas e sociais, ela se desmembrou em sete novos países: Sérvia, Croácia, Montenegro, Bósnia, Eslovênia, Macedônia e Kosovo.

Os Balcãs podem ser considerados uma das regiões mais conturbadas da Europa, marcada por inúmeros conflitos há muito tempo. O último deles ocorreu em 2008, quando o Kosovo se separou da Sérvia e, novamente, voltou os olhos do mundo para lá.

Um dos principais fatores que exemplificam a situação da região é sua localização. Situada entre a Europa e a Ásia, a Península Balcânica já passou por diversos choques entre as culturas ocidentais e orientais, com todos seus interesses.

No futebol, por conta da cisão, a Sérvia tornou-se a única seleção a participar de uma Copa do Mundo como três países diferentes. Primeiro, antes da divisão, como Iugoslávia, depois, em 2006, Sérvia e Montenegro e, por fim, Sérvia, a partir de 2010.

Enfraquecimento no futebol

O ano de 1991 foi marcante para o futebol sérvio. Naquele ano, a Iugoslávia viu um de seus principais times, o Estrela Vermelha, conquistar a UEFA Champions League e, na sequência, o Mundial de Clubes. Porém, pouco depois, o país que competia com as maiores potências do mundo no esporte, viu sua desintegração afetar diretamente o poder de seus clubes e também da seleção nacional.

Antes de suas divisões, a Iugoslávia tinha cinco classificações entre os oito melhores colocados da Copa do Mundo, sendo uma delas entre os quatro primeiros. Porém, apesar dos resultados não serem tão expressivos quanto antes, o futebol ainda é fruto de muita paixão e tensões no território balcã.

Em 2006, durante a Copa da Alemanha, a Sérvia, herdeira oficial da Iugoslávia segundo a FIFA, não passou da fase de grupos e sequer conquistou um ponto. O jornalista sérvio, Bojan Babic, apontou os motivos para o enfraquecimento em sua opinião.

“Com a separação da Iugoslávia, nós ficamos mais fracos e alguns fãs, de alguma forma, perderam a fé na possibilidade de resultados melhores. Especialmente após a Copa da Alemanha, em 2006”, afirmou Bojan.

“Foram tempos difíceis para nós, pois dez dias antes do torneio, Montenegro anunciou que iria se separar de nossa federação. Então, praticamente, nós tivemos uma equipe que representou uma seleção que não existia mais”, completou o jornalista, sobre a participação conturbada no Mundial da Alemanha.

CROÁCIA X SÉRVIA

Os efeitos da separação não foram sentidos da mesma fora pelas sete nações oriundas da Iugoslávia. A Croácia, rival histórica da Sérvia, mostrou uma evolução maior após a cisão e obteve resultados mais expressivos.

Na Copa de 1998, contando com o artilheiro do torneio, Davor Suker, os croatas foram para o seu primeiro Mundial e saíram da França com a medalha de bronze na bagagem. Hoje, a seleção conta com dois dos melhores meias do mundo, Luka Modric (Real Madrid) e Ivan Rakitic (Barcelona), e é presença quase que constante em Eurocopas e Copas do Mundo.

Apesar de também possuir valores individuais de destaque, como Nemanja Matic e Aleksandar Kolarov, a Sérvia não consegue consolidar um espaço no futebol mundial. Desde que se tornou uma nação isolada, a seleção balcânica ainda não conseguiu vaga em nenhum das últimas três Eurocopas. Na Rússia, os sérvios voltam ao Mundial após terem ficado de fora da edição disputada no Brasil.

“Os jogadores sérvios perdem o foco e gastam muito tempo pensando em como alcançar equipes maiores, ao invés de gastarem tempo treinando. Então, hoje, acredito sim que eles (croatas) têm jogadores melhores, especialmente quando olhamos para o lado das seleções. Desde a década de 90, quando se tornaram independentes, eles lutaram mais pelo país deles, do que os nossos jogadores fizeram pela Sérvia”, assim Bojan explica a diferença existente entre as duas principais seleções descendentes da Iugoslávia.

'O Dérbi Eterno'

O confronto entre Partizan Belgrado e Estrela Vermelha não passa apenas pelo que ocorre dentro dos gramados, mas por toda uma história envolvendo a região dos clubes. Situados em território balcã, as equipes vivem intensamente todo o clima de tensão política do país. Por isso, o clássico pode ser considerado um dos maiores do mundo, principalmente por tudo que envolve.

Bojan explicou um pouco o que ocorre: “para a maioria, Partizan Belgrado é um clube estabelecido pelo exército nacional da Iugoslávia, que representa mais todas as outras nações e a população da antiga Iugoslávia. Durante esses anos, Partizan era muito conhecido por ter jogadores que vieram da Albânia, Kosovo, Montenegro, Bósnia. Do outro lado, o Estrela Vermelha, na opinião das pessoas, mesmo não sendo uma verdade absoluta, pode-se dizer que é um clube mais sérvio”.

Fundados em 1945, o passar dos anos foi primordial para que a rivalidade só crescesse. O 'Dérbi Eterno', como ficou conhecido por todo o mundo, sempre foi marcado pelos movimentos dos seus torcedores. Porém, algumas vezes, para o lado oposto ao que se espera. No passado, organizados dos dois lados se confrontaram como membros de grupos paramilitares.

Babic ainda explicou o porquê das situações de embate. “Partizan é um time de iugoslavos e Estrela Vermelha é um clube de sérvios. O nome Estrela Vermelha é um símbolo do comunismo, então é difícil dizer que é um clube sérvio. Mas o sentimento de muitos aqui é de que ele os pertence, que ele faz parte da identidade nacional deles”.

Geração promissora

Em meio à esta longa fase de reconstrução vivida pela seleção sérvia, uma nova geração desponta como a esperança de dias melhores. Campeão do Mundial sub-20 de 2015, em cima do Brasil de Gabriel Jesus e Casemiro, o grupo tem como seu principal expoente o meia Sergej Milinkovic-Savic.

Destaque da Lazio na temporada 2017/18, o jogador de apenas 23 anos já tem seu nome especulado em possíveis transferências gigantes da Europa: Real Madrid, Manchester United, Juventus, Tottenham, entre outros.

“Savic é um grande jogador, versátil e que tem muito a evoluir, creio que em um futuro próximo ele vá se tornar um desses jogadores que valem mais de 100 milhões de euros. Porém, é difícil dizer se ele conseguirá conduzir a Sérvia à melhores resultados, acredito que seja muita pressão nas costas dele”, opinou Bojan Babic.

Em abril deste ano, o jornal italiano Gazzetta Dello Sport noticiou que a Lazio já havia recusado uma oferta da Juventus por Savic no valor de 80 milhões de euros, fixando o preço para negociar o jogador em 120 milhões de euros.

Além da relevância esportiva, essa nova geração sérvia carrega consigo um sentimento em comum com aqueles que estão fora de campo. Enquanto os mais velhos, que têm cerca de 50, 40 anos de idade, demonstram uma postura mais fechada, com algum certo rancor de tudo o que aconteceu na região após o desmembramento, os jovens agem de uma forma diferente.

Esta nova massa de sérvios, que vem do final do século XX e início do século XXI, anseia por uma nova realidade no país, algo mais europeu, mais globalizado. É claro que todos estas esperanças não devem ser reservadas a um grupo de jovens jogadores que está surgindo, porém, é possível dizer que eles são um símbolo de um povo que anseia por uma nova Sérvia, seja ela dentro ou fora de campo.