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Juiz explica como colocou ordem em Corinthians x Palmeiras tenso: 'Tive que mostrar que ali tinha árbitro'

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O clássico entre Corinthians e Palmeiras, neste domingo, às 16h (de Brasília), pela 5ª rodada do Campeonato Brasileiro, promete ser carregado de tensão. E o árbitro gaúcho Anderson Daronco, sorteado pela CBF para comandar o dérbi, sabe que não terá vida fácil em Itaquera, já que a polêmica do 2º jogo da final do Campeonato Paulista, com acusações de interferência externa na decisão do juiz Marcelo Aparecido de Souza de anular um pênalti, ainda segue viva nos bastidores.

Antes da confusão no Allianz Parque, porém, poucos se lembram que, no jogo da ida da decisão do Estadual, a arbitragem foi bastante elogiada.

No dia 31 de março, o paulista Leandro Bizzio Marinho não teve dó de mostrar cartões amarelos e vermelhos e controlou bem uma partida extremamente brigada na Arena Corinthians. Ao final, porém, foi exaltado por jogadores e dirigentes dos dois times.

Em entrevista à ESPN, Marinho lembrou a apreensão que passou horas antes da final do Paulista, já que circularam boatos nas redes sociais de que ele seria corintiano, inclusive com montagens do árbitro vestindo a camisa do "Timão".

"Eu geralmente sou um cara muito tranquilo. Passei uma semana tranquila até sexta-feira, por volta das 18h, quando os acontecimentos (os boatos difundidos na internet) chegaram pra gente. Mesmo assim, procurei ficar tranquilo. Não via a hora de chegar logo o jogo para que eu conseguisse desempenhar bem minha função", recordou.

O juiz também desabafou e criticou o comportamento de corintianos e palmeirenses no último dérbi em Itaquera.

Segundo Marinho, os atletas não queriam saber de jogar futebol, mas sim de brigar e pressionar a arbitragem para que os rivais levassem cartões.

"Os jogadores não se preocuparam em querer jogar futebol. Eles se preocuparam em discutir, em fazer um jogo brigado", disparou o árbitro, justificando os 10 cartões amarelos e os dois vermelhos (para Felipe Melo e Clayson) mostrados no clássico.

"Eu tive que tomar sanções disciplinares que às vezes não agradam A ou B, mas que foram corretas e assertivas. Eu tive que tomar a rédea do jogo e tive que mostrar pra eles que ali tinha árbitro, que tinha alguém que comanda", bradou.

Leia a entrevista completa com Leandro Bizzio Marinho:

ESPN: Como foi a sua a preparação para encarar aquele dérbi?
Leandro Bizzio Marinho: A preparação começou quando saiu a escala. Quando vi meu nome no sorteio, já fui me preparando mentalmente, pois sabia que seria um jogo muito difícil. Era um Corinthians x Palmeiras que por si só já é um jogo grande, e ainda mais em uma final de Campeonato Paulista, algo que não acontecia há quase 20 anos. Então, aquele jogo tornou-se algo maior ainda. A minha preparação mental tinha que ser total e exclusiva para o jogo, e eu tratei de fazer aquilo muito bem durante a semana.

ESPN: Como fica a ansiedade dos juízes antes de um jogo deste? Como fazer para se isolar de coisas externas, como pressão da torcida e dirigentes, e também de notícias que possam te atrapalhar antes dos jogos?
LBM: Eu geralmente sou um cara muito tranquilo. Passei uma semana toda tranquila até sexta-feira, por volta das 18h, quando alguns acontecimentos chegaram para a gente. Mas mesmo assim eu procurei ficar tranquilo. Claro que quando você vai apitar uma final de Campeonato Paulista, um Corinthians x Palmeiras, aquela vontade de chegar logo o jogo, para que a bola comece a rolar e você consiga desempenhar bem a função, é imensa. Não via a hora do jogo começar. Mas, apesar de tudo, eu estava muito tranquilo, desde o início até o fim do jogo, mesmo com tudo o que falaram.

ESPN: Ainda assim, você teve que lidar com boatos que circularam nas redes sociais na véspera do jogo dizendo que você era corintiano. Como foi passar por isso?
LBM: A semana foi bem tranquila desde que saiu o resultado do sorteio. Só que, por volta das 18h de sexta, mais ou menos, eu estava lá na concentração e começaram a aparecer algumas coisas aí plantadas de gente que não tem o que fazer da vida, né... Que ficam criando situações complicadas as pessoas e os profissionais que amam o que fazem, e que o fazem com idoneidade e seriedade, e que têm um nome a zelar! As pessoas fizeram algumas coisas que me chatearam, mas a Federação nos blindou ali. Deixaram a gente bem tranquilo, eles viram que as coisas (espalhadas na internet) eram montagens. Mas fomos bem blindados, e eu pude chegar no campo 100% focado para o jogo. Eu tenho muito poder mental de focar em uma coisa e poder trabalhar totalmente focado naquilo. Foi isso que eu fiz.

