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Opinião: O presente de grego chamado DreamHack Rio

Sem cadeira gamer, jogador da Furia precisou usar duas de plástico para ficar na altura adequada Victor Hugo Porto / Mais Esports

No futebol, todos aqueles que amam o esporte da bola redonda sonham em, um dia, poder prestigiar uma edição de Copa do Mundo. O mesmo acontece com os fanáticos pelo futebol americano que dão tudo de si para estarem presentes num Super Bowl, assim como os adoradores das modalidades tradicionais que querem porque querem vivenciar o clima das Olimpíadas. É nesta magnitude que a DreamHack se encaixa nos esportes eletrônicos e, quando uma edição da maior lan party do mundo foi anunciada para o Brasil, a revelação foi mais do que comemorada pois, simplesmente, colocava o País na vitrine dos esports.

O anúncio da DreamHack Rio não poderia ter sido feito da melhor forma. A começar pelo suspense gostoso causado por uma foto de um dos responsáveis pelo evento visitando as trigêmeas Arenas Cariocas, localizadas dentro do Parque Olímpico do Rio de Janeiro. Tal fato fez com que todos os jornalistas e sites que cobrem o esport corressem atrás de saber se a maior lan party do mundo realmente viria ou não. O tal rumor, para a alegria dos brasileiros, se tornou realidade pouquíssimo tempo depois, quando o tal executivo, num fórum realizado na Cidade Maravilhosa, revelou que, sim, a DreamHack estava vindo para o Brasil.

A comunidade nacional comemorou de forma jamais vista, começando a sonhar e discutir sobre quais atrações seriam trazidas, já que DreamHack não é só conhecida mundialmente pelos torneios que realiza, mas também pela área que destina aos aficionados pela cultura geek. Sucesso este que aumentou depois de 2015, quando o evento foi adquirido pela Modern Times Group, uma importante companhia sueca de entretenimento que também controla a ESL, outra grande organizadora de competições de esports e responsável pela icônica Intel Extreme Masters.

Mas se enganou por completo aquele que achou que iria até o Parque Olímpico para vivenciar todas as emoções descritas por milhares de pessoas que já tiveram a oportunidade de prestigiar uma DreamHack. O sonho de muitos acabou se tornando um verdadeiro pesadelo, e aquele que chegou ao Brasil com a expectativa de ser o principal evento de esport do ano deixou o País devendo.

Meu ceticismo quanto ao sucesso da DreamHack no Rio de Janeiro começou já na coletiva de imprensa, em dezembro. Apesar da boa impressão causada, com a “reunião” com os jornalistas sendo feita num dos mais luxuosos hotéis da cidade, vimos uma bancada recheada de rostos jamais vistos nos esports, mas que estão acostumadas a ludibriar a população no geral com os mais vistosos discursos políticos e promessas.

Para não cometer o erro de julgar o livro pela capa, escutei atentamente todos os discursos promovidos, feitos desde pessoas ligadas à antiga gestão estadual, a atual do município e os responsáveis pela DreamHack. Com a retórica afiada, os figurões encheram os jornalistas de promessas: falaram de Lei de Incentivo ao Esporte, sobre a presença de 100 mil pessoas, atrações que iriam ocupar todo o complexo e muito mais. Ludibriação esta que continuou com os anúncios de torneios de Rainbow Six - bastante elogiado pela chance que daria ao cenário feminino -, e PlayerUnknown's Battlegrounds (PUBG), que iria contar com alguns dos principais influenciadores do jogo.

Mas a DreamHack foi um verdadeiro presente de grego, e a pergunta valendo R$ 1 milhão é: Por que no Brasil o evento não aconteceu no nível que é apresentado lá fora? A resposta, talvez, seja mais simples do que muitos imaginam: a responsabilidade de promover o evento foi colocada nas mãos de pessoas que mais falam do que fazem - uma triste realidade mais do que conhecida em termos de Brasil.

