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Por que Roberto Carlos não deu certo na Inter de Milão? O motivo tem nome e sobrenome

Na última segunda-feira, o Barcelona confirmou a contratação do meia Philippe Coutinho por incríveis 160 milhões de euros (R$ 623,6 milhões), o que fez do brasileiro a 2ª contratação mais cara da história, atrás apenas de Neymar.

O mais incrível da história, porém, é o lucro que o Liverpool teve na transação, já que os ingleses haviam comprado o armador por apenas 13 milhões de euros (R$ 50,4 milhões atualmente) da Inter de Milão, em janeiro de 2013.

Nas últimas décadas, porém, virou algo até normal a Inter desprezar jovens talentos e vendê-los a "preço de banana" para outros clubes, vendo depois os atletas brilharem em outras equipes - muitas vezes, até no rival Milan.

Um dos casos mais emblemáticos de desperdício dos nerazzurri aconteceu com o lateral esquerdo Roberto Carlos.

Revelado pelo União São João-SP, ele teve uma rápida passagem pelo Atlético-MG, em 1992, antes de chegar ao Palmeiras, em 1993, contratado pela Parmalat, então patrocinadora e co-gestora da equipe alviverde.

No clube paulistano, o ala, que começava a impressionar e já havia até sido convocado pela seleção brasileira, explodiu de vez.

Em dois anos no Palestra Itália, "comeu a bola" e ganhou dois Campeonatos Brasileiros, dois Paulistas e um Torneio Rio-São Paulo, sendo um dos principais atletas do time.

Além disso, se firmou na seleção, tendo sido considerado o melhor jogador da equipe na Copa América de 1993, na qual o Brasil caiu nas quartas para a Argentina, nos pênaltis.

Não à toa, o lateral chamou a atenção da Europa e, em 1995, quando tinha 22 anos, acertou com a poderosa Inter de Milão, da Itália.

O time pagou US$ 8 milhões (R$ 26 milhões, na cotação atual) por seu futebol - uma fortuna naqueles tempos.

"Vou ganhar muito mais do que no Brasil. Tenho que aproveitar o meu momento, que é maravilhoso. Está dando tudo certo para mim", celebrou, à época, após assinar com os italianos por três anos.

"Vou morar no primeiro mundo, minha filha Roberta, de dois anos, vai falar outra língua... São muitas mudanças, mas estou me preparando para isso", acrescentou.

"Vou tentar dar o máximo no meu primeiro ano na Inter para ver se faço um contrato ainda melhor no segundo", completou.

Mas as coisas não saíram como o esperado por ele...

'O ÚNICO JEITO FOI IR EMBORA'

Roberto Carlos chegou com moral à Inter de Milão. Na Itália, todos já haviam ouvido falar de suas perigosas subidas ao ataque, além do potente chute de perna esquerda e da velocidade.

O problema é que o inglês Roy Hodgson, técnico do clube nerazzurri naquela época, achou que essas eram as características ideais para um atacante, e passou a usar o brasileiro como ponta esquerda.

Não à toa, Roberto não rendeu o esperado e teve uma passagem decepcionante pela Internazionale, fazendo 34 jogos e marcando sete gols.

Em entrevista à revista FourFourTwo, em 2005, ele contou os bastidores de sua relação com Hodgson.

"Meu problema na Inter era Hodgson, Roy Hodgson. Ele queria que eu jogasse como atacante, quando na verdade eu era defensor. Eu prefiro ter espaço na minha frente para correr ao invés de ser um ponta e ficar lá na frente", contou.

"Para mim, sempre foi melhor ter 80 metros de campo para jogar do que 20. Eu não gostava do sistema e da posição que Hodgson queria que eu jogasse. Ele me queria bem na linha de frente, rígido e parado", completou.

Vendo que o treinador era irredutível quanto à sua escalação e preferia escalar nomes como Alessandro Pedroni, Alessandro Pistone ou Felice Centofanti na lateral esquerda, o brasileiro rapidamente pediu para deixar a Inter.

"A Copa América (de 1995) estava chegando e eu estava jogando de lateral esquerdo na seleção, então queria jogar nessa posição na Inter também. Então, tive que ir embora, porque não podia atrapalhar minhas chances de jogar pelo Brasil", lembrou.

"Conversei com Massimo Moratti [então presidente do time] para ver se a gente conseguia resolver a situação, mas logo ficou claro que o único jeito era ir embora", finalizou.

Moratti, então, arquitetou uma transferência até hoje lembrada na Itália: trocou Roberto Carlos, então com 23 anos, com o Real Madrid pelo atacante Iván Zamorano, à época com 30 anos e já na fase final da carreira - o clube de Milão ainda pagou uma compensação financeira aos merengues para ter o chileno.

Após durar apenas um ano no futebol italiano Roberto Carlos tornou-se um dos maiores laterais da história na Espanha, ganhando dezenas de títulos e alcançando status de lenda.

Ao todo, foram quatro Espanhóis, três Supercopas da Espanha, três Champions, dois Mundiais de Clubes e uma Supercopa da Uefa.

Já pela seleção, na qual ele se consolidou enquanto atleta dos blancos, o canhoto ganhou a Copa do Mundo de 2002, a Copa das Confederações de 1997 e as Copas Américas de 1997 e 1999.

Zamorano, por sua vez, atuou quatro anos pela Inter, fazendo 150 jogos e marcando 37 gols. Levantou apenas um troféu com a camisa azul e preta: a Copa da Uefa de 1997/98.

Hodgson, por sua vez, deixou a Inter em 1997, após ser vice da Copa da Uefa, e ainda teve mais uma passagem pela equipe como interino, em 1999. O restante de sua carreira foi irregular, com trabalhos em grandes clubes, como o Liverpool, e por times minúsculos, como o Viking-NOR.

Entre 2012 e 2016, ele comandou a seleção da Inglaterra sem nenhum sucesso, sendo demitido após a eliminação para a Islândia nas oitavas da Eurocopa de 2016. Atualmente, treina o Crystal Palace, 14º colocado da Premier League.