ESPN: O que um árbitro precisa fazer para que possa ir bem em um jogo tenso como o dérbi? Em termos de comportamento com os atletas, inclusive
LBM: Tem que se preparar, tem que saber o que é o jogo e aonde está inserido o contexto de uma partida dessa grandeza. Ela tem que ser conduzida com disciplina e com presença física. Só que grande parte disso é responsabilidade dos jogadores. Eles têm que ter a consciência, sim, que eles têm que ajudar a arbitragem. Se os jogadores quiserem criar confusões, quiserem ter atrito entre eles, o jogo vai ser ruim. O árbitro vai ter que tomar várias ações técnicas e disciplinares que vão parar muito o jogo. Muita gente coloca a culpa do árbitro, fala: ‘Ah, ele parou muito o jogo’. Mas tem certas ocasiões que não tem o que fazer. Aquele jogo foi um exemplo: as infrações aconteciam, as confusões aconteciam, e eu tinha que parar o jogo.

ESPN: Você estuda os jogadores antes da partida, até para saber com quem terá que ficar mais atento?
LBM: A gente estuda, sim, os jogadores. Você não pode ser surpreendido. Um árbitro moderno tem que fazer o mesmo que as equipes, que estudam os últimos adversários e como eles jogam. O árbitro não pode fugir disso. Ele tem que saber qual a característica dos jogadores para não ser surpreendido dentro de campo. A gente foi para aquele dérbi preparado para o que podia acontecer. É claro que no futebol acontecem eventualidades, mas eu estava preparado. (Corinthians x Palmeiras) É sempre um jogo muito difícil, e isso acabou se concretizando mesmo em campo, mas graças a Deus a gente conseguiu resolver todos os problemas daquele primeiro jogo com muito êxito da arbitragem. Isso é o mais importante de tudo.

ESPN: Dérbi é sempre um jogo tenso? Você precisou expulsar dois, jogadores naquela partida, até porque houve uma confusão entre os jogadores em campo
LBM: O dérbi é um grande jogo de futebol, um clássico. Ele gera um pouco mais de tensão, por causa da rivalidade entre as equipes. A torcida cobra mais, a diretoria dos clubes também. Ninguém quer perder. Porém, é apenas um jogo. O árbitro tem que entrar ligado como em todos os jogos. O problema do dérbi é que a visibilidade é muito maior, a imprensa fica em cima, então os jogadores vão mais ligados para o jogo, tentam dar a vida ali para ganhar aquela partida. Tem que estar sempre ligado no que está acontecendo. Não podemos perder um detalhe sequer no, porque são nos detalhes que os acertos e erros são determinados. Em um jogo desses, se você não toma essas ações, é perigoso o jogo não acabar. E o que aconteceu nesse jogo foi isso. No primeiro jogo da final, os jogadores não se preocuparam em querer jogar futebol. Eles se preocuparam em querer discutir, em fazer um jogo brigado... Eu acho que isso prejudicou o andamento da partida, porque eu tive que aplicar sanções disciplinares que às vezes não agradam A ou B, mas que foram corretas e assertivas. Eu tive que tomar as rédeas do jogo, tive que mostrar para eles que ali tinha árbitro, que tinha alguém que comanda. E aí eles foram percebendo isso durante o jogo, porque foram no total 10 cartões amarelos e dois vermelhos. Para uma final de Paulista, é muita coisa, é realmente muita coisa... Mas será que foi só culpa do árbitro? Eu acho que não. A responsabilidade também passa pelos atletas. Eu queria terminar o jogo sem dar nenhum cartão amarelo, nenhum cartão vermelho. Esse seria meu sonho! Queria fazer um grande jogo, sem nenhuma confusão. Mas, infelizmente, não foi assim.

ESPN: Fale mais sobre essa responsabilidade dos atletas na condução do jogo
LBM: Fizemos um grande jogo. Nós (equipe de arbitragem) fomos muito bem. Desde o primeiro minuto os jogadores já mostraram que não foram 100% para jogar. Eles se preocupavam mais em criar atrito entre eles e confusões onde não precisava. E os jogadores tinham que entrar lá para jogar bola e se preocupar com o segundo jogo, porque, afinal de contas, teria uma partida de volta. Então, eles deveriam ter a consciência de que não precisavam criar situações complicadas e chatas entre eles, porque existe a possibilidade de alguém ser expulso, sendo que dali uma semana teria uma segunda partida. Então, o jogador tem que ter um pouco mais de responsabilidade nesta questão. O público quer ver um grande espetáculo, não quer ver briga, não quer ver bola parada, não quer ver cartão vermelho... O público quer ver jogo de futebol, gols, habilidade, jogadas bonitas! E no primeiro jogo a gente quase não viu isso... Os jogadores queriam ficar discutindo por qualquer coisa e se tocando, se trombando... Isso atrapalhou bastante.

