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Copa do Mundo: zagueiro da Croácia viveu de perto guerra que vitimou parente e o fez virar refugiado

Entre abril de 1992 e dezembro de 1995, uma complexa combinação de fatores religiosos e político-nacionalistas, além da desintegração da antiga Iugoslávia, fizeram com que mais de um milhão de pessoas virassem refugiados com o intuito de fugir de um dos conflitos armados mais sangrentos dos últimos tempos: a Guerra da Bósnia.

Um destes expatriados atende pelo nome de Dejan Lovren.

Atualmente zagueiro titular do vice-campeão europeu, Liverpool, e da Croácia, que disputará a Copa do Mundo da Rússia, a partir de 14 de junho, ele, contudo, poderia ter tido um destino muito pior. Muito mais sombrio; diferente do que vive hoje, sendo um dos defensores mais importantes do planeta.

Nascido no vilarejo de Kraljeva Sutjeska, em Zenica, com pouco mais de 70 mil habitantes na Bósnia e Herzegovina, Lovren, aos três anos de idade, viu de perto a guerra que não só o tirou de casa pelo medo, como também viveu na pele o que foi perder um ente querido por conta das disputas.

“Zenica foi atacada porque era uma cidade maior, mas eram os vilarejos menores onde as coisas mais horríveis aconteciam. As pessoas eram brutalmente assassinadas. O irmão do meu tio foi morto à frente de outras pessoas com uma faca. Eu nunca falei sobre meu tio porque é algo complicado de se falar, mas ele perdeu o irmão. Ele era um membro da minha família. Difícil…”, conta Lovren, no documentário "Minha Vida Como Um Refugiado", produzido pelo canal oficial do Liverpool no Youtube.

“Nós tínhamos tudo, para ser sincero. Nunca tivemos problemas. Todos se davam bem na vizinhança – com os muçulmanos, com os sérvios... todos conversavam entre si e curtiam a vida, tudo corria como queríamos. Mas foi aí que tudo aconteceu”, continua.

As cenas, por mais cinematográficas que parecessem, eram reais. Do dia para a noite - literalmente, segundo palavras do zagueiro -, os combates se iniciaram.

"Eu gostaria muito de poder explicar a todos, mas ninguém sabe da verdade real. Simplesmente aconteceu. Simplesmente mudou. De repente, havia uma guerra entre três diferentes culturas. Me lembro de ouvir sirenes e eu estava muito assustado porque eu pensava: 'são bombas'", diz.

Foi aí que a última alternativa encontrada foi fugir da Bósnia para a Alemanha, país que até hoje é o destino preferido daqueles que veem-se sem opção se não deixar suas casas.

"Lembro que minha mãe me levou para o porão, não sei quanto tempo ficamos sentados lá, acho que foi até as sirenes pararem. Depois, lembro-me da minha mãe, do meu tio e da mulher dele pegando o carro para irmos à Alemanha. Deixamos tudo - a casa, a lojinha com a comida que eles tinham -, eles pegaram uma bolsa e falaram: 'vamos para a Alemanha'".

Então, começou a viagem extremamente cansativa, ainda que de carro. Lovren diz não se lembrar, mas seus parentes contaram as horas até o destino final, Munique, a pouco mais de 800 km de Zenica: foram 17 - e não menos do que isso, por conta de todas as paradas de segurança. Por sorte, seu avô morava em solo germânico e, portanto, possuía os documentos necessários para que eles se instalassem por lá.

"Se não, não saberíamos sequer o que fazer. Imagino minha família e eu mortos agora se não desse certo. Um dos meus melhores amigos na escola tinha um pai soldado e eu sempre o via chorando. Perguntei-lhe por que e ele me respondeu: 'Ele morreu'. Então, sabe, poderia ser meu pai ali", rememora.

Foram sete anos de calmaria vivendo na Baviera, até os dez anos de idade. Todos seus amigos eram de lá. A escola era lá, e ele até jogava em um clube de futebol da região, que era treinado pelo seu pai. Entretanto, tudo parecia que voltaria a virar pesadelo.

