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Mães no controle: Conheça três mulheres que equilibram a maternidade com os esports

Bia é mãe e jogadora profissional de Rainbow Six. Reprodução

As mães estão em todos os lugares no mundo dos esports. De CEOs que cuidam das empresas dos filhos a torcedoras que vibram a cada jogada, é difícil não conhecer e se impressionar com peças tão importantes para o cenário. Mas elas não ficam apenas fora do jogo.

Neste especial para a Semana do Dia das Mães, você vai conhecer as histórias de três jogadoras profissionais de esports que são mamães orgulhosas de futuros gamers!

BEATRIZ “BIA” CASTRO (RAINBOW SIX)

Bia é a mamãe mais nova deste artigo. Quando fizemos a entrevista, a pequena Fernanda tinha apenas 7 dias de vida – um grande presente adiantado de Dia das Mães ao nascer em 2 de maio.

Jogadora de Rainbow Six, ela conta que era incentivada a jogar desde criança pelo pai, que preferia a filha em casa “do que na rua, à toa”. Foi também nos jogos que Bia conheceu seu futuro marido, Diego. “Com 14 anos, conheci meu marido no Battlefield 3. Começamos a namorar a distância em agosto de 2014, quando eu fiz 15 anos. Em 2017, começamos a morar juntos”, detalha.

Após o casamento, Bia ingressou no competitivo de Rainbow Six após mudar do console para o PC e entrar na equipe Neo Blue. “Conheci as meninas do meu time e começamos a treinar juntas. Em junho do ano passado, conseguimos a classificação para o primeiro circuito feminino de Rainbow Six, no Rio de Janeiro. Foi incrível conhecer todas as meninas pessoalmente”, lembra.

Meses depois, a jogadora teve uma notícia que mudaria sua vida por completo: estava grávida. “Quando eu descobri que estava grávida, logo contei para as minhas parceiras de time. Essas mesmas garotas foram minha companhia durante toda a gestação”, diz. “No decorrer dos treinos diários, elas sempre conversaram muito comigo sobre tudo. Me apoiaram sempre, inclusive nos dias mais difíceis, quando batiam as crise de existência e eu ficava pirada só de pensar que teria um bebê que me chamaria de mãe. Agradeço muito a elas por isso. Além disso, a Fernanda também ganhou muitos presentes das titias gamers”.

Bia continuou treinando durante o período de gravidez com o apoio de todos, incluindo da nova organização, nos momentos inconvenientes que aparecem para toda futura mãe. “Tiveram fases que foi difícil de ficar focada no treinamento com enjôos, outras vezes sentia tanto sono que quase dormia na frente do computador. Mas, apesar de toda dificuldade, conseguimos entrar na nossa nova organização, a Celestial Wolves Gaming, e eles me apoiaram durante toda a gestação, seja com questões pessoais ou morais”, comenta.

Para a jogadora, a maternidade colaborou para seu desenvolvimento como pessoa e profissional. “Me tornei muito mais responsável, inclusive durante os treinos. [A maternidade] Me tornou mais compreensiva com as meninas, também. Me mudou por completo”. Agora que Fernanda nasceu, no entanto, Bia não sabe como ficará sua carreira de jogadora nos próximos meses.

“Ainda não sei como será totalmente a questão de maternidade/treinos. Atualmente, como ainda estou me recuperando do parto, meu foco é totalmente minha filha. Ela exige muito de mim. Mas já venho me organizando para que futuramente eu volte a treinar com as meninas”, explica.

Quando falamos sobre a dificuldade de mulheres entrarem no competitivo, muitas vezes esquecemos do fator “maternidade”. Sobre isso, Bia confirma que “nossas obrigações como mãe dificultam muito nossa vida de jogadora”.

“Eu, por exemplo, amamento minha filha exclusivamente, portanto a cada 2 ou 3 horas preciso parar o que estou fazendo e me dedicar totalmente a ela. Além disso, tenho minha casa e eu também estudo. Se eu ainda jogo, sem dúvidas é porque é algo muito importante pra mim. É um sonho e algo que me traz prazer, e que vou continuar lutando pra ter tempo pra fazer”, revela.

