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Como a Astralis se tornou uma das melhores equipes de Counter-Strike da história

Astralis venceu o Major de Katowice no começo de 2019, na Polônia. RFRSH Entertainment

“Mais um round! Mais um round!”

Um canto crescente de uma multidão elétrica em Atlanta ecoou apenas alguns segundos depois que a Astralis fez 15 a 14, contra a Virtus.pro, no terceiro mapa da decisão do Major da ELeague de 2017. Apenas um ponto separava a prorrogação de um título. No palco, os jogadores da Astralis demonstravam seriedade. Estavam a mais de 7 mil km de casa, mas a multidão barulhenta e entusiasmada do histórico Fox Theatre não se importava.

Nos 40 segundos seguintes, o veterano dupreeh acertou três balas, fechou o mapa e a série. Boom! Os canhões de confete explodiram em direção da torcida, que gritava sem parar. Uma das melhores séries da história do Counter-Strike: Global Offensive tinha acabado.

Pela primeira vez em sua história, a Astralis vencia um Major, se juntando a times como Fnatic, EnVyUs, LDLC, NiP, Luminosity, SK Gaming e a própria Virtus.pro.

Havia pouco mais de dois anos que a Astralis tinha entrado para a elite do CS:GO. Desde então, eles já fizeram história outra vez, se tornando apenas o segundo time a vencer três Majors.

Melhor time no ranking por um ano inteiro, a Astralis se tornou o padrão mais alto do Counter-Strike competitivo.

Mas ao contrário de outras organizações, grande parte da equipe permaneceu a mesma. Apenas um jogador mudou desde a primeira grande vitória em Atlanta e, nessa época, eles ganharam mais dois em Londres e em Katowice com o mesmo elenco. Em um jogo onde os elencos mudam a toda hora, cheios de jogadores que têm dificuldades de entrosamento, a Astralis mostrou que eles conseguem fazer dar certo.

Por trás disso está uma série de jogadores que acreditam na causa e pensam de forma diferente – concentrando-se em sua própria maturidade e desenvolvimento e mentalmente, dentro e fora do jogo, enquanto criam um ambiente de confiança e coesão. Desde sua primeira grande vitória, esses jogadores aprenderam a resolver conflitos, e a separar bem a função de cada um. Além disso, aprenderam o mais importante: pensar em si mesmos antes de se culparem uns aos outros.

Desde 2013, o time manteve seus três pilares: dupreeh, Xyp9x e dev1ce. Quando os três começaram a jogar juntos, dupreeh tinha 20 anos, e Xyp9x e dev1ce tinham 17. Não demorou muito para que pintassem nos maiores palcos do mundo.

Em torno desses três jovens, a equipe começou a procurar o que funcionava, mudando de jogador de vez em quando e buscando novos talentos dentro da Dinamarca que pudessem resolver seus problemas. Mas nunca substituiu um do núcleo principal. A equipe passou por vários jogadores, FeTiSh, karrigan e Kjaerbye.

Demorou cinco anos para que a fórmula correta fosse encontrada, mas quando eles acharam, contrataram gla1ve antes da primeira vitória de major. Magisk foi o último que chegou, no começo de 2018.

"Há muito tempo queremos criar uma equipe que seja capaz de competir por títulos, mas obviamente que nos sentíssemos confortáveis jogando junto", disse dupreeh. "Toda vez que tivemos pessoas diferentes na equipe, as coisas não saíram como queríamos, então é bom finalmente encontrar companheiros de equipe estáveis como Magisk e Gla1ve. Todos estão sendo muito legais, tanto dentro quanto fora do jogo.”

Desde abril de 2018, a Astralis é o time melhor ranqueado no mundo. Isso é raro no Counter-Strike. Alguns times, no primeiro sinal de fracasso, mudam o elenco, dispensam jogadores – e acabam os chamando de volta após poucos meses. Muitos times fazem isso. A Astralis não faz.

Parte disso é o que acontece em casa. Após times de League of Legends terem casas para seus jogadores morarem juntos, times de Counter-Strike resolveram fazer o mesmo. Por um tempo, a Astralis considou uma “gamer house”, mas decidiu não adotá-la.


"Ficamos curiosos sobre toda a situação, mas acabamos desistindo da coisa toda porque percebemos que já tínhamos 150 dias de viagem juntos e, se íamos passar os dias restantes em casa, provavelmente começaríamos a rasgar as cabeças um do outro," disse dupreeh. "Achamos que é realmente importante ter uma vida particular, para passar com sua namorada ou família, em vez de pensar se você pode trazer sua namorada para a casa. Percebemos como é importante ter uma vida particular, de certa forma."

