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Ele sofre de depressão todos os dias, mas deu a volta por cima e virou artilheiro na Inglaterra

Não é uma simples lesão na qualquer. Não é uma lesão na coxa, no tornozelo, ombro ou até mesmo do joelho, talvez a mais temida por qualquer jogador de futebol no mundo.

Billy Rodney Kee passou por um período extremamente difícil em sua vida e segue agonizando com uma doença - ainda que muitos resistam, erroneamente, em tratá-la assim - que o faz pensar duas vezes sobre se pretende levantar da cama e fazer sua rotina diária de treinos pelo Accrington Stanley, time da quarta divisão da Inglaterra.

O atacante de apenas 27 anos é mais um dos que sofrem de depressão, enfermidade que, segundo dados divulgados pela OMS (Organização Mundial da Saúde), de estudo realizado em 2015, cresce de forma exorbitante e, hoje, atinge 322 milhões de pessoas, ou seja, pouco mais de 4% de toda a população mundial. Ainda de acordo com a pesquisa do órgão, 788 mil pessoas morreram por suicídio, representando quase 1,5% de todas as mortes no mundo e deixando-a no top-20 de causas de morte no ano em questão.

Por muito pouco, Kee não virou apenas mais um na periclitante estatística.

Tudo começou há cerca de um ano e meio, quando o jogador começou a sentir uma tristeza que relutava em ir embora; uma ansiedade que tornava cada segundo de seu dia mais longo e penoso de se viver.

"Por que alguém que tem o melhor emprego do mundo poderia chegar e se matar? Isso não faz sentido", questiona-se o próprio jogador, em entrevista à emissora britânica BBC.

"Eu ficava me revirando na cama, chorando, não estava curtindo nada e simplesmente queria desistir. Estava para baixo naquele tempo e pensava: ‘eu vou bater meu carro contra a parede’. Então eu pensava, ‘é isso, estou acabado’, revela. "Você tem que colocar tudo isso numa caixa e guardá-la no armário. Não tirar de lá. Você sabe que está lá e sabe que não pode fazer nada com essa caixa, mas você tem que dizer: ‘fique ai’", sugere.

Nem mesmo a perspectiva de fazer gols e comemorar com sua torcida nos jogos do Accrington faziam Billy Kee ter a menor das melhoras. Foi aí, então, que seu treinador, John Coleman, e sua família entraram em cena para auxiliá-lo na recuperação - o que, segundo os médicos, é o principal remédio para a cura da depressão.

"Ele simplesmente disse: ‘vá, tire um mês para você’. Para um clube de futebol fazer isso, nossa... No fim, eu realmente decidi que queria desistir. Me mudei para casa de meus pais e meu pai disse: ‘você não vai ficar aí sentado, parceiro. Se você quer ficar no mundo real, venha para o mundo real’. Meu pai pensa que eu sou o cara mais sortudo do mundo por ter o emprego que tenho e, em umas três semanas, eu já estava de volta ao futebol", lembra.

"Eu ficava me revirando na cama, chorando, não estava curtindo nada e simplesmente queria desistir. Estava para baixo naquele tempo e pensava: 'eu vou bater meu carro contra a parede'. Então, eu pensava, 'é isso, estou acabado'" Billy Kee, atacante do Accrington Stanley

"Se não fosse pela minha mulher e meu filho, eu provavelmente não estaria aqui", completa.

Claro, além das conversas frequentes com familiares, Kee toma diariamente uma quantia controlada medicinalmente de remédios.

"Depressão é uma coisa séria, as pessoas sofrem com isso, mas eu descobri que eu também sou bipolar. Tudo se junta e é algo novo para mim e estou aprendendo sobre isso e espero que aprenda ainda mais. Meus novos tabletes têm sido bons, eles têm me relaxado e creio que eles atenuam tudo. Espero que eles continuem funcionando", comemora.

"'Depressão' é uma palavra obscura. As pessoas têm medo do estigma. Até que você tenha depressão, você não consegue explicar para alguém que nunca teve como é. Você pode tentar, mas não faz sentido na sua cabeça", diz Coleman, que teve papel vital para o atacante.

Para Kee, a ansiedade e a doença lentamente tomaram uma forma estranha em sua cabeça, a que ele associa a um "rato".

"Este 'rato' chega por volta das 19h. Ultimamente, esteve tudo bem, mas normalmente acontece quando você tem uma preocupação ou qualquer coisa, mesmo coisinhas inúteis, e fica revirando isso em sua cabeça. Faz você não dormir. Então, no dia seguinte, você acorda ‘grogue’ porque não dormiu a noite toda. É porque esse 'rato' fica batendo, batendo, batendo... E, normalmente, quando falo com pessoas sobre isso [que também sofrem de depressão], todas elas também têm esse 'rato'", diz.

Mas, por sorte, este "animalzinho", mais temido do que o próprio pequeno mamífero pertencente à ordem dos roedores, não o fez deixar o mundo mais cedo.

De volta aos gramados, Billy Kee percebeu que estava fazendo aquilo que gostava de fazer. Aquilo de sabia fazer. Eram gols atrás de gols, que ajudaram o Accrington a, na última terça-feira, a alcançar o histórico acesso à terceira divisão da Inglaterra.

A vitória por 2 a 0 sobre o Yeovil Town, que valeu a subida, aliás, contou com dois tentos do camisa 29, atualmente o artilheiro da competição, com 24 tentos marcados, em 42 partidas disputadas.

Faltando ainda quatro jogos para o fim do campeonato, Kee já foi agraciado pela EFL (Liga de Futebol da Inglaterra) com o prêmio de melhor jogador da temporada da League Two.

Agora, apesar da doença, Kee quer usar sua experiência para ajudar a outros, que sofram com a depressão ou não, dentro e fora de campo.

"É tudo sobre educação e aprender sobre isso. Todos precisam entender sobre. Poderia ajudar alguém pensando: ‘isso acontece comigo regularmente, será que tenho isso?'. Eles poderiam dar uma olhada. Podem até não ter nada. Mas, se isso, os ajudar de alguma forma, ótimo", finalizou.