“Eu ainda tenho sorte de ter o apoio do meu marido, que me ajuda muito nas tarefas e entende minha dedicação para com o Rainbow Six, e, por isso, me apoia. Nem todas têm a mesma sorte. Vejo diversos homens que viram pais e continuam sua rotina de jogos, então acredito que as mulheres, principalmente mães, precisam do suporte dos parceiros (as) para seguir sua carreira, seja ela qual for”, completa.

Mas uma coisa é certa: o futuro de Fernanda será repleto de games. “Sempre conversei com meu marido sobre nossa filha e videogames. Não a incluir na nossa vida ‘gamer’ nunca foi uma opção”, ri. “Nós sempre conversamos sobre qual console ela vai jogar, ou que jogos vamos apresentar a ela. Afinal, nossa família começou em um jogo, e somos muito gratos a ele por termos nos conhecido”.

Quando perguntamos se ela vai apoiar a filha caso Fernanda decida seguir os mesmos passos da mãe, Bia afirmou que sim, mas diz esperar por um futuro melhor. “Eu sem dúvidas vou apoiá-la no que ela decidir ser. E se decidir ser jogadora, streamer ou algo do tipo, vou adorar ajudá-la a alcançar seus sonhos”, diz. “Eu só espero que, até lá, o cenário seja mais receptivo com as mulheres e que minha filha não seja xingada ou leia coisas como ‘vai lavar louça’ de meninos que não têm noção de como isso nos afeta”.

PAULA “POULIE” MONTEIRO (CS:GO)

Atualmente caster de Counter-Strike: Global Offensive, Poulie e sua filha, Laura, de 2 anos, já são famosas no cenário. Apaixonada pelo FPS, Poulie teve até a barriga de grávida autografada por FalleN e levou Laurinha para conhecer o verdadeiro depois de nascida.

Em nossa conversa, ela conta que joga bem antes da filha nascer e que teve a infância regada por videogames. “Tive contato com computadores logo com 8 anos de idade, e desde então comecei a jogar”, lembra. “Conheci o CS na época de lan house, tinha meus 9/10 anos e frequentava bastante a lan house que era próxima da minha casa. Na época, meus jogos favoritos eram da saga HALO, e revezada entre Call of Duty em casa e CS na lan house”.

Ao contrário de Bia, no entanto, Poulie nunca teve o incentivo dos pais para jogar. “Meus pais não gostavam da ideia de que eu jogava, de que ficava mais horas jogando do que fazendo outra coisa, mesmo que meus afazeres e deveres estivessem feitos corretamente”, recorda. “Mas, mesmo com esse problema, eu passava muitas madrugadas jogando. O dia era muito estressante e jogar era a única forma de escape, era o que me salvava”.

A caster explica que começou a competir no Combat Arms, de 2010 a 2012, mas que as coisas ficaram sérias quando migrou para o CS em 2015. “Joguei profissionalmente até 2017 por alguns times e organizações do cenário, e no final dele entrei para o mundo das narrações para ajudar na visibilidade do cenário feminino”, detalha. “Cheguei a competir em PUBG e fui disputar um campeonato na China, mas atualmente trabalho apenas como narradora e diretora executiva do Projeto Sakura”.

Poulie cita como conquistas de sua carreira a participação no campeonato de PUBG na China, as narrações em dois estandes da Brasil Game Show em 2018 e o convite para participar da narração da DreamHack Winter Open, também em 2018, no canal oficial do torneio. “Mesmo com todas as dificuldades que passei, de não ter apoio da família, não ter um computador decente, de ser mãe, vi que não preciso desistir dos meus sonhos com o esports. Minha cabeça mudou bastante depois da maternidade, e como eu vejo o meu trabalho também. Agora eu realmente levo mais a sério”, afirma.

