<
>

Como astro da Copa de 2002 vive hoje 'escondido' em uma padaria

Hakan Sukur e Rivaldo disputam jogada durante Turquia x Brasil na Copa-2002 Getty Images

Ele foi um herói nacional, ídolo supremo do gigante Galatasaray e responsável por marcar o gol mais rápido da história das Copas do Mundo. Seu apelido era Kral, ou "O rei". Hoje, porém, vive "escondido" em uma padaria na cidade de Palo Alto, perto de San Francisco, nos Estados Unidos.

Trata-se do atacante Hakan Sukur, ex-jogador também da Inter de Milão e que foi apontado como um dos grandes astros do Mundial de 2002, na Coreia do Sul e Japão. Naquele torneio, ele jogou duas vezes contra o Brasil (na fase de grupos e na semifinal), mas não chegou a brilhar. Seu grande momento acabou sendo o gol com apenas 11 segundos de jogo contra a Coreia do Sul, na disputa de 3º lugar.

Ao todo, ele anotou 51 vezes em 112 duelos pela seleção turca, sendo até hoje o maior artilheiro da história da equipe.

Pelo Galatasaray, foram 293 tentos em 552 jogos (média de 0.53 por partida), além de oito títulos do Campeonato Turco, cinco da Copa da Turquia e mais uma Copa da Uefa, vencida em cima do poderoso Arsenal de Henry, Bergkamp, Vieira, Overmars, Petit e Sylvinho. Conquistas que lhe alçaram à posição de ídolo máximo da equipe de Istambul e uma verdadeira lenda em seu país.

Após se aposentar do futebol, em 2008, Sukur, então um dos homens mais populares da nação, resolveu entrar para a política. Ele se associou ao AKP (Partido da Justiça e Desenvolvimento), partido do hoje presidente Recep Tayyip Erdogan, e foi eleito membro do parlamento em 2011.

Dois anos depois da eleição, porém, a situação começou a se complicar. Ligado ao movimento islâmico do clérigo Fethullah Gülen, Sukur renunciou ao seu posto no Parlamento em protesto à suspensão do sistema implantado pelo grupo junto às crianças, por ordem de Erdogan. O ex-atleta, então, tornou-se um político independente.

Ainda em 2013, porém, ele se envolveu em uma polêmica ao dizer durante uma palestra em uma universidade que era "albanês, portanto, não turco", causando controvérsia no país.

Sukur chegou a retornar ao futebol como comentarista de uma TV pública no país, mas os problemas políticos seguiram acontecendo após ser acusado de ter ofendido o presidente Erdogan no Twitter.

Curiosamente, o ex-jogador e Erdogan sempre tiveram boa relação, e o presidente foi até um dos convidados de honra do casamento do ídolo do Galatasaray.

Por causa dos insultos, foi considerado opositor do Governo e até por fazer parte de um membro terrorista local. Quando a polícia turca expediu um mandato de prisão após a tentativa de golpe de Estado ocorrida na Turquia, ocorrida em 2016 e na qual Erdogan apontou Fethullah Gülen como cabeça por trás da tentativa de derrubá-lo, a situação ficou fora de controle.

Sem alternativas, o ex-atacante resolveu se auto-exilar. No fim de 2017, viajou para os Estados Unidos com sua mulher e filhos e começou uma vida nova e bem diferente da que teve com o futebol.

"UM DIA QUERO VOLTAR"

Hakan Sukur foi encontrado pelo jornal The New York Times na Tuts Bakery and Cafe, empreendimento do qual é sócio e toma conta atualmente em Palo Alto, na Califórnia, e que serve especiarias de sua terra natal.

Ele topou conversar com o diário e disse que um dia planeja retornar à Turquia, mas não sabe quando. Afinal, será preso se pisar em Istambul por ordem do presidente Erdogan.

Levando uma vida pacata, ele fica triste ao citar a saudade dos pais, que ficaram na Turquia (seu pai chegou a ficar um ano preso pela polícia por causa das investigações contra Hakan), e diz que é mais uma grande vítima da complicada situação política da Turquia.

"É meu país. Eu amo meu povo, apesar das ideias que hoje todos têm sobre mim (sobre fazer parte de uma célula terrorista) terem sido totalmente distorcidas pela mídia controlada pelo Governo", reclamou.

Desde a tentativa de golpe, mais de 250 pessoas morreram e 60 mil foram presas. As principais vítimas foram jornalistas, professores universitários e políticos opositores ao regime de Erdogan.

O presidente também reforçou seu controle sobre o exército nacional, a Justiça, os veículos de imprensa, e, mais recentemente, impôs restrições a diversos sites da internet.

"Quem sabe no futuro eu consiga voltar para fazer uma visita", sonhou.

Sukur ainda diz que sua fortuna acumulada durante os anos como jogador de futebol se esvaiu. Ele diz que o Governo tomou suas casas, seus negócios e suas contas bancárias, após ele ser acusado de trair a nação e o presidente.

Só sobrou o suficiente para entrar numa sociedade na Califórnia e abrir o café, onde ele trabalha hoje sem ser reconhecido pelos clientes como uma lenda do futebol turco.

"Eu poderia ter tido uma vida tranquila e me tornado um ministro na Turquia se tivesse jogado segundo as regras do jogo, fazendo tudo o que me diziam para fazer. Hoje, estou aqui vendendo café", resignou-se.

O ex-atacante diz que se diverte com as reações das pessoas quando é reconhecido por algum turco.

"Um dos meus vizinhos, que vem sempre aqui à padaria, um dia chegou e as pessoas estavam tirando fotos de mim. Ele me perguntou: 'Por que estão tirando fotos de você? Você nem é tão bonito'", sorriu.

Para se distrair e lembrar dos bons tempos de jogador, ele costuma atuar em peladas locais, principalmente contra empregados do Google, que jogam futebol em um campinho perto da sede da empresa.

E ele continua afiado: recentemente, marcou 11 dos 15 gols de sua equipe em uma tarde.

"A escuridão não dura para sempre. Acredito que um dia a luz irá retornar à Turquia. A escuridão nunca dura para sempre", encerrou, enquanto recolhia os pratos deixados pelos clientes de sua padaria.