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'Nem eu sei por quê': o desconhecido que tinha nota 97 e era melhor até que Ronaldo e Zidane no FIFA

Em 2003, o francês Zinedine Zidane ganhou o prêmio de melhor jogador do mundo da Fifa, batendo o compatriota Thierry Henry e o brasileiro Ronaldo "Fenômeno" com boa vantagem. Naquela eleição, "Zizou" ainda ficou na frente de craques como Nedved, Roberto Carlos, Van Nistelrooy, Beckham, Raúl, Maldini e Shevchenko, os outros integrantes do top 10.

Quem comprou o game FIFA 2003 naquele ano, porém, se surpreendeu ao ver que nem Zidane, nem Ronaldo e nem as feras que estavam na capa do jogo (Roberto Carlos, Ryan Giggs e Edgar Davids) eram páreo para um italiano relativamente desconhecido fora de seu país.

Naquela edição do famoso game da EA Sports, o melhor atleta disparado era o meia italiano Matteo Brighi, então jogador do Parma, que tinha uma nota absurda: 97. Um número que lhe colocou à frente até dos melhores jogadores daquela temporada.

Mas o que justificava uma nota tão alta? Ninguém sabe ao certo...

Brighi foi revelado pelo pequeno Rimini, e fez sua estreia profissional em 1998. Após dois bons anos pelo clube, chamou a atenção da Juventus, que o contratou em 2000, a pedido do técnico Carlo Ancelotti.

Na "Velha Senhora", porém, teve poucas chances, e acabou emprestado ao Bologna para 2001/02. Foi aí que seu futebol floresceu de vez e ele chegou à seleção italiana sub-21, chamando também a atenção dos programadores do FIFA.

Nesta temporada, Brighi "comeu a bola" sob o comando do técnico Francesco Guidolin, e ajudou sua equipe a terminar em 7º lugar na Serie A, estando presente em 33 das 34 partidas do Bologna no torneio.

Ao final do campeonato, acabou eleito como melhor atleta jovem do ano na Itália, um prêmio recebido também por nomes como Francesco Totti, Filippo Inzaghi, Marek Hamsik e Daniele de Rossi.

Como os ratings do FIFA 2003 são baseados no que os atletas fizeram no ano anterior, era esperado que Brighi tivesse uma nota boa. No entanto, os programadores exageraram e acabaram o deixando com um overall de 97, transformando o garoto italiano no melhor do jogo, um verdadeiro fenômeno.

Isso fez com que ele se transformasse em uma verdadeira lenda entre os fãs do game, que até hoje buscam explicações do porquê da nota daquele garoto ser maior que a de Ronaldo, Zidane e Henry.

O ESPN.com.br, então, resolveu ir atrás. E, para tentar encontrar a resposta por trás deste mistério, falamos com ninguém menos que o próprio Matteo Brighi, alvo de tanta polêmica.

No entanto, isso só gerou ainda mais dúvidas...

'NEM EU SEI POR QUE TENHO ESSA NOTA'

Hoje com 36 anos e atuando pelo Perugia, Brighi foi questionado pela reportagem se sabia que era o "melhor do mundo" de 2003, ao menos no FIFA.

Brincalhão, o italiano disse que não é amante dos videogames, mas que já conhecia essa história.

"Alguém me contou essa notícia do FIFA há mais um ou menos um ano. Para falar a verdade, eu não sabia disso antes, pois não sou um grande fã de videogame", contou o meio-campista.

"Então, para descobrir (o porquê da nota 97), era melhor vocês falarem com quem fez o jogo", brincou.

"Eu não faço ideia, nem eu sei por que tenho essa nota. Eu até tenho um Playstation, mas jogo mais o PES ou MLB de vez em quando. Alguém me contou um dia essa curiosidade (sobre a nota 97), mas foi só ultimamente", acrescentou.

Veja como era jogar com Brighi no FIFA 2003:

Questionado se achava que seu rating era justo, ele deixou no ar.

"Quem jogava comigo em 2003 me pegou bem no início, eu tinha poucos anos de futebol. Depois, muitas coisas aconteceram na minha carreira e minha nota foi mudando", afirmou.

"Mas, se alguém me deu aquela nota, talvez eu merecesse", salientou.

Atualmente, Brighi tem rating 70 e é uma carta silver no FIFA 18.

"Eu ainda não tenho filhos, mas tenho dois sobrinhos maravilhosos que adoram jogar FIFA com o tio. E, quando jogo contra eles, sou apenas o 'titio'. Sou jogador apenas no campo, em casa sou outra pessoa", define.

E O QUE ACONTECEU COM MATTEO BRIGHI?

Quando o FIFA 2003 foi lançado, em 25 de outubro de 2003, Brighi havia sido vendido há três meses da Juventus para o Parma, então um dos times mais fortes e ricos da Itália, por um valor hoje equivalente a 5 milhões de euros (R$ 19,4 milhões, na cotação atual).

Vindo de ótima temporada pelo Bologna, ele não se firmou no clube da Parmalat, e fez só 25 partidas e um gol em 2002/03, mesmo sendo o melhor jogador do mundo de acordo com o videogame da época.

Ainda assim, foi chamado pela primeira vez para a seleção italiana principal nesta época, sendo comandado pelo lendário Marcelo Lippi.

