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Semana das Mães: As mães torcedoras do cenário de League of Legends

Arquivo pessoal

Quando um jogador sobe aos palcos, independente do esporte, ele carrega consigo a confiança de sua torcida, que vibrará a cada jogada e comemorará ou lamentará o resultado. As cobranças, elogios e o apoio incondicional do torcedor são cruciais para que a emoção no jogo aconteça — e, quando o vínculo com seu time é mais forte do que só identificação, o ato de torcer ultrapassa limites.

Ygor Freitas, conhecido por Redbert, deixou sua cidade e a casa de seus pais aos 17 anos, para competir no League of Legends. João Vitor Morais, o Zuao, traçou o mesmo caminho. Como jogadores profissionais de esports, os dois conquistaram centenas de fãs e milhares de pessoas que assistem fielmente a seus jogos — mas nenhuma torcida se compara à de quem o assiste de casa, com os olhos fixos na TV e o coração apertado de orgulho.

AS FÃS DE CARTEIRINHA DE REDBERT

Quando a mãe de Redbert, suporte da INTZ, conversou com a reportagem do ESPN Esports Brasil, o filho estava voltando do Vietnã, onde disputou a fase de entrada do Mid Season Invitational. “A gente fica muito triste, né?” confessa, sobre a campanha do time no torneio internacional, muito abaixo do esperado pela comunidade do jogo. “Mas por outro lado fica feliz, porque são poucos que conseguem se destacar. Afinal de contas, eles foram os melhores, o melhor time do Brasil”, disserta.

“Pra nós, a alegria foi ele ter participado, ter representado o Brasil”, afirma Ana Iaraju Flores da Cunha, de 54 anos. “É mais alegria do que tristeza, sim. Se erraram, foi tentando fazer o melhor. Não foi o resultado esperado, mas estamos felizes por eles terem tentado fazer o melhor”, assume.

Faz 4 anos que Ygor decidiu deixar Cuiabá, no Mato Grosso, para vir a São Paulo jogar LoL profissionalmente. “Ah, foi um desespero”, confessa a mãe, aos risos, sobre o dia em que Redbert explicou a carreira que queria seguir. “Meu deus, quase morremos do coração. Porque pra a gente é sempre criança, né. Aí queria ir lá, morar sozinho, com o time. A gente ficou desesperado”, conta.

“Mas ele insistiu que ia, que tinha que ir. Que era aquilo que ele gostava. Que se a gente não deixasse ele fazer, depois mais tarde ia se arrepender, porque de repente ele poderia ser um bom jogador, despontar, e a gente não teria deixado. Aí a gente ficou pensando e falou ‘vai, Ygor, vai que a gente te apoia’”, narra.

Ao lado da irmã, Araci Flores da Cunha, Ana é presença garantida em todas as oportunidades de acompanhar o trabalho de Redbert de perto. As duas estavam no Mineirinho quando o jogador foi campeão do CBLoL pela primeira vez, em 2017, e também estavam torcendo ferrenhamente em seu segundo título, em 2019. Quando o apoio presencial não é possível, a sede do fã-clube é a sala de casa, em que a TV é ligada no CBLoL e a família se reúne na torcida por Ygor.

Quase tão próxima quanto a mãe, a tia Araci, de 57 anos, conta com orgulho e bom humor que Ygor brinca sobre ter “duas mães”: Ana e Araci. A tia coruja é presença garantida também nas redes sociais, interagindo com torcedores e transbordando amor. “Nossa, eu acho que chego a ser fanática”, ri. “Quando ele disse que ia a São Paulo e que ia ficar, meu deus, eu chorei”, relembra, emocionando-se.

“Pedi pra ele: ‘pelo amor de Deus, me fala uma mãe com quem eu possa falar sobre isso’. Conversei com a mãe do Ranger, que disse que a gente se acostuma. (...) A gente tava com dó, sente falta, mas ao mesmo tempo não quer cortar. É o sonho dele, tem que viver. Agora, graças a Deus, a gente vai lá toda hora”, conta a tia.

