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Corinthians sofre sem patrocínio e naming rights e conta com mais vendas para fechar 2018

Jadson cobra escanteio em vitória do Corinthians sobre o Palmeiras na Arena pelo Brasileiro Rodrigo Coca/Ag. Corinthians

“Eu já sabia que era uma situação difícil, complicada, mas ela foi muito pior do que eu imaginava.” Foi assim que Wesley Melo, diretor financeiro do Corinthians na gestão de Andrés Sanchez, iniciou entrevista exclusiva ao ESPN.com.br. O clube, que fechou 2017 com déficit de R$ 35 milhões, sofre sem patrocínio máster e os naming rights da Arena e deve seguir dependendo da venda de atletas.

No último ano, apesar dos títulos do Campeonato Paulista e Brasileiro, a negociação de jogadores respondeu por mais de 27% da receita bruta do futebol – R$ 97,8 milhões em R$ 358,1 milhões. O novo responsável pelas finanças alvinegras sonha em diminuir essa relação, mas reconhece que, em 2018, será difícil fechar as contas caso o clube não venda mais atletas até o fim da temporada.

Leia abaixo, na íntegra, a entrevista com Wesley Melo, em que ele também aponta o Flamengo como exemplo de gestão a ser seguido no futebol brasileiro e, não o rival Palmeiras, que conta, segundo ele, com a “sorte” de ter a Crefisa como parceira:

ESPN.com.br: A situação do clube é melhor, pior ou exatamente como você imaginava antes de assumir?
Wesley Melo: Eu já sabia que era uma situação difícil, complicada. Mas ela foi muito pior do que eu imaginava. O clube tem um fluxo de caixa negativo, teve um déficit este ano. A gente espera que fosse algo perto do equilíbrio, acabou virando um déficit incrível em 2017. Se tornou algo mais difícil do que eu imaginava.

Por quê?
Aconteceu de tudo em 2017. A gente teve uma queda importante de receita, teve incremento de custo, investimento maior em futebol. Você tem que assumir uma nova gestão e já pegar uma situação não muito boa financeiramente, causa um certo espanto. Você está descobrindo isso também ao longo desses primeiros meses. Então não dava para tomar muita ação, porque você tem que conhecer o passado para começar a agir. Foi um começo complicado, mas agora a gente já sabe exatamente onde está, dominando a situação. Agora é um novo modelo de gestão.

Onde está o maior problema do Corinthians?
Na falta de receita. De fato, está fazendo falta um patrocínio máster, os naming rights da Arena. Está fazendo falta. O que tem na nossa gestão de controle de custo, que a gente pode fazer, a gente vai fazer. Agora, de fato, depender de uma receita em um momento de crise que o país ainda está vivendo é algo realmente desafiador. Todos os clubes estão vivendo isso, e nós não somos muito diferentes. Talvez com exceção de Flamengo e Palmeiras, todos os clubes estão sofrendo com isso.

Você vê Flamengo e Palmeiras como exemplos de gestão a serem seguidos?
O do Palmeiras é um caso específico, muito pontual, sorte deles terem a Crefisa colocando bastante dinheiro lá. Sorte deles. Já no Flamengo, eu vejo realmente gestão. O Flamengo tem feito algo que eu admiro, que venho acompanhando já há alguns anos. Acho que eles estão colhendo o que eles fizeram lá atrás. Respeito muito o que o Flamengo tem feito, sim. Acho que o Corinthians pode seguir esse mesmo caminho do Flamengo.

Até o Flamengo chegar neste momento atual, passou por um período de contenção, às vezes com times não tão competitivos. Essa realidade se aplicaria ao Corinthians?
Acho que esse é o caminho. Não tem outro. Hoje, você vê nossa folha de jogadores, é uma das maiores do Brasil, e a gente não tem receitas suficientes para cobrir isso. Acho que, em determinado momento, a gente tem que buscar esse equilíbrio. Se, eventualmente não tiver receita, a gente vai ter que buscar uma redução de custos propriamente dita, para ter um equilíbrio, para pensar um pouco mais em longo prazo. Funcionou até agora, a gente é bicampeão paulista, campeão brasileiro, mas a gente tem que pensar em algo um pouco mais futuro, algo que seja um pouco mais perpétuo. Tem que seguir um pouco o que o Flamengo fez, tem hora que tem que dar uma enxugada dentro de casa, eventualmente ter um time um pouco mais limitado, mas para colocar a administração e finanças em dia para depois ter um time mais competitivo para sempre. Não adianta você ser campeão agora e daqui a pouco está competindo para não cair para a Série B. Não acredito muito nisso, acredito em um trabalho a longo prazo.

