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Nem mesmo tendinite de Absolut abala confiança de Kakavel: "É o melhor atirador do Brasil, mesmo lesionado"

Mesmo lesionado, Absolut continua brilhando com a camisa dourada Riot Games

Em 2015 Hai Du Lam era tido como uma das estrelas do cenário competitivo de League of Legends. Na época ele atuava como meio na Cloud9 e era considerado como uma das mentes estratégicas da equipe. Porém, ao anunciar que estaria se retirando de Summoner’s Rift por sentir fortes dores em consequência de uma tendinite, a comunidade se assustou pela iminência de ver uma estrela se aposentar. Felizmente, tal “aposentadoria” foi por um curto período e ele permaneceu na ativa até 2018.

Anos se passaram e a lesão por esforço repetitivo ainda assombra os esports. Tockers e Element são jogadores brasileiro acometidos por grave inflamação nos tendões.

Absolut, atirador da Team oNe, é mais um que está sofrendo desse mal e a condição do jogador é sabida desde que estreou no cenário competitivo, porém, nos últimos meses o quadro evoluiu. As fortes dores nos braços foram o motivo para que o jogador não atuasse em todas as partidas da Team oNe. Atualmente o jogador passa por um tratamento para que a lesão não chegue ser tão dramática como foi com o meio da Cloud9.

“Na época que ele esteve com a gente, quando ele foi campeão, Absolut começou a sentir alguns sintomas dessa lesão. Ele vinha da Genesis já sentindo algumas dores. Ele já fazia fisioterapia e tudo pra tentar manter as coisas em ordem. Mas ele já sentia dores. Inclusive ele jogou o campeonato quase inteiro com dores”, conta o chefe dos Golden Boys, Alexandre Peres, mais conhecido como Kakavel, ao ESPN Esports Brasil.

Nesta noite (1º), Absolut vai ter a oportunidade de estar junto com time para a semifinal da primeira etapa deste ano do Circuito Desafiante, contra a Red Canids, e a LER não será um impeditivo, assim como também não foi quando atuou contra o rebaixamento da INTZ em 2018, quando a equipe se firmou no CBLoL e impediu a volta da paiN Gaming à elite do League of Legends nacional. “Ele foi a peça fundamental”, enfatiza Alexandre.

“Quando ele foi para a INTZ [na primeira etapa de 2018], nós sentimos que isso estava afetando o desempenho dele, até que lá ele ficou afastado em alguns períodos devido a essa lesão”, relembra Kakavel.

A situação de Absolut é séria e o dono da T1 diz que procurou os melhores especialistas do assunto para tratar da lesão. De acordo com dr. João Nakamoto, médico de Absolut, “A lesão do Absolut não é grave”, no entanto requer atenção redobrada. “A maior dificuldade é o tempo que ele demorou para iniciar o tratamento”, explica o médico.

“O tratamento está sendo conduzido com um melhor planejamento dos treinos, reabilitação para controle de dor. Além de exercícios posturais, alongamentos e fortalecimentos para que ele aumente sua resistência e sua capacidade de manter o mesmo desempenho por todo o período que lhe é exigido”, explica Nakamoto.

A atenção pela saúde foi uma das exigências de Absolut para voltar para a Team oNe, conta Kakavel. “Quando fui negociar do retorno dele, ele me pediu uma estrutura onde a gente tivesse um fisioterapeuta e tudo para que o atendesse. Eu falei pra ele na época que não só iria cuidar dessa parte da fisioterapia, como também eu queria algo médico conclusivo a respeito dessa lesão”, relembra o diretor.

“Então logo que nós o contratamos, acho que foi notório, ele não jogou o começo da Superliga – no final ele jogou alguns jogos, já para a preparação desse split. Nós o levamos no médico, um dos mais bem cotados aqui de São Paulo, o doutor João Nakamoto, especialista em mão, braço e ombro”, conta Kakavel.