Entre as experiências marcantes que lembra entre a maternidade e os esports, Poulie conta sobre a vez que foi a um evento de FalleN, em 2016, ainda grávida. “Conheci muita gente que admiro, conheci o próprio Fallen, e ele assinou minha barriga de grávida”, recorda. “Um ano depois, ele conheceu minha filha no Encontro das Lendas, e minha pequena teve seu body assinado por muitos dos meus ídolos”.

Sobre a relação da filha com os jogos, Poulie afirma que está tentando introduzir jogos a ela. “Eu ensino ela sobre e aceitaria numa boa se ela decidisse seguir carreira na área. Seria incrível estar nos esports ao lado da minha filha no futuro”, garante.

PATRÍCIA “MISTY” ALVES (CS:GO)

Nossa última entrevistada é a mamãe do Nico e jogadora profissional de CS:GO, Misty. Fã de videogames desde criança, Misty conta que começou a jogar por volta dos 5 anos com a mãe e os irmãos. “A gente zerava juntos alguns jogos como Alex Kidd, Rei Leão, entre outros”, relembra. “Demoramos muito pra termos um PC, mas a gente jogava Pitfall quando íamos na casa do meu tio e aí a vontade de ter um PC só aumentava. Quando tivemos o nosso pela primeira vez, em 2000, a gente se viciou de cara em Need for Speed e Alien vs Predador. O difícil era dividir o PC com mais 4 pessoas”.

A jogadora conta que seu primeiro jogo online foi Counter-Strike: Source, que conheceu na época da faculdade, mas que não pulou no competitivo logo de cara por ouvir histórias ruins do cenário feminino. “Eu tinha muito pé atrás de jogar em time feminino por sempre ouvir que no [CS] 1.6, onde havia um cenário feminino, as meninas brigavam muito entre si, e eu não queria aquilo pra mim”, afirma.

“Quando migrei pro CS:GO, logo na versão beta do jogo, em 2012, eu decidi que iria arriscar e fechei uma line com algumas meninas que jogavam o Source comigo, daí usamos a tag Number Six. Foi a primeira line feminina no CS:GO, mas como basicamente não havia cenário, não durou muito”, detalha.

Do CS:GO, Misty passou pelo competitivo de Assault Fire e CrossFire, onde teve bons resultados, mas sua paixão era outra. “Tínhamos visibilidade mas não conseguia sentir a paixão que eu tinha pelo CS:GO, então resolvi voltar para o CS”, confessa.

A jogadora ainda revela que, na época, gostava de competir, mas “não colocava o jogo acima de absolutamente nada na minha vida, não me dedicava de verdade”. “As coisas mudaram quando eu competi pela primeira vez em uma lan, na Power Lounge Cup Femme 2017. Alí, a competição ganhou um significado completamente diferente pra mim, eu sabia que eu ia dar o meu melhor, que eu queria aquilo pra mim”, lembra.

“Acho que um grande momento pra mim, depois desse start, foi quando fomos invitadas pra jogar a ESL Greenk Tech Show. Subir naquele palco foi sensacional”, garante. “As pessoas não conheciam muito nosso time, que na época era a Number Six, e acabamos vencendo times que eram mais cotados e conquistamos a segunda colocação”.

No equilíbrio entre ser mãe solteira e jogadora profissional, Misty conta com duas ajudas: a mãe e trabalhar de casa. Ela conta que trabalha das 8h às 17h e que usa a hora do almoço para cuidar do filho e arrumá-lo para ir à escola. “Minha mãe é quem leva o Nico e busca da escola. Às 17h, ele está aqui em casa e meu expediente já acabou. Passo tempo com ele e quando ele dorme é que nosso treino começa, geralmente às 20h e acaba por volta de meia noite”, explica.

Misty também comenta que a maternidade a ajuda muito em sua dedicação ao competitivo. “Quando eu joguei a primeira lan, na Power Lounge Cup Femme 2017, que foi quando eu realmente decidi que queria me dedicar ao competitivo, eu já tinha o Nico e sinceramente, a maternidade só me ajudou nisso”, revela. “Tive um parto complicado e isso me ajuda muito. Sei que sou forte o suficiente pra enfrentar muita coisa. Sempre penso nele e no quanto quero ser boa pra que ele sinta orgulho de mim”.