Esses cortes, que você mencionou em entrevistas anteriores, então, vão chegar ao futebol?
Olha, também esses cortes que eu tenho falado, mais ou menos, não foi exatamente assim. Algumas manchetes saíram dessa maneira. O que eu venho falando é que realmente o clube precisa encontrar um equilíbrio de receitas e custos. É nossa obrigação fazer uma revisão de todas as atividades, do futebol, do clube, Arena, todas as atividades, identificar se são realmente importantes e se pode fazer algum tipo de redução. Mas algumas manchetes deram que eu falei que iam sair muitas demissões, cortes e tudo mais. Na verdade, acredito que tem que ter trabalho sério, em todas as áreas. Não dá para negligenciar um déficit de R$ 35 milhões que foi em 2017, a gente não quer repetir isso em 2018, mas meu nível de custos vai continuar o mesmo se eu não fizer nada. E se a receita não aparecer, vai ser outro déficit. Acho que seria muito complicado fechar este ano com um déficit significativo de novo. Algo precisa ser feito, como um orçamento base zero, é algo que a gente está propondo lá dentro do clube, uma revisão de todas áreas, todas atividades, e onde a gente puder fazer uma redução, temos que fazer. Se tiver que passar pelo futebol, acho que é o caso, mas vamos ver se não precisa.

Desde 2014, com a Arena, o déficit acumulado do Corinthians é de quase R$ 200 milhões. O único ano com superávit foi 2016, com pagamento de luvas de televisão. Essa é uma realidade irreversível enquanto o clube não equacionar as finanças do estádio?
Ainda ontem estava vendo um material da BDO (empresa de auditoria e consultoria de Raul Corrêa da Silva, ex-diretor financeiro do Corinthians) sobre os 22 principais clubes do Brasil. Nos últimos dez anos, esses clubes têm R$ 2 bilhões de déficit acumulado. Em dez anos, só em quatro anos, esse conjunto teve superávit. Me parece uma realidade do futebol brasileiro como um todo. Mas acho que isso não é sustentável, acho que temos que partir para um modelo um pouco mais coerente financeiramente e realmente espero que o Corinthians comece fazer alguma coisa diferenciada, como o Flamengo vem fazendo, o Atlético-PR também vem fazendo um trabalho interessante. Espero que os outros clubes também comecem a fazer isso.

O orçamento para este ano foi feito pela gestão passada. Você pretende alterá-lo?
Tem que mexer. Por dois motivos. Um pelo estatuto, agora no meio do ano temos que fazer uma revisão. E outro porque foi feito em uma realidade que, a gente sabe, não é mais a mesma. O orçamento foi feito no final do ano passado, novembro de 2017, e previa patrocínio máster desde janeiro. Estamos em maio, e a gente não tem patrocínio máster. Tem venda de jogadores, como a do Jô, que não estava prevista. Tem que ser refeito esse orçamento. Vamos fazer uma revisão.

Em 2017, o Corinthians recebeu quase R$ 80 milhões em patrocínios, mas graças à renovação de contrato com a Nike. No orçamento de 2018, a projeção é de arrecadar R$ 87,2 milhões, mas sem essas luvas. Esse valor ainda é real?
Acho que dá para ir buscar ainda. Tem muita ação de marketing também em campo. Rosenberg e Caio Campos estão fazendo muito trabalho que daqui a pouco vai começar a dar retorno. Acredito que em nível de receita a gente vai conseguir buscar, talvez em uma geografia diferente, mas acho que dá para cumprir a receita. O que espero é que ela seja um pouco maior para cumprir o custo que a gente tem. E também espero que a gente também consiga encontrar uma redução.

O patrocínio é o que mais faz falta?
O patrocínio faz falta, mas também faz falta uma melhor estruturação na Arena, nas nossas receitas. Porque quando não tem uma receita suficiente para pagar os custos e o financiamento, o clube tem que botar dinheiro. Uma vez que, lá na Arena, embora sejam duas contabilidades diferentes, se a gente conseguir dar uma equalizada melhor na Arena, eu tenho menos custos no clube. Esses dois pontos acho que são os mais significativos.

