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Música e games: Kalera conta sua trajetória dos covers ao mundo de Rainbow Six

Kalera durante as finais da Pro League de Rainbow Six no Rio de Janeiro, em 2018. Gui Caielli

Nos dias de hoje, é impossível não pensar no nome ‘Kalera’ quando se fala no cenário de Rainbow Six nacional. A streamer, influenciadora e cantora se tornou um dos grandes ícones do jogo no Brasil, e aceitou bater um papo com o ESPN Esports Brasil para contar como tudo isso aconteceu.

Nascida no Rio de Janeiro, Camila Vieira teve contato com videogames desde cedo, ainda com quatro anos de idade, quando ganhou um Mega Drive dos pais. “Eu não tinha irmão na época, então era só eu, o videogame, e minha mãe que ficava jogando comigo”, recorda.

Entre os títulos que marcaram o início de sua vida gamer, a carioca cita Sonic e Flicky. Em seguida, já no computador, Kalera conheceu Bomberman, Need for Speed Underground 2 e os famosos Tibia e Ragnarök – este último, um “vício de 6 anos”. “Foi com eles que entrei no mundo online”, lembra.

Além dos videogames, Kalera revela que também se envolveu com música quando pequena. “Eu sempre cantei. Com 10, 11 anos eu fiz dois anos de canto e piano e cantava numa escolinha de igreja. Foi aí que eu descobri que levo jeito para a coisa”, afirma. “Minha família materna é de músicos, então acho que por isso eu tive uma facilidade. Com 13 anos eu comecei a tocar violão, com 15, ganhei uma guitarra e montei uma banda. Tive cinco bandas até mais ou menos 2014”.

E foi exatamente a música que a fez dar seu grande passo no mundo dos games.

DOS COVERS PARA AS STREAMS

Criado em 2011, o canal de Kalera no YouTube contava com covers de bandas como Paramore e 30 Seconds to Mars até outubro de 2013, quando foi ao ar a sua versão da música Get Jinxed, divulgada pela Riot Games no lançamento da campeã Jinx.

“Eu comecei a jogar LoL não sei em que ano, mas joguei uns seis, sete anos. Eu parei faz quase dois anos”, conta. “Eu sempre fui muito competitiva e me frustrava com certas situações, então eu resolvi parar de jogar. Mas o jogo é incrível e eu gostava muito dele. Sempre fui bem viciada. De vez em quando, em alguma ocasião específica, como em aniversário de live, eu trago o jogo de volta por um dia e a galera se amarra”.

Entretanto, no período em que era jogadora de LoL, Kalera foi atrás da “parte musical” do game e acabou se apaixonando por Get Jinxed. “Eu ouvi [a música] por uma semana inteira, sem parar, no ‘repeat’. Toda vez que eu podia ouvir música, eu a ouvia”, relembra. “E então alguém me falou: ‘por que você não grava um cover dessa música?’. Eu gravei o vídeo bem simples, com erros mesmo, e no primeiro dia eu ganhei 10 mil views, em uma semana ganhei 100 mil views. E hoje ele está com mais de meio milhão de views. E foi aí que comecei a postar vários covers de LoL”.

A vida de Kalera entre bandas, covers no YouTube, partidas de LoL e a faculdade de Veterinária ia muito bem, até o dia em que o pai sofreu um acidente doméstico que acabou se transformando em um caso grave após erro médico do hospital. Em quarentena na UTI por conta de uma infecção e passando por complicações no tratamento, o pai de Kalera ouvia que tinha poucas chances de sobrevivência, então chamou a filha para uma conversa séria.

“Eu lembro até hoje. Ele falou: ‘Ca, cuida da sua mãe e do seu irmão, porque eu não vou estar mais aqui. Arranja um trabalho, termina a faculdade, você precisa fazer alguma coisa agora’. Eu fiquei desesperada, porque aquilo mexeu muito comigo”, se emociona.

Apesar do susto e das poucas chances dadas, o pai de Kalera conseguiu se recuperar e saiu do hospital quatro meses após sua internação, em 24 de dezembro de 2014. “Foi o maior presente [de Natal] que a gente já ganhou, e desde então a gente passa o Natal juntos. Eu valorizo muito minha família”, afirma.

Mesmo com o pai de volta em casa, no entanto, a fonte de renda da família ainda estava abalada, e as palavras ditas por ele continuavam a martelar na cabeça da futura streamer.

“Minha mãe costurava, mas era mais do lar. Meu irmão é sete anos mais novo, então estava na escola. Eu era a única que podia trabalhar, mas estava fazendo faculdade integral de veterinária, então o que eu podia fazer naquele momento para ajudar meus pais, nem que fosse para fazer compra de mercado?”, conta.

Foi então que outro “anjo”, como ela chama, deu a ideia de se tornar uma streamer.

VIRANDO STREAMER

“Eu nem sabia o que era isso. Eu nunca tinha assistido uma stream, então comecei a estudar sobre”, lembra ela. “Comecei a assistir várias lives e abri a minha em fevereiro [de 2015]. Eu já tinha um público tanto das minhas antigas bandas quanto do YouTube, então quando eu comecei, não foi do zero. Eu já tinha alguém para me assistir, e eu tenho gente que me assiste até hoje. Faço streams há 4 anos como meu trabalho principal”.