As casas das equipes geralmente podem ser restritivas, com os managers do time morando em casa para garantir que os jogadores cumpram suas exigências – treinando por várias horas, participando de reuniões de equipe, revisão de vídeos dos jogos, e cumprindo quaisquer compromissos com a mídia ou patrocinadores. Mas os jogadores da Astralis construíram a confiança grande. Por um período de tempo, todos viviam em Copenhague, na Dinamarca. Agora, no entanto, eles estão espalhados por todo o país e é difícil que se encontrem pessoalmente quando não estão jogando.

De fato, muitos da equipe disseram acreditar que praticam menos que os outros. In game, no entanto, isso não aparece, com a equipe sendo a favorita em cada torneio que participa, e muitas vezes os vencendo. Grande parte dessa confiança veio de dupreeh, hoje com 26 anos, e Xyp9x e dev1ce, que têm 23 anos.

"A forma como eles se preparam para os jogos, quanto trabalho eles dedicam ao jogo é incrível", disse Gla1ve. "E, claro, o quanto eles evoluíram fora do jogo também, como pessoas; o quão realistas eles se tornaram – eles não estão tremendo mais. Sua força mental é muito melhor do que quando eu meu juntei à equipe, então eu realmente sinto a mudança. Todos ficaram maduros.”

Ganhar o próximo Major ainda é uma meta para a equipe, e essa próxima oportunidade virá em agosto e setembro em Berlim. O sentimento daquele primeiro, em Atlanta, provavelmente nunca será replicado. Ganhar o segundo em Londres em 2018 foi especial, porque foi o primeiro com Magisk. E para dupreeh, ganhar o terceiro em Katowice em março de 2019 significou muito, já que seu pai havia falecido semanas antes do torneio. Mas nada supera Atlanta, a equipe concordou.

Atlanta ainda foi a coisa mais louca que me aconteceu em toda a minha vida", disse Gla1ve." Nada é comparável a isso."

"Foi uma grande mistura de alívio e felicidade", disse dupreeh. "Antes disso, a equipe estava lidando com críticas de tremer na hora mais importante, e algumas das acusações provavelmente eram verdadeiras. Nós tivemos dificuldade em provar nosso talento quando realmente importava. Sentimos que esse foi um negócio único porque sabemos o quão competitiva é a cena, mas ganhar em Atlanta finalmente nos tornou um dos melhores times.”


Com o sucesso dentro do jogo, veio também o sucesso fora dele. Dupreeh disse que é difícil sair na Dinamarca sem ser reconhecido, seja fazendo compras ou participando de uma festa de aniversário de um amigo. Counter-Strike é uma parte importante da cultura há vários anos, e na Europa em geral há mais de uma década. Em 30 de abril, o primeiro-ministro dinamarquês Lars Løkke Rasmussen visitou o escritório de RFRSH, dono da Astralis, em Copenhague, e jogou com o técnico zonic.

"Alguém sempre reconhecerá o que estamos fazendo e sempre pedirá uma foto ou vai querer conversar sobre algo", disse dupreeh. "É algo que é realmente lisonjeiro, mas também algo que você tem que guardar e colocar em uma caixa às vezes, porque você tem que encontrar um equilíbrio estável entre a sua vida profissional e sua vida privada.”

"Muitos veem Counter-Strike como um jogo de computador. Eu vejo mais como uma carreira profissional, como se estivesse jogando futebol profissional. Acho que isso te faz muito bem na questão do atleta, onde você chega a um ponto onde coloca tudo na frente.”

Por enquanto, a Astralis está voando alto. Como qualquer time esportivo, no entanto, eles sabem que isso não vai durar para sempre e estão se preparando para o momento em que a situação mudar. O desafio para eles será manter o equilíbrio, aprender a se recuperar e mudar, em vez de seguir os passos de grandes campeões do passado e tomar decisões impulsivas que podem não ter volta.

"É muito importante, e nós conversamos sobre isso muitas vezes, que quando chegamos aos tempos difíceis e eventualmente vamos ter, temos que ser verdadeiros amigos e bons companheiros de equipe", disse dupreeh. "Isso se resume principalmente ao jogo. Nos dias de hoje, nós trocamos de jogador porque não conseguimos nos segurar quando as coisas ficaram difíceis para nós. Quando tivemos todas essas coisas sufocantes, começamos a pensar demais. Essa é a principal coisa em que pensamos, permanecendo fieis uns aos outros e ainda sendo um bom companheiro de equipe."