Esse dinheiro que sai do clube para cobrir despesas da Arena não estava no planejamento inicial...
Não estava, porque a expectativa era não ter que desembolsar isso. Foram R$ 25 milhões ou R$ 26 milhões em 2017, que não estava imaginando. Foi pensado que a Arena ia se pagar, ter receitas suficientes para pagar os custos e o financiamento e acabou faltando. Também não está previsto nesse orçamento inicial de 2018. O que vou precisar fazer agora, com diretoria, luis paulo, opa, espero que não seja mesmo nível. Alguma coisa vamos ter que cobrir da arena, mas que não seja R$ 25 milhões, R$ 26 milhões novamente. Uma redução significativa esperamos que tenha

Em 100 dias de gestão de Andrés Sanchez, o que o financeiro já fez, o que já é diferente de como o clube terminou 2017?
Foram 100 dias muito agitados. Primeiro a gente teve que fechar o balanço, fechar auditoria, conseguir aprovação dos Conselhos, foi realmente muito pesado. E a gente já tem um draft do orçamento, a gente já sabe onde pode caminhar o clube. Não é oficial ainda, mesmo porque a composição da diretoria foi feita ao longo desses 100 dias. Não tomamos posse e assumimos todos, demorou um pouquinho. E o que estamos buscando, ao menos na parte de finanças, é tomar pé da situação, colocar um pouco mais de controle, verificar as deficiências de compliance que eventualmente tinham, ajudar o Luís Paulo no suporte da renegociação da Caixa, tinha muita coisa para ser feita. Procurações vencidas com a Caixa, contas bancárias que precisariam ser abertas, exclusivas para pagar para a Caixa. A parte de finanças foi mais operacional, não consegui ser muito estratégico. Foi mais operacional, para tomar pé da situação, e ter o mínimo de controle, como uma empresa grande tem, uma empresa internacional. Esses foram os 100 primeiros dias de Corinthians. Trazer para o presidente, gestores: essa é a realidade. Como a gente faz agora para transformar?

Andrés disse que, em 100 dias, ele mudaria o clube. Para as finanças, qual o prazo você acha que seria adequado para colher resultados?
Acho que no segundo semestre. Vejo muito trabalho sendo feito dentro do clube, tem mesmo. Principalmente a equipe de marketing, não estão conseguindo dormir. Não tem sábado, não tem domingo. Estão realmente trabalhando muito, mas estão semeando. Acredito que, no segundo semestre, a gente vai conseguir colher um pouco mais de frutos, principalmente na parte financeira. Vamos ver se conseguimos reduzir esse déficit. Não acredito que será nos próximos dias, acredito que no segundo semestre.

Você fala muito do trabalho em conjunto com o marketing, mas caso essas receitas não venham, o clube vai ter que recorrer mais uma vez a vendas?
Acho que é uma realidade inevitável. Acho que, em 2017, 28% da receita total foi com venda de jogador. Não é o ideal. Na Europa, os grandes times não dependem da venda de jogador para fechar suas contas, mas é uma realidade brasileira. Não vai ser do dia para noite que vamos mudar isso. Espero que não dependa tanto da venda de jogadores, mas não posso ser hipócrita com você. Eu conto com alguma venda no final do ano para cobrir um eventual gap, sim

Para este ano, o clube ainda tem dinheiro a receber do Jô, Guilherme Arana e agora deve concretizar a venda do Maycon. Esse negócio ajuda ou resolve para o Corinthians nessa questão?
Ajudaria. Ela ajuda, mas não resolve, com certeza. Precisaria de um pouco mais. Esse é o valor de venda, mas tem o custo também atrelado. O Jô foi vendido por um determinado valor, mas 45%, 50% tinha de custo para reconhecer. Então me sobra 50%, 55%, alguma coisa assim. No final das contas, vamos precisar de uma venda no final do ano para fechar a conta. Vamos ver se o marketing traz alguma receita extraordinária para isso não acontecer. Mas, se não trouxer, não vai ter como. Não dá para reverter, de um ano para o outro, uma dependência de 28% que foi da venda de jogadores no ano passado e não conseguimos, ainda assim, ficar no equilíbrio, tivemos um déficit significativo

Quando o Corinthians não renovou o patrocínio máster com a Caixa, o banco propunha uma redução nos valores repassados ao clube. Hoje, uma proposta inferior ao que o Corinthians recebia é interessante ou se mantém a postura de não negociar por menos?
O Corinthians está aberto a qualquer tipo de negociação, não dá para botar um limite. Tem algumas empresas sendo discutidas, é mais uma discussão de valor da marca, do quanto é importante para a marca ficar atrelada ao Corinthians, do que propriamente o valor. Realmente, fez falta isso (o dinheiro da Caixa), a gente não sabe exatamente quais foram as circunstâncias no passado, quando foi negociado, não sabe se foi só dinheiro, posicionamento, não sabemos. A gente tem que estar aberto. Se a Caixa quiser patrocinar agora, estamos abertos, estamos precisando também.