Quando perguntamos a opinião dela sobre a relação da maternidade e o acesso das mulheres ao competitivo, Misty é sincera e diz que não acha certo usar sua experiência pessoal como exemplo para outros casos. “Eu tenho muita sorte, minha mãe me ajuda muito, fica com Nico enquanto trabalho e quando tenho campeonatos importantes. Tenho um emprego ótimo e não preciso sair de casa pra fazer minhas tarefas. Eu sempre fui muito ativa, eu gosto que minha rotina seja intensa, me sinto mais viva, não sei explicar direito. Mas a gente não pode pensar que todas têm as mesmas oportunidades”, crava.

Citando dificuldades como trabalhar fora e enfrentar horas diárias de condução, Misty acredita ser impossível viver de CS e sustentar uma criança, arcar com despesas de casa etc. “Dos times brasileiros femininos, a organização que pagava o maior salário, por exemplo, não cobre metade do salário que eu recebo da empresa onde eu trabalho”, aponta. “Eu jamais poderia trocar um pelo outro. Então eu preciso estar sempre conciliando uma coisa com a outra”.

Misty também revela que há muito preconceito entre as próprias jogadoras, que por vezes não aceitam uma companheira de equipe que seja mãe. “Eu já ouvi de uma amiga que queria me chamar pro time dela, mas outra menina disse que não queria por que eu não teria tempo pra treinar. Nessa época eu tava batendo 70h/nas duas últimas semanas de CS, enquanto essa menina mal batia 30h. Já ouvi dizer que eu abdiquei de jogar campeonato pra cuidar do meu filho, sendo que eu simplesmente não quis jogar por que teria que viajar e na época eu não dava essa importância toda pro competitivo”, desabafa.

“Então, basicamente os times que eu joguei, depois que eu tive o Nico, eu que formei, eu chamei as meninas. E se perguntar pras meninas que jogaram em time comigo depois que eu tive o Nico, eu devo ser a mais nerdona, a que mais quer treinar fora dos horários de treino, a que menos ‘mia’ treino por qualquer motivo que seja”, completa.

Misty recorda emocionada de sua segunda viagem como jogadora, quando disputou a ESL Greenk e ficou uma semana em São Paulo para treinar antes da competição. “Foi o tempo que fiquei mais longe do Nico e foi muito difícil, mas acho importante pra ele e pra mim a gente ter nossos momentos um sem o outro”, conta. “Agora as coisas são bem mais fáceis. Ele está maior e pode me acompanhar nas viagens e eu não vejo a hora de jogar um presencial e carregar ele comigo. Acredito que essa nossa primeira vez será a minha experiência mais marcante”.

Já em relação ao futuro do filho, a jogadora afirma que sempre vai incentivar Nico a fazer o que ele gosta, desde que faça outras atividades secundárias e tenha um “Plano B”. “Acho que algumas etapas devem ser respeitadas e exige uma certa idade pra que ele possa realmente decidir ‘apenas’ jogar ou streamar. Acho que a gente precisa sempre se atualizar, se informar, estudar, isso faz bem pra nós, nos prepara pra muitas coisas e ajuda inclusive nos jogos. Exercitar a mente é essencial, mas é importante ter um plano de escape”, explica.

Ao fim da entrevista Misty também aproveitou a chegada do Dia das Mães para agradecer à própria mãe por todo o apoio durante toda a vida, e deixou um recado para todas as mães: “Meus parabéns a todas mamães gamers ou não, que são verdadeiras guerreiras, que enfrentam o mundo pra poder proteger seus filhos e pra prepará-los pra vida. Que vocês conquistem seus sonhos também, cuidem de vocês, busquem fazer as coisas que proporcionam momentos de felicidade, porque quando a gente se sente completa, a gente consegue compartilhar nossas melhores experiências com as pessoas que são as mais importantes na nossa vida, nossos filhos”.