ESPN: E você acha que acertou ao expulsar o Felipe Melo e o Clayson?
LBM: Naquele jogo eu precisei, sim, expulsar os dois atletas. As imagens estão aí, né? Eles se agrediram e criaram toda a confusão. Graças a Deus nós estávamos ligados, e a arbitragem conseguiu cercas todas as situações. Acabou tudo sendo meio rápido porque eu fiz uma conferência ali (com os auxiliares) para tomar uma decisão. Foi coisa rápida, uns 10 segundos, eu chamei toda a equipe e perguntei o que eles tinham visto. Eu já tinha a decisão na minha cabeça, só que alguém poderia ter visto mais alguma coisa. Mas exatamente o que eles viram eu vi. Nós tomamos as sanções disciplinares ali naquele momento e eles foram perfeitas, foram pontuais para aquele jogo e não tem que reclamar da expulsão de A ou B. Elas foram corretas, as imagens estão aí e eu fiz meu papel dentro de campo. Eu sou o árbitro da partida e tenho que manter a disciplina dentro de campo. Se os jogadores quiserem, vão ficar os 22 (dentro de campo ao final do jogo). Se eles não quiserem, vou expulsar quantos precisar. Graças a Deus ali só precisei expulsar dois, mas o controle da partida após as expulsões foi perfeito.

ESPN: Você passou momentos complicados antes desse jogo. O que sentiu quando tudo acabou?
LBM: Depois do jogo, confesso para você que saiu um peso das coisas... Fomos muito bem! No vestiário da arbitragem, nós estávamos muito felizes pelo resultado e pelo grande trabalho que fizemos no primeiro jogo. O presidente Reinaldo (Carneiro Bastos, da FPF) nos ligou após o jogo parabenizando a grande arbitragem e oferecendo um almoço no dia seguinte como agradecimento pelo grande serviço que nós fizemos. Então, foi muito positivo, foi um momento muito gostoso, principalmente depois das besteiras que falaram a meu respeito na sexta-feira (antes do jogo). Nós provamos dentro de campo que arbitragem é coisa séria.

ESPN: Recebeu elogios dos envolvidos na partida?
LBM: Uma coisa muito positiva, que aliás é muito difícil de ocorrer, aconteceu naquele dia após o jogo, e eu me surpreendi. Após a partida, quando a gente foi sair ali pelo meio-campo, primeiro fomos passar pelo batalhão de jornalistas e repórteres de campo. Eles estavam entrevistando os atletas e a maioria dos jogadores olhava para mim e dizia: ‘Grande arbitragem, Leandro, parabéns!’, ‘arbitragem excelente’. Teve até um repórter que me deu um tapinha nas costas e falou: ‘Cara, que arbitragem’ (risos). Foi uma coisa muito positiva e bacana. Aí entramos no vestiário e tinha um diretor do Palmeiras e um do Corinthians, perto um do outro. Os dois vieram na minha direção e falaram a mesma coisa: ‘Rapaz, que arbitragem! Você está de parabéns. O jogo foi muito difícil de ser apitado, mas você conduziu muito bem’. Não tem valor ouvir isso. Não tem premiação melhor que essa para mim. Você sai de campo com a sensação de dever cumprido, de saber que as pessoas envolvidas ali naquele ambiente reconheceram um grande trabalho. Isso nem sempre acontece, ainda mais uma final com dérbi Corinthians x Palmeiras conturbada do jeito que foi! O reconhecimento foi geral: imprensa, jogadores e diretores das duas equipes.

ESPN: Como você enxerga as chuvas de críticas que os ábitros vêm recebendo recentemente no Brasil, principalmente depois da polêmica da segunda final do Paulista?
LBM: A arbitragem é muito séria. Existem equívocos, é claro. Claro que eles existem. Somos seres humanos, estamos sujeitos a eles. Só que a gente leva a série isso. Muito! Nós deveríamos ter um pouco mais de respeito pelo ser humano, sabe? Temos que ser mais respeitados pelas torcidas, pela imprensa. Nós não estamos ali querendo prejudicar ninguém! O que a gente quer é dar nosso melhor sempre. Às vezes as coisas não acontecem da maneira que a gente imagina, infelizmente. Mas isso não é porque somos ladrões, desonestos, mal-intencionados. De jeito nenhum! Essas são palavras muito fortes. Quem fala uma coisa dessas tem que provar! E eu tenho certeza que todos os árbitros são pessoas muito sérias. Eu trabalho com os melhores árbitros do país no Campeonato Brasileiro e na Copa do Brasil, e todos trabalham com só um objetivo: fazer o melhor na partida em que são escalados. Errar não passa pela cabeça de nenhum árbitro, mas infelizmente não acontece. Somos seres humanos, infelizmente os equívocos acabam acontecendo e eles são sempre mais ressaltados e noticiados que nossos acertos. Os acertos são sempre esquecidos. E a gente acerta muito mais do que erra. Pode ter certeza!