Araci retoma o ar e segura o choro. “E como fã… eu falo pro pessoal, olha, críticas, pode fazer, o que não pode é agredir”, diz. “Me afeta, sim. É cada coisa que a gente lê…”, comenta a tia, sobre comentários referentes à campanha da INTZ, time de Ygor, no MSI. “Antes deles jogarem, o povo já tava falando mal. Aí eu leio e ainda tô assim, meio chorona”, confessa.

“A gente não quer ver eles irem mal. Eles batalham tanto. O Ygor até me preocupa, porque ele cobra demais dele. Sempre foi assim, desde a época da escola, e agora com o jogo. Ele disse em entrevista que o pior jogador tinha sido ele. Ele se cobra muito, e agora isso vai demorar pra passar”, desabafa a tia.

Apesar de tudo, Areci crava que a família apoia incondicionalmente o jogador. “Eu sempre mando um recadinho, dizendo que a gente tá torcendo pela vitória. Quando não dá, mando que não deu hoje, mas ainda dá pra tentar. É o que eu falo pra ele: ‘ganhando ou perdendo, eu tô contigo’. Eu e todo mundo aqui em casa”, afirma.

A TORCEDORA “1V9” DA REDEMPTION

Na semana anterior à do dia das mães, Joana Morais se despediu mais uma vez de João Vitor, que passara pouco mais de duas semanas de férias com ela, no Rio de Janeiro, no intervalo entre as etapas do CBLoL 2019. “Eu choro pra caramba”, confessa em entrevista, aos risos, contando sobre levar o filho ao aeroporto.

“Eu acho que ele ficou pouco tempo, mas tem que voltar pra treinar. Eu choro, fico no aeroporto até o avião decolar. Eu sou muito boba”, brinca. “É muita emoção porque sou só eu e ele. Bate a saudade, é um negócio inexplicável. Eu sei que ele tem a vida dele fazendo o que gosta, mas ele faz muita falta”, desabafa.

A mãe de Zuao conta aos risos sobre quando o caçador da Redemption contou a ela que sairia de casa pela primeira vez, em 2015. “‘Mãe, eu vou pra São Paulo’”, ela imita a voz de filho, distorcendo-a, brincalhona. “Eu falei ‘opa, espera aí, menino, não é assim não’”. Imitando uma voz de choro, Joana prossegue: “‘Mãe, pelo amor de Deus, é meu sonho, não sei mais o que’”, narra.

Joana conta que acompanhou o filho até a cidade em que viveria e trabalharia — situação que tornou-se rotina após 4 anos de altos e baixos na carreira de Zuao. A mãe torcedora transborda orgulho ao revisitar a carreira do jogador, que acompanhou de perto durante todo o percurso, torcendo enlouquecidamente a cada oportunidade.

Em 2018, Zuao defendeu a TShow na semifinal da primeira etapa do Circuito Desafiante, em que o time jogou uma melhor de cinco contra o Flamengo. A mãe conta que os torcedores rubro-negros gritavam, cantavam e batiam em mesas e paredes apoiando seu time, mas que ela e a mãe de Dudstheboy, Carla, faziam parte da diminuta e forte torcida adversária.

O quinteto não conseguiu a vitória neste momento — mas, na etapa seguinte, foi campeão do torneio, conquistando a vaga no CBLoL. A maior torcedora da Redemption assistia o jogo da gaming house da INTZ, quartel-general do time na época.

“Eu chorava, ria, tremia. Quase passei mal”, conta, aos risos, acrescentando que tiveram que ajudá-la a se acalmar. “Aquele choro dele, eu já estava chorando com ele. Aquilo foi um desabafo dele. Eu lembro disso e choro”, confessa, sem segurar a emoção. “Aquele momento foi muito importante e emocionante na vida dele e pra mim como mãe, vendo a felicidade dele. Acho que nem se ele ganhasse a semifinal [do CBLoL, em 2019], não seria tão bom quanto foi aquele CD.”