O diretor diz ainda que o diagnóstico de Absolut apontou falta de exercícios físicos propícios para atletas de esports. “O doutor Nakamoto chegou à conclusão de que o Absolut tinha uma carga de trabalho muito alta para uma preparação muscular muito baixa. Isso gerava um desconforto muscular e com isso acabava sobrecarregando tendões e nervos da parte motora dele”.

Kakavel conta que Absolut atualmente faz tratamento de reforço muscular com um profissional trainer, fisioterapia e reeducação postural global (RPG) - uma técnica de fisioterapia cujo objetivo é promover o equilíbrio dos músculos responsáveis pela postura.

O diretor da Team oNe diz ainda que o médico alertou que não apenas o atirador precisava seguir o tratamento, mas que também era necessária ser estendida aos outros membros da equipe como ação preventiva.

"Eu falo para meus atletas que eu acho que enquanto a gente não tá ganhando, a gente tá treinando pouco." Alexandre Peres, CEO da Team oNe

O médico reforça que é necessário que os clubes cuidem da preparação física de seus atletas. “Talvez a principal forma seja entender que o atleta de esportes eletrônicos deve ter uma preparação física similar a de outros esportes”.

“Toda atividade de alto desempenho pede uma preparação do corpo compatível com a demanda que ela exige. As equipes precisam não só trabalhar a parte específica do jogo, mas também o condicionamento do atleta para que ele se mantenha inúmeras horas na mesma posição e com competência de tempo de reação, atenção e resistência”, explica Nakamoto.

O tratamento de Absolut começou logo que foi contratado. Kakavel contou que a princípio era previsto que ele ficaria 6 meses de fora de Summoner’s Rift. Porém, conforme o tratamento foi desenrolando, o atirador foi voltando para o game.

Segundo Kakavel, o treinamento de Absolut foi sendo retomado aos poucos. “Na Superliga tiramos 100% da carga [de treinamentos] dele. Ficou mais ou menos dois meses sem nenhuma carga de trabalho. Voltamos ao médico e ele liberou 30% e iniciamos o treinamento mantendo o tratamento. [...] Colocamos ele em um bloco de scrim, mas ele continuava com time desenvolvendo comunicação, afinal, ele é um líder acima de tudo. A medida que o médico foi liberando, fomos aumentando a carga de trabalho dele. Hoje ele está com 50 a 70% - ele ainda não está liberado pra voltar 100%”, conta.

O diretor conta ainda que após a primeira etapa o atirador vai voltar a se concentrar totalmente na recuperação.

Mas esse volume de trabalho é realmente algo pesado demais? Pergunto para Kakavel o que ele pensa sobre o número de horas em treinos. “Eu falo para meus atletas que eu acho que enquanto a gente não tá ganhando, a gente tá treinando pouco. Eu acho que tinha que treinar mais”, afirma.

Ele também sabe que os próprios jogadores precisam encarar a vida de atleta de forma mais profissional e faz uma pequena analogia sobre o tema: “A gente lembra do Ayrton Senna como um dos pioneiros em preparação física para a ser piloto de Formula 1 e aquilo o fez despontar dos demais porque ele tinha um preparo físico acima dos demais. A gente vai falar do Pelé na época dele que era um cara que treinava muito mais e conseguia ter um desempenho muito maior. Nosso esporte está começando e nossos atletas precisam entender que são atletas e precisam preparar o corpo para aguentar a carga de trabalho como atletas. Acontece que a grande maioria dos atletas de esports, não se limitando ao LoL, não prepara o corpo”.

“Nossa equipe de Counter-Strike nos Estados Unidos, mudamos completamente a rotina nesse ano para que eles tivessem duas horas para academia. Lá, todos os atletas estão indo na academia todos os dias”. E os atletas do Brasil? Kakavel nem me deixou fazer a pergunta e já revelou que também quer levar essa rotina para o novo centro de treinamento, localizado em um Shopping de São Paulo.