Na temporada seguinte, atuou por empréstimo pelo Brescia, com um pouco mais de destaque, e conquistou a Eurocopa sub-21 com a seleção italiana, ao lado de nomes como Andrea Barzagli, Daniele De Rossi e Alberto Gilardino.

Isso chamou a atenção da Juventus, que o recontratou ao final da temporada 2003/04 por 11,5 milhões de euros (R$ 44,9 milhões, na cotação atual). Brighi, porém, seria usado apenas como moeda de troca nos próximos meses.

Primeiro, ele foi dado como compensação à Roma em troca do volante brasileiro Emerson, então jogador da seleção brasileira. Logo que chegou ao clube da capital, porém, foi novamente trocado, desta vez com o Chievo, pelo italiano Simone Perrotta.

Em Verona, o meio-campista teve três boas temporadas, chegando até a disputar a Uefa Champions League, e somou 94 jogos e nove gols pela equipe amarela. Em 2007/08, a Roma, com quem havia assinado por cinco anos, pediu seu retorno.

Daí para a frente, Brighi viveu os melhores anos de sua carreira. Sob o comando do técnico Luciano Spalletti, ajudou o clube giallorosso a fazer boas campanhas na Serie A e conquistou a Copa da Itália em 2008 e a Supercopa da Itália em 2007.

Em 2011/12, o atleta foi emprestado à Atalanta, e, após o fim da temporada, acabou negociado com Torino. Passaria ainda por Sassuolo e Bologna antes de chegar ao Perugia, tima da 2ª divisão italiana que defende desde 2016/17.

No fim das contas, foram 545 jogos (541 por clubes, quatro pela Azzurra) e 37 gols até hoje em 20 anos de carreira, com quatro títulos na bagagem (uma Copa da Itália, duas Supercopas da Itália e uma Euro sub-21).

Teria sido pouco para um jogador que era apontado como um dos grandes nomes do futebol italiano no começo dos anos 2000, e que um dia foi melhor que Zidane e Ronaldo "Fenômeno", ao menos nos games? Segundo ele mesmo, não.

"Não gosto de pensar que fiz menos do que podia. Gosto de pensar que ganhei tudo o que podia e aproveitei ao máximo".

'UM CARA DIFERENCIADO DOS PADRÕES DO FUTEBOL'

Quem conheceu bem Matteo Brighi se lembra dele como um jogador de grande aplicação tática e ótimo passe. Fora dos gramados, era famoso por ser extremamente inteligente e bem articulado, além de um devorador de livros.

"Ele é muito sossegado e extremamente inteligente. Lembro que ele lia muito e era educado e culto. Um cara diferenciado dos padrões do futebol. Foi um prazer enorme conviver com ele, pois era um excelente companheiro para todos os jogadores", lembra o ex-goleiro Júlio Sérgio, que jogou entre 2006 e 2013 pela Roma, atuando ao lado de Brighi por muitos anos.

"Brasileiro é sempre mais agitado, mas ele é todo tranquilão e um cara muito certinho. Eu lembro de sempre vê-lo andando com um livro debaixo do braço nas concentrações e viagens do clube", rememora o hoje treinador do Prudentópolis-PR.

Nessa época, o italiano era uma espécie de 12º jogador da Roma, atuando em algumas ocasiões como titular, mas na maioria das vezes entrando no segundo tempo para segurar a bola no meio-campo.

"A disputa por posição naquela nossa equipe era muito forte, havia grandes jogadores na posição dele. Mas o Spalletti gostava muito dele e o colocava sempre no segundo tempo em quase todos os jogos, pois ele tinha ótima qualidade no passe e era muito regular", elogia.

"Além disso, tinha uma marcação muito forte, era um cara muito tático, com rodagem de seleção italiana. Como era muito aplicado, era também muito útil ao time", exalta.

A passagem pela Roma, aliás, é eleita pelo próprio Brighi como a melhor fase de sua vida como futebolista.

"Seguramente meus anos na Roma foram os melhores da minha carreira. Pude jogar a Champions e disputar o título italiano em diversas ocasiões. Além disso, pude conhecer vários grandes jogadores, verdadeiros campeões, especialmente brasileiros", rememora.

"Houve Juan, que era um campeão e um profissional único. Cicinho e Júlio Baptista eram jogadores extraordinários e de caráter muito alegre. Também Rodrigo Taddei, um cara italiano de alma, mas brasileiro nos pés. Conheci três grandes goleiros: Doni, Júlio Sérgio e Arthur, todos atletas únicos", recorda.

"E também conheci Adriano 'Imperador', com quem joguei primeiro no Parma, depois na Roma. Ele era uma força da natureza. Nos tempos de Parma, conseguia ganhar alguns jogos praticamente sozinho", acrescentou.

Aos 36 anos e alternando como titular e reserva no Perugia, ele ainda não tem data certa pra aposentar.

"Claro que penso sempre no futuro, mas vamos esperar o fim da temporada para ver como me sinto. Aí vou decidir se devo parar ou não", comentou.

Enquanto isso, ele segue com seus hábitos simples: muita paz e pouca balada.

"No meu tempo livre, gosto de ir ao cinema, ler e assistir séries de TV. Vez ou outra acompanho algum jogo de futebol. Prefiro mesmo ficar em casa e convidar meus amigos para jantar. Baladas e discotecas nunca me conquistaram", encerrou.