Na semifinal da última etapa do CBLoL, Joana estava no meio da torcida, no estúdio, vendo o filho disputar a vaga na eliminatória. “Levamos bandeira, fizeram máscaras com o rosto dos jogadores. Na hora que eles estavam passando, eu gritei ‘Joãaaaaaao, lindo!’. O Duds falou: ‘Dona Joana 1v9 na torcida’”, ela ri. “A gente tinha uma fileira de torcida. Quando terminou o jogo, já tínhamos cinco, fomos conquistando”, afirma.

“Eu grito muito”, conta Joana. “Em casa, o pessoal aqui deve me achar doida. Sabe o pessoal que tá vendo futebol e falando pro jogador o que fazer? Eu sou assim com o LoL. Grito, converso, xingo o técnico”, brinca.

AS MÃES DO LEAGUE OF LEGENDS

Ana e Joana passam longe de ser as únicas mães participativas nas conquistas e disputas de seus filhos. Conectadas pelo sentimento e próximas pela divisão de experiências, diversas mães de jogadores profissionais de LoL mantém amizades, criando grupos e apoiando os filhos umas das outras.

“As mães da INTZ têm um grupo formado, e a gente dá o maior apoio. Conversamos todo dia e procuramos repassar as informações uma pra a outra, se uma delas tem um problema, a gente tenta resolver”, conta Ana, a mãe de Redbert.

Areci, a tia coruja, acrescenta: “Lá no grupo, a gente tem a mãe do Maestro, a do BocaJR, a do Tay, do Envy, do Shini, do Mills. É legal porque a gente fica trocando experiência, uma sabe de algo e já fala lá. Assistimos a final do CBLoL juntas, também. É outra coisa assistir ao vivo, né”, comenta.

Joana também é amiga de outras mães do cenário de League of Legends. “Ai, tadinhas, elas morrem do coração”, brinca. “A mãe do Drop, do Santos… o último jogo [série de acesso ao Circuito Desafiante, contra a Havan Liberty], eu assisti com ela, conversando no Whatsapp. Ela falou ‘não, não vou assistir não, tenho medo’”, narra a mãe de Zuao, aos risos.

“A mãe do Duds, a Carla, é aqui do Rio também, e é minha amiga. Na semifinal, ela saiu no segundo jogo, passou mal. Foi atendida na ambulância, verificaram a pressão dela, disse que não ia assistir o jogo lá dentro. A Areci também não assiste, porque não aguenta. Quando tem os nossos jogando, eu assisto todos, assisto e passo pra elas”, conta.

DICA PARA OUTRAS MÃES

Lembrando da situação que passou no início da carreira do filho, Joana aconselha mães que passam pela mesma fase que dialoguem muito com seus filhos. “Cada um tem sua criação e eu respeito muito isso. Mas essa coisa de ‘ah, é coisa de vagabundo’ não é legal”, argumenta.

“O diálogo e o respeito têm que existir em qualquer relação. Dá uma lida, tem tantos sites sobre LoL, tem muita informação na internet. E conversa com eles sobre isso, tanto os pais quanto os filhos. Eu deixava o João de castigo por jogar muito, levava mouse pro trabalho, levava o modem. Não adiantou nada. Faltou diálogo da parte dele ali, sabe? De repente seus pais estão abertos a diálogo, e você não quis explicar”, aponta, direcionada aos filhos.

Ana dá o mesmo conselho. “Procurar ouvir o filho, saber o que ele espera e deseja. A gente peca por, no início, achar que é uma bobagem, ficar jogando o dia inteiro. Mas não é isso, pra eles é diferente. O mundo tá mudando, e eles já estão acostumados com esse ‘mundo virtual’. A gente tem que aprender a ouvir e entender, já que é uma profissão diferente”, finaliza.