CONFIANÇA INABALÁVEL

Aproveito o tempo com Alexandre para falar sobre a semifinal. Quando o assunto passa para o rendimento de Absolut em 2018, Kakavel rebateu as críticas categoricamente: “Como falar que ele não jogou [a etapa] bem, sendo que ele salvou a INTZ do rebaixamento? Eu não consigo ver dessa forma que ele não jogou bem. O que eu enxergo é que a parte técnica e tática dele não foi o que poderia ser por questão física e emocional.

“A primeira coisa que a gente fez quando ele voltou, foi trabalhar essa parte emocional junto à parte física. Por que não é só questão de estar lesionado, é questão de aceitar essa lesão situação e como trabalhar da maneira correta que essa lesão se corrija e mesmo com ela, manter um bom nível. E foi o que ele fez”, defende.

Em diversas passagens da entrevista, Kakavel demonstrou confiança em Absolut. “Na visão da nossa diretoria, e eu me incluo no meio, o Absolut é o melhor atirador do Brasil mesmo estando lesionado” disse ele em uma passagem. “Acho que ele tem tudo para brilhar nos próximos anos e já falei que eu acho que ele será o primeiro jogador brasileiro a jogar lá fora em alto nível”, disse em outra.

O Esmagador de Crânios, como Absolut também é conhecido, tentou “carregar” o time nos momentos cruciais. Claro que isso não funcionou e o diretor dourado conta como foi esse período.

"Na visão da nossa diretoria, e eu me incluo no meio, o Absolut é o melhor atirador do Brasil mesmo estando lesionado" Alexandre Peres, CEO da Team oNe

“No início do Circuito, quando a gente começou a jogar com o Steal e o Absolut ficou de fora, precisando voltar para jogar contra a Red e paiN, teve sim um impacto psicológico”, diz o diretor. “A gente viu que ele estava tentando resolver as coisas sozinho. Não é que ele não conseguiu por falta de destreza ou por falta de qualidade. Foi claramente porque ele estava de fora e queria mostrar serviço. Mostrou uma certa afobação. Mas durante a etapa a gente veio corrigindo e vemos todo mundo do time muitíssimo equilibrado”.

A Team oNe terminou a fase de pontos em quarto lugar, com 6 vitórias e 9 derrotas. A primeira vitória logo na estreia, contra a Havan Liberty, com Steal e 4LaN sendo os jogadores de destaque e com um jogo bem rápido e cadenciado. Entretanto, após essa vitória, a Team oNe como um todo mostrou um desempenho irregular. Apesar disso, está agora prestes a enfrentar a Red Canids, líder do campeonato – e muito consistente.

Obviamente que assim como todo dono de equipe, Kakavel diz que o objetivo do time é vencer e que confia em seus atletas. Ele reforçou esse ponto em todas as oportunidades que teve durante a entrevista.

O diretor da Team oNe discorre sobre as qualidades do time, reforça que a equipe tem possibilidade de usar tanto Brucer como Steal na rota inferior, de que a mentalidade de todos estão nesta partida de hoje. Ele diz ainda que o time tem uma qualidade ímpar de se adaptar, pois por conta de outro problema médico que aconteceu recentemente, desta vez com outros jogadores.

Devido uma ausência de Skybart a Team oNe testou “algumas alternativas que é bem provável que possamos usar agora na semifinal, que é modificar a posição dos jogadores”, conta Alexandre.

Estratégias loucas como essa não são novidades em League of Legends por isso não me aprofundo na questão. Por outro lado, com a confiança nítida do diretor, sou obrigando a perguntar: E se a T1 não vencer e não subir?

“Eu não gosto de falar muito de hipótese”, responde Kakavel. Eu estou muitíssimo confiante. Nós vamos para ganhar o jogo e não vamos para subir na relegation, vamos jogar para ser campeões do Circuitão. Mas entendo que se trata de um esporte. Se acaso a gente não vencer, o trabalho não para. Não são resultados negativos que impedem a gente de continuar trabalhando. Isso nunca nos impediu”.

"A gente enxerga que pode ser uma das maiores organizações da América Latina, se não a maior, nos próximos três, cinco anos se a gente continuar a fazer o trabalho que fazemos no dia a dia”.