Kalera conta que jogava League of Legends no início de suas transmissões, mas que sempre jogava outros títulos por “jogar de tudo”. “Comecei com LoL, daí fui ganhando jogos dos viewers. Life is Strange, Outlast 1 e 2... Eu gosto muito de jogos de terror. Tinha até um sistema na minha live que me dava susto quando alguém doava R$6,66”, recorda.

A streamer considera como diferenciais de sua live blocos como o “CantaKalera”, que acontece até hoje, sempre de domingo e no qual ela canta as músicas escolhidas por apoiadores, e seu cuidado em criar uma comunidade amorosa. “Nunca deixei ofensa rolar no chat, eu sempre bani, sempre deixei o ambiente o mais limpo possível, sabe? E sempre fui muito aberta e receptiva nas lives. Qualquer pessoa é bem vinda e eu faço de tudo para que se sintam em casa. Eu chamo de ‘Família Flanders’ e digo que todos sempre terão um lugar nela”, explica.

Assim como outros criadores de conteúdo e jogadores profissionais, os pais de Kalera também não entenderam muito bem o que era esse negócio de stream no início. “Para eles, eu estava só jogando. Às vezes eu ficava até madrugada e até atrapalhava fazendo barulho. Eles reclamavam, mas era algo justo porque eu estava na casa deles, né?”, diz. “Eles passaram a entender quando eu comecei a efetivamente ganhar dinheiro com isso”.

O CAMINHO PARA O RAINBOW SIX

Em nossa conversa, Kalera conta que sua chegada ao Rainbow Six também aconteceu pela dica “de um anjo”. Depois de diminuir o ritmo das lives em 2016 para concluir seu TCC, a carioca voltou com a rotina de transmissões no ano seguinte com Dead By Daylight, mas logo sentiu a necessidade de um jogo novo.

“Eu já tinha ganhado Rainbow Six há uns bons meses, daí assisti a live da Annemunition, uma streamer gringa, e ela joga muito R6 e joga muito bem. Fiquei empolgada com o jogo e com ela, e daí outro anjo, ou ‘emor’, como chamo meus seguidores, sugeriu jogar na live”, explica.

Com mais de 1.100 horas de Rainbow Six atualmente, Kalera lembra que estudou bastante o jogo “por ser complexo” e que muitas pessoas compraram o game para jogar com ela. “Fico até feliz de falar que muita gente começou a jogar Rainbow Six por minha causa”, confessa.

A habilidade que possuía em League of Legends conseguiu ser “convertida” para o Rainbow Six, e logo Kalera começou a ficar conhecida por mandar bem no jogo e ser bastante elogiada. A partir daí, jogar R6 já era quase um vício, segundo ela, e o próximo passo pensado por Kalera foi tentar fazer conteúdo sobre o jogo em seu canal no YouTube.

A carioca explica que foi com suas lives de Rainbow Six que conheceu o pessoal da Ubisoft Brasil. Por meio deles, Kalera participou de diversas lives da própria desenvolvedora, além de ter sido convidada a prestigiar torneios como as finais da Pro League no Rio de Janeiro em 2018 e o Six Invitational no Canadá no início de 2019.

E foi assim, também, que Kalera conseguiu ter seu trabalho reconhecido para receber uma das maiores honras no Rainbow Six: um “charm” (ou amuleto) seu dentro do jogo. A parceria para o lançamento do enfeite das armas do jogo foi fechada ainda em setembro, mas tudo ficou pronto somente em março deste ano.

“Foi muito difícil me segurar pra não sair contando pra todo mundo”, diz. “Eu fui a primeira brasileira a ter algum charm. Nenhum homem [do país] antes de mim teve, e isso é muito f***. Eu estou muito feliz por isso”.

“É muita loucura. Eu não esperava que eu fosse dar esses passos na minha carreira de streamer, sabe? Óbvio que eu sempre sonho alto, mas me ter dentro de um jogo é muito gratificante por todo o trampo que eu tive”, comenta Kalera. “Algumas pessoas até perguntam ‘quando começou a streamar?’, ‘como você conseguiu ser uma streamer de sucesso?’, mas eu estou há quatro anos aqui, eu não comecei agora. Eu tenho todo um tempo de esforço, sabe? As pessoas pensam que é fácil estar aqui, que é só abrir o PC e jogar, mas não é. O psicológico precisa ser muito trabalhado pra aguentar tanto o trabalho pesado (por horas e horas), e também pra receber críticas.”.

Entre as dificuldades de ser uma streamer e criadora de conteúdo, Kalera aponta para a sua voz rouca durante a entrevista. “Estou doente por ter feito 8 horas de live ontem”, explica. “Você faz live todos os dias, tem compromissos, reuniões, entrevistas... Eu não tenho tempo para quase nada. A gente [streamer] fica o tempo todo dentro de casa, tirando os que trabalham de gaming houses, se você for pro player de uma ORG grande e streamer, e muitos criadores até entram em depressão por isso, por ter muita pressão em cima, muitas responsabilidades. Até porque estamos lidando com pessoas”.

