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Opinião: Está na hora dos esports serem mais transparentes com seus fãs

Um dos problemas recorrentes dos esports é que a palavra “transparência” geralmente está apenas no discurso, porém não é praticada. Por diversas ocasiões vemos partidas sendo pausadas sem o motivo ser revelado para o espectador, um bug acontecer e ninguém entender o motivo ou até mesmo resultados sendo alterados sem a menor lógica. Isso acontece praticamente em todas as modalidades, do Counter-Strike, a League of Legends, passando por Clash Royale, FIFA e outros games.

A polêmica atual está girando em torno de uma jogada que aconteceu no último fim de semana, durante a partida entre Vivo Keyd e INTZ no CBLoL. A jogada discutida envolve a Ultimate de Ryze do tockers que não levou a Ashe de micaO para o base rush no final da partida. Entretanto, a jogada não saiu como o time esperava: micaO não acompanhou tockers e Jockster que tinham uma clara vantagem nessa corrida insana.

A Ashe de micaO ficou no mesmo lugar na rota do meio e foi abatida. tockers e Jockster não conseguiram derrubar o Nexus. Vivo Keyd perdeu a partida, a chance de se classificar para os playoffs e agora corre risco de disputar a série de promoção. Caso micaO estivesse presente, o resultado poderia ser completamente diferente.

O que causa muito desconforto para a comunidade é o fato de que até o presente momento não foi mostrada a imagem da jogada. A impressão que temos é que a Riot está escondendo alguma coisa ou não está sendo transparente para os fãs de seu esporte, do clube e de League of Legends.

Uma jogada muito similar já havia acontecido na mesma semana, na partida entre Echo Fox e Team Solo-Mid, na qual o suporte Hakuho da Fox não acompanhou o Ryze de Fenix. Porém esse caso não foi tão extremo quanto o da Vivo Keyd e foi tratado “apenas como um bug”.

Segundo a Riot, as jogadas aconteceram dessa forma por conta de como funciona a mecânica da Ultimate de Ryze: “caso o jogador estiver clicando para fora da área de ação, ele não será levado”.

A questão é que essa informação não consta em nenhum site oficial da Riot Games, nem na descrição da habilidade dentro do jogo. A descrição da habilidade no site brasileiro descreve apenas “Ryze abre um portal para um local no raio de até 1750/3000 de alcance. Após 2s, todos os aliados próximos ao portal são teleportados para este local. Se Ryze ficar impossibilitado de conjurar ou mover-se, o Portal de Reinos é cancelado”.

Pesquisamos em todas as notas de atualização nos quais o Ryze aparece e também não encontramos nenhuma menção a isso. O único local onde isso é demonstrado é em um site de comunidade sem ligação com a Riot Games, o LoL Wiki. Em nenhum outro lugar oficial no Brasil essa informação foi encontrada. De qualquer forma, a informação estava disponível EM ALGUM LUGAR e, mesmo que eu seja apenas um estudioso de League of Legends e sabia dessa informação – isso já aconteceu inúmeras vezes em minhas partidas – o que não deve ser discutido é que a resolução da Riot é final e irrevogável.

Podemos, entretanto, criticar os motivos pelos quais as páginas dos personagens não contêm todas as informações e nuances de suas habilidades ou porque a jogada não foi mostrada durante a transmissão – ou depois dela. Pedimos também para a Riot Games um posicionamento sobre o motivo pelo qual a jogada não foi apresentada até agora. Até o momento não obtivemos resposta.

A mesma companhia já havia demonstrado ser mais transparente em suas decisões e ações. Em setembro de 2016, durante as semifinais da LCS NA, a Riot Games deu um exemplo de transparência sobre como são tomadas as decisões nos bastidores do torneio. A partida entre Team Solo Mid e Counter Logic Games teve uma reviravolta interessante: Bjergsen, jogando de Cassiopeia, não conseguia ver as estrelas do Arurelion Sol controlado por Huhi. O bug só afetou Bjergsen – o modo espectador e os outros jogadores não estavam com o mesmo problema.

A Riot Games avaliou a jogada, confirmou o bug e reiniciou a partida. No dia seguinte disponibilizou um vídeo do ponto de vista do midlaner da TSM, em uma clara demonstração de transparência. O que era para ser algo para ser aplaudido e copiado em todas as regiões, acabou se tornando um caso isolado.

Reforço em dizer que esse tipo de postura não é exclusivo da Riot. Recentemente algo tão ruim quanto aconteceu: Em janeiro, durante o Major de FIFA de 2019, Pedro Resende, jogador da Team Özil M10, foi desclassificado por um bug. O lance aconteceu na última partida na fase de grupos, na qual Pedro estava empatado em 3 a 3, porém aconteceu uma queda repentina da partida, da mesma natureza de uma interrupção por problema no servidor. Quando o jogo voltou, o terceiro gol de Pedro não havia sido contabilizado.

Foi feito um pedido formal de revisão e análise do caso, porém o placar foi mantido e o brasileiro fora da disputa que é realizada em Bucareste, Romênia. Dessa vez o bug foi realmente o culpado por tirar o brasileiro da disputa e, mesmo com todas as provas disponíveis, a Electronic Arts não divulgou quais foram os motivos para manter o placar desfavorável para Pedro.

Até mesmo no Counter-Strike bugs acontecem e por vezes a Valve não se manifesta. Quem não se lembra do fatídico “bug do pulo” muito utilizado pela Big no PGL Major Cracóvia de 2017. Esse bug consistia em apertar a tecla para se agachar durante a animação do pulo e assim o personagem não aparecia no mini-mapa. O fato foi comentado diversas vezes em diversas oