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Só bateu na trave: Takeshi, o bicampeão latino que nunca venceu um CBLoL

Takeshi, o jogador que conquistou a América mas nunca venceu um CBLoL Riot Games

Não é só conquistando títulos que um jogador consegue cravar o próprio nome na história de uma modalidade esportiva. É claro que levantar taças facilita, mas um atleta também consegue se tornar uma lembrança para gerações futuras por tudo o que fez e por tudo o que representou para um cenário. E é por isso e tantas outras coisas que Takeshi já se tornou um imortal no League of Legends.

Antes de se aventurar em Summoner’s Rift, o atual jogador da Team oNe era conhecido apenas como Murilo Alves. Mas a partir do momento que começou a brilhar no MOBA desenvolvido pela Riot Games, o profissional começou a ser reconhecido de várias formas: desde o próprio nick, até ser o sujo, pela maestria em realizar emboscadas, e eterno vice, por conta das quantidades que vezes que terminou na segunda colocação da principal competição do País - cinco no total.

Nascido em 1993, Takeshi faz parte da leva de jogadores que começou a competir quando o Brasil ainda não possuía o próprio servidor. Mas antes de se tornar o que se tornou no League of Legends, Murilo passou longos seis anos se divertindo no Ragnarok, um MMORPG que fez parte da infância de muitos brasileiros.

AWAKE: O INÍCIO DE TUDO

“Eu jogava Ragnarok Online e uma curiosidade é que jogava com o Gstv, o LEP e o Danagorn. Esses três continuam no cenário de LoL desde então. Comecei a jogar praticamente com eles. Jogamos Ragnarok por seis anos, sendo que o LEP, uma vez me relembrou, que ensinei matemática para ele. Éramos bem meninos mesmo”, relembra Takeshi ao ESPN Esports Brasil.

A mudança de modalidade, de acordo com o meio, aconteceu porque “estávamos jogando Ragnarok há muito tempo e cansamos” e que conheceram o League of Legends por meio de um amigo: “Não tinha servidor brasileiro ainda. Jogamos no norte-americano e começamos sem ambição, praticamente para ganhar uns Riot Points para comprar skins”.

Takeshi conta que conheceu a "primeira geração" do cenário nacional competindo em campeonatos "que não valiam nada", em especial os organizados pela mais do que conhecida LegendsBR: "Foi lá que conhecemos toda essa galera que o pessoal ainda escuta falar até hoje. Foi a partir desses campeonatos valendo RP que fomos conhecendo a galera e montando times".

O meio começou a competir de forma mais séria atuando pela Awake, que de acordo com Takeshi, "era o nome da nossa guild no Ragnarok. Começamos usando esse nome porque era o que a gente usava". Na formação estavam outros importantes nomes do cenário, como o atual topo da Red Canids, LEP, um dos comentaristas do CBLoL, Gstv1, e o suporte Piru, o único do quinteto que não está mais na modalidade.

Foi junto à Awake que Takeshi obteve uma das primeiras conquistas: a classificação para a final presencial do IEM São Paulo, em 2012, a qual acabou não disputando porque a mãe não o deixou viajar para São Paulo na época.

"Não pude ir porque eu não tinha dinheiro. Eu recém tinha feito 18 anos e minha mãe não deixou eu ir. Ela não pagou minha viagem. Não tinha cenário para que eu pudesse explicar para ela sobre o que eu estava fazendo e, com isso, ela não tinha noção do que era", explica o meio.

O PRIMÓRDIO DO COMPETITIVO

Foi na própria IEM São Paulo, conforme conta Takeshi, que os brasileiros começaram a conhecer o que era o League of Legends competitivamente falando. Naquela época, de acordo com o meio, "as pessoas jogavam muito pela vontade de ganhar uma das outras" e o cenário nacional era composto, basicamente, por "umas 20 pessoas" que se encontravam nos campeonatos que, praticamente, eram disputados todos pela internet.

"Nosso objetivo na época era ganhar dos outros. Não tinha dinheiro embutido na época. Começou a dar visibilidade de grana somente na BGS, em 2012, o ano que inaugurou o servidor brasileiro", conta.

O Golden Boy relembra ainda de times e campeonatos que fizeram sucesso naquele tempo. Tinha o "exP Games, que era o time do MiT e, posteriormente, virou a paiN com o Kami; tinha a equipe do yeTz, Leko; a minha e o grupo do Noobs da Net, no qual o brTT começou a carreira, jogou aquela IEM e foi campeão".

Um torneio de exibição que marcou o lançamento do servidor dedicado aos brasileiros, em 2012, foi o primeiro presencial a ser disputado no Brasil. E Takeshi lembra como se fosse ontem, falando sobre o título conquistado pela extinta vTi e por ter disputado pela Insight Esports - a primeira organização por qual atuou.

A ERA PRÉ-CNB

Antes de vestir a camisa azul e branca do CNB e-Sports Club, time pelo qual Takeshi mostrou a credencial para todo o cenário nacional, o meio passou por outras duas equipes após a Awake: Insight e Nex Impetus.

Takeshi conta que a Insight era um clube mais focado no Dota, mas que começou a contratar elencos de outros modalidade. O meio diz não se lembrar com quem a organização entrou em contato do time, mas revela que a direção "prometeu" arcar com todas as despesas caso a equipe conseguisse se classificar para o primeiro Campeonato Brasileiro de League of Legends.

Em troca, afirma Takeshi, o clube ficaria com a premiação. "Naquela época eles meio que iam usar a premiação para se pagar. Eram tempos que eu não fazia ideia do que era contrato Era literalmente 'vamos para São Paulo para ganharmos desses caras e, se ganharmos, vamos ganhar uma bolota'. Era questão de ganhar dos outros, mas nessa época, 2012, tinha mais times, mais pessoas que se interessavam pelo competitivo".

Passado a Insight e a quarta colocação no primeiro CBLoL, Takeshi ingressou na Nex Impetus, mas numa formação com muitas alterações.

"Depois desse CBLoL, rolou o desmantelar da vTi, com Manajj e Alocs saindo da Ignis; o Mylon indo para a Nox; o Gstv e o Piru parando de jogar, ficando assim eu o Danagorn, o LEP, Mana e o Alocs. Só que nessas disputas de Go4LoL que um cara não podia jogar e a gente chamava um amigo, acabamos chamando o Leko e ganhamos duas com ele. O Lep já tava dando umas trolladas e a gente 'deu certo com o Lekão, vamos continuar com ele", revela o meio.

A passagem da equipe comandada por Takeshi pela Nex Impetus foi meteórica e relâmpago ao mesmo tempo. As boas apresentações do time nos diversos torneios online disputados naquela época chamaram a atenção do CNB e-Sports Club, que contratou o quinteto após três meses de neX.i.

"Na Nex Impetus a gente ficou uns três meses, que a gente ganhou todos os campeonatos e aí o CNB fez uma proposta: 'a gente vai pagar pra vocês um salário e vocês vão vir pra cá, vamos pagar um bootcamp pra quando vocês forem jogar o CBLoL'. Isso era final de 2012 e começo de 2013, quando a gente tava começando a entender o que era competitivo", relembra Takeshi.

A ERA CNB

Takeshi e companhia tornaram-se Blumers em abril de 2013 e nesse mesmo mês já mostraram a que veio terminando a AGE Campinas daquele ano na segunda colocação, competição está que serviu de seletiva para o CBLoL daquela temporada. Mas os bons resultados não pararam por aí. A equipe venceu ainda a edição de abril do Go4LoL, conquistaram o ESL Brasil Open e terminaram em segundo na extinta BGL Arena.

Mas tratava-se de uma época em que os centro de treinamentos, mais conhecidos como gaming houses, ainda não eram realidade para os times como acontece atualmente. O CNB, por exemplo, tinha um War Room, um local em que as equipes da organização iam numa determinada época do ano para realizar treinos visando uma competição em específico.

“Ali já éramos, realmente, contratados. Tínhamos salários, estrutura, uma fanpage e uma organização por trás. Só que a gente não se dedicava 100% ao League. Fazíamos faculdade na época. Acabava que nossos horários de treinos ficava pela manhã e após voltarmos da universidade", relembra Takeshi.

Ainda de acordo com o meio, naquele período, "a gente não tinha uma perspectiva de que chegaríamos num lugar que daria um sustento para gente" e "por isso fazíamos uma faculdade, sendo que no nosso tempo livre a gente jogava, a gente treinava. Era numa época que eu não tinha nada e o cenário não era nem 5% do que é atualmente".

Quanto ao War Room, Takeshi revela que o local onde o time realizava os bootcamps antes dos grandes torneios ficava localizado numa sala da “casa dos pais dos donos da CNB. Eles pegaram uma sala e montaram os computadores”, enquanto “a gente ficava num hotel pela zona sul e íamos para lá para jogar, passávamos o dia todo”.