"Minha mãe e meu pai estavam pedindo permissão para ficarmos mais tempo lá, mas a cada seis meses ela era rejeitada. As autoridades diziam que quando a guerra acabasse, nós teríamos que retornar. Então, a cada seis meses, meus pais faziam as malas, prontos para voltarem. Foi muito complicado - você não tinha um futuro na Alemanha", lembra.

"Então, chegou o dia e eles nos falaram: 'vocês têm dois meses para prepararem suas malas e retornarem'. Foi duro para mim porque eu tinha tudo lá, minha mãe dizia que era nossa segunda casa e era verdade. Eles nos receberam de braços abertos, e não sei que outro país faria isso por nós, refugiados da Bósnia".

CHEGADA À CROÁCIA E PATINS DE GELO

Com o advento da cessar-fogo na península balcânica, no final de 1995, Lovren retornou, ironicamente, ao país que batalhava contra aquele em que ele nasceu, a Croácia.

Apenas um garoto simples, com sotaque alemão carregado pelos anos vividos no rico país centro-europeu, ele nunca passou fome ou esteve na miséria. Com um pai pintor e uma mãe caixa de supermercados, entretanto, o aperto era grande.

"Estávamos em uma situação financeira difícil. Minha mãe disse: 'Não podemos pagar a conta de eletricidade' e, por uma semana, não tínhamos o dinheiro".

A saída, então, era vender tudo aquilo que pudesse ser descartado. Mesmo que o valor sentimental sobressaísse ao monetário.

"Lembro do meu pai pegando meus patins de gelo. Um dia, perguntei à minha mãe onde eles estavam porque amava usá-los no inverno. E ela me disse, em lágrimas: ' papai está os vendendo... não temos dinheiro para esta semana'. Juro que, a partir deste ponto, não queria mais ouvir aquilo na minha vida. Eles venderam os patins por 350 Kuna [moeda croata], que dá mais ou menos 40 libras (R$ 204, pelas cotações atuais). Foi um período complicado para meus pais".

Pode não parecer, até pelos muitos detalhes dados por Lovren em seu depoimento, mas falar sobre a infância nunca é fácil, fato percebido até pelo meio-campista brasileiro Éderson, que atuou com o zagueiro entre 2010 e 2012, logo após o croata deixar o Dinamo Zagreb e antes de ele chegar ao Southampton, da Inglaterra.

"Quando um país está em guerra, todos perdem e sofrem. Me lembro que ele comentava sobre isso com muita tristeza, pelo fato da família ter que abandonar o país por causa da guerra", comenta, em entrevista exclusiva à ESPN.

"Ele estava sempre dando risada com todo mundo. Todos imaginam um zagueirão casca dura sendo fechadão, mas ele sempre foi contador de piadas e zoava com todo mundo. Ele era muito amigo do Pjanic [meio-campista, hoje na Juventus] no Lyon. Eles são bósnios e concentravam juntos. Quando estavam juntos, falavam no idioma deles. Os dois passaram por muitos problemas por causa das guerras", completa.

E, de fato, foi um período extremamente traumatizante para a família Lovren.

"Foi como se a guerra tivesse acontecido ontem. É um assunto delicado de se tocar, então as pessoas o evitam. É triste. Minha mãe me disse [antes do documentário]: 'não conte nada a eles, filho'. E eu respondi: 'Vou contar'. Então, ela chorou de novo. Ela se lembra de tudo", afirmou o zagueiro.

"Quando vejo o que está acontecendo atualmente com os refugiados, eu me lembro da minha situação, da minha família e como as pessoas não te querem em seus países. Eu entendo que elas queiram se proteger, mas eles não têm onde viver. Não é culpa deles. Estão lutando por suas vidas e para salvar seus filhos. Eles querem um lugar seguro para o futuro de suas crianças. Eu passei por tudo isso e sei pelo que estão passando algumas famílias. Deem-lhes uma chance. Você consegue ver quem são as boas pessoas e quem não".

E Lovren soube muito bem aproveitar as chances que recebeu em Dinamo Zagreb, Inter Zapresic, Lyon e Southampton. Pelas atuações sólidas nestes times, ele foi contratado por 25 milhões de euros (R$ 112 milhões) pelo Liverpool, em 2014. Desde então, segue como um dos pilares da defesa dos Reds.