É difícil digerir a incapacidade dos responsáveis em não conseguir captar recursos carregando uma marca do tamanho da DreamHack. Para se ter uma ideia, a edição carioca sequer conseguiu parceiro que disponibilizasse cadeiras gamers para os jogadores. Em certo momento, como mostra a foto abaixo, os competidores se sentaram em cadeiras de plástico.

Cadeiras estas que também foram disponibilizadas para um público que pagou entre R$ 60 e R$ 120 reais, pelos ingressos mais simples, a fim de assistir jogos que estavam previstos para começar às 10h (de Brasília) e terminar às 22h. Em suma, o mínimo de confortabilidade não foi proporcionada ao público que, por amor ao esporte eletrônico e aos times brasileiros lá presentes, deram tudo de si para ficar do início ao fim nos três dias de competição.

A justificativa de que vivemos num País que não passa por boa situação financeira não pode ser utilizada no caso da DreamHack pelo simples fato de que trata-se de uma marca global que já é mais do que conhecida e acostumada a atrair investidores endêmicos e aqueles que não são - o que mostro abaixo.

Antes de vir ao Brasil, a DreamHack fez uma parada em Leipzig, na Alemanha, em fevereiro. E, com muita tristeza, venho dizer que o fatídico 7 a 1 também é uma realidade nos esports. A edição alemã contou com dois grandes patrocinadores, enquanto a brasileira, um único. No quesito apoiadores, o evento saxão deu goleada, contando inclusive com a gigante Samsung. Já, por aqui, uma lista pequena que perdeu ainda mais força com a saída de uma das marcas, que alegou que "não obtivemos retorno ou garantias contratuais para estamos presente".

Aí eu me pergunto e pergunto a todos: Como na Alemanha, num evento similar, os responsáveis pela DreamHack Leipzig dão garantias para uma companhia do tamanho da Samsung apoiar o evento, e aqui no Brasil isso não acontece? Será que é tão difícil assim? Será que a gigante coreana, que patrocina times brasileiros e outros eventos aqui já realizados, não gostaria de ter o nome exposto na DreamHack Rio?

Mas as disparidades não param por aí. Olhando a lista de torneios da DreamHack Leipzig, podemos ver um circuito de Rocket League próprio da DreamHack, além de competições voltadas para Hearthstone, League of Legends (2), Super Smash Bros. e CS:GO realizadas por terceiros. Enquanto isso, a tríade de FPS prevista para a DreamHack Rio acabou se desfazendo.

Entendo que muitos desses torneios listados para acontecer no evento alemão foram organizados por empresas que quiseram ter o festival como casa. Mas será que a edição brasileira não tinha capacidade de atrair coisas do tipo? Pelo contrário, os responsáveis pela DreamHack Rio foram mais do que eficientes em afastar tudo e todos do evento.

“Ah, mas as tais arenas seriam capazes de alocar tantos torneios assim?”. Capacidade em receber grandes eventos é o que não falta para o Parque Olímpico e as arenas lá construídas - lembrando que a promessa era ocupar as três Arenas Carioca e o Velódromo.

Vale lembrar que os responsáveis pela edição carioca tiveram mais do que tempo hábil para elaborar uma agenda recheada de competições e atrações, tendo em vista que a realização da DreamHack Rio foi anunciada há um ano.

Outra pergunta que paira no ar: Esse período de tempo que separou o anúncio do evento em si não foi suficiente para que os responsáveis pela DreamHack Rio negociassem com desenvolvedoras ou empresas interessadas em organizar eventos dentro do festival? Será que Riot Games, Ubisoft, Blizzard - companhias que já estiveram presentes em DreamHacks -, não aceitariam participar da edição carioca caso um projeto sólido fosse apresentado?

Como um amante do esporte eletrônico e um profissional do mercado desde 2006, numa época que presenciei nomes como Apoka, Aneurex, gAuLeS, b1m fazendo muito com tão pouco, me sinto envergonhado pelo o que foi a DreamHack Rio e revoltado com o fato de terem dado essa oportunidade a pessoas que mais falam do que fazem. A esse segundo grupo, deixo um aviso: o esport não tem pena daqueles que entram apenas para farmar dinheiro e nada fazem.