Mas as recompensas valem a pena. Além do charm, que segundo Kalera teve uma repercussão incrível, a streamer foi convidada pela Ubisoft a participar da E3 2019 como Star Player e deve participar de entrevistas e painéis durante o evento.

PEZINHO NO COMPETITIVO

Mas não é só do lado de fora do palco competitivo que Kalera atua. A streamer também tem um pezinho no cenário competitivo e faz parte da equipe feminina Medusa Players, fundada em 2018.

“A gente tenta participar do máximo de campeonatos que conseguimos. Participamos de showmatches, da qualificatória para a DreamHack no Rio de Janeiro (que foi cancelada), da liga amadora feminina...”, conta Kalera.

Por ser streamer, no entanto, Kalera não consegue acompanhar as companheiras de equipes em todos os treinos e campeonatos, mas afirma que dá seu melhor. “Eu tenho uma grande sintonia com as jogadoras, já sabemos o jeito de jogar uma da outra. Eu não consigo treinar todos os dias, mas elas treinam. Sempre que dá, eu apareço, e nos campeonatos eu tento jogar também”, diz.

AJUDANDO A MELHORAR O MUNDO

Quando você acompanha a Kalera nas redes sociais, uma coisa fica bem clara: ela quer fazer a diferença no mundo. De publicações que vão desde denúncias de casos de machismo (dentro e fora dos esports) a dicas de como dar os primeiros passos no vegetarianismo e veganismo, e também sobre vida sustentável, Kalera utiliza seu alcance para o bem.

“Eu assumi essa personalidade desde o começo. É desde o começo que eu falo sobre assuntos que eu acho que vão acrescentar na vida das pessoas, assuntos que às vezes as pessoas não têm acesso a certas informações”, afirma. “Tento conversar com as pessoas que me assistem e explicar sobre assuntos que eu tenho propriedade para falar sobre, e indico muitos criadores que falam melhor sobre os assuntos que eu não tenho propriedade, como feminismo negro, por exemplo”.

A carioca comenta que ajudar as pessoas é ponto principal de suas transmissões, atualmente. “Antes, eu comecei as lives porque eu precisava ajudar minha família com dinheiro. Hoje em dia, além de ainda ajudar minha família, o que mais me dá força é a minha comunidade, é conseguir ajudar as pessoas”.

“O tanto de mensagem que eu recebo falando ‘você clareou minha cabeça sobre esse assunto, obrigada por me alertar’ ou ‘nossa, eu não sabia que isso era uma ofensa’, ou ainda 'você deixou meu dia mais feliz, estava precisando disso’, é muito recompensador”, garante.

TRABALHANDO NO FUTURO

Mas quais são os planos para a Kalera do futuro? Segundo a streamer, “muitos”.

Atualmente, Kalera está fazendo curso de teatro para virar atriz, porque também quer trabalhar com dublagem. Ela revela, inclusive, que já participou da dublagem de um jogo indie que deve ser lançado ainda este ano, “mas o título ainda é confidencial”.

O sonho principal da carioca, no entanto, sempre foi a música. “Meu sonho A é música, é fazer show pelo mundo inteiro”, conta. Para isso, está trabalhando em seu primeiro EP solo, que terá apenas músicas autorais e ser “diferente do que as pessoas esperam”.

“Estou muito ansiosa e animada com o EP. É meu sonho e estou me dando 100%. Não importa o quanto demore, eu quero fazer de coração”, vibra.

Em relação a ser streamer, Kalera diz que “fico todo dia muito grata por poder ajudar as pessoas, os bichinhos, o meio ambiente. Fico muito feliz de estar ajudando o planeta de alguma forma”. Porém, os planos também são expandir. “Quero ser uma das maiores streamers do Brasil e, quem sabe, mais para frente ir para fora, também. E em breve também estou abrindo minha lojinha”.

Apaixonada por desenho desde pequena, a streamer diz que comprou recentemente uma mesa digitalizadora para se aprofundar no mundo das artes digitais e conseguir ficar ainda mais perto do público com seu trabalho. “Nada melhor eu mostrar o que sou pela minha arte. Quero ser uma referência boa pras pessoas. Quero que me conheçam como eu sou”, afirma.

É muita coisa para uma streamer só, mas Kalera sabe disso. “Eu sei bem o que eu quero, e sempre quero fazer de tudo, e tudo ao mesmo tempo. Não tenho foco em uma coisa só, e isso bom e ruim ao mesmo tempo, porque às vezes eu não me dou 100% para tudo, mas também sempre estou aberta para as coisas”, pondera. “Mesmo assim, prometo muitas novidades em breve”.

Enquanto as novidades não chegam, Kalera agradeceu o carinho de seus emores e aproveitou para passar o recado que sempre busca dar a todos: “Ache sua essência e faça o que você quer com esforço e de coração, pois não importa o quanto tempo demore, você vai conseguir o que você quer. Acredite em seu sonho, não importa o quão grande ele seja, e não ouça as pessoas que querem te deixar pra baixo. Você é muito melhor do que as pessoas podem falar”.