Foi vestindo a camisa da CNB que Takeshi mostrou todo o potencial e tornou-se referência na rota do meio. Apesar das inúmeras apresentações de gala e dos títulos conquistados, entre eles o Desafio Internacional, o primeiro disputado entre Brasil e América Latina, tanto o meio, quanto a equipe são mais lembrados pelos dois vice-campeonatos nacionais seguidos: 2013 no CBLoL e 2014 na Final Regional.

O ETERNO VICE

Mas essas não foram as únicas vezes que Takeshi bateu na trave em torneios nacionais organizados pela Riot Games. Nos anos seguintes o meio amargaria o vice-campeonato do CBLoL outras três vezes - 2015, 2016 e 2017 -, todas vestindo a camisa da Vivo Keyd e todas referentes a primeira etapa.

Categórico, Takeshi afirma não se incomodar com tal título. O meio conta que “as pessoas na solo queue me mandam ‘vai lá, vice. por isso não ganha nada’” e afirma que “você só pode falar isso pra mim se já foi campeão do CBLoL alguma vez na sua vida”.

“Um cara que nunca jogou [competitivamente], que está lá na solo queue; um cara que tá lá no ‘Tier 3’ e fala isso pra mim, não é ofensa. Pra mim não é nada. Uma pessoa me chamar de vice não muda nada, não me prejudica. Se você quiser usar isso como ofensa, primeiro vença um CBLoL”, avisa.

Takeshi ainda fala que há um “caso curioso”, que é o fato de ter vencido duas competições internacionais sem ter ganho um torneio nacional. O que não é mentira. Pelo CNB o meio foi campeão do antigo Desafio Internacional, em 2013, e atuando pela Keyd ajudou o Brasil a faturar o Rift Rivals de 217.

O meio revela ainda que “todas essas finais me ensinaram coisas diferentes: em 2013 eu não estava preparado emocionalmente e fui muito punido por erros individuais; 2014 eu acho que estava numa fase espetacular mas o time não estava tão bem assim; 2015 foi uma questão de ‘tilt’, mas não meu, e em 2016, pra mim, fiz tudo ou 99% do que eu poderia ter feito para levar a Keyd para a final”.

PARAR? COMPETIR É BOM DEMAIS

Mas o pensamento de derrotado nunca passou pela cabeça de Takeshi apesar dos cinco vices. O jogador afirma que “ter chego a cinco finais com cinco formações diferentes já me mostra que sou um fator comum, que fiz parte de times que sempre estavam disputando por algo”.

“Tive uma certa segurança em mim mesmo, de que ‘cara, você não conseguiu levar a taça’ e isso é algo que eu quero muito, mas por um lado você tá sempre fazendo parte de equipes e está chegando lá. Você está conseguindo ter um desempenho a nível de finalista do campeonato da sua região. É meio daquela questão do copo meio cheio e meio vazio. É uma maturidade que me fez levar as coisas de forma mais positiva”, reflete.

Ao ESPN Esports Brasil, o meio revela que “em algumas vezes já pensei em parar, como em 2016, por exemplo, quando a gente perdeu aquela final para a INTZ”. Takeshi explica que esse pensamento veio porque “tinha sido uma etapa que eu tinha feito tudo o que eu poderia fazer não só por mim, mas pelos os outros”.

Takeshi relembra: “Peguei uma formação que era Robo, Turtle, Baiano e o esA, que naquela época o esA não era o que é atualmente. Peguei tudo aquilo que eu conhecia do Mylon e ensinei para o Robo; o que conhecia do Revolta, passei para o Turtle; o que conhecia do Loop, mostrei para o Baiano e o que conhecia do Emperor, do Manajj e do brTT, repassei para o esA. Não só isso. Eu tinha que ajudar o Jukaah a pensar em Draft”.

Período este, como aponta o meio, “muito desgastante ao ponto de eu, por pouco, não ter pendurado o teclado e o mouse” porque “senti: ‘dei tudo de mim, não só para mim mas para todos e mesmo assim o resultado não veio’. Era uma maturidade que na época eu não tinha, mas fui adquirir depois, de ‘você ter pego três jogadores do zero e ter levados a final’. Então, saí dessa bad vibe e olhei pelo outro lado da moeda”.

“Já pensei, sim, em dar uma afastada, dar uma retirada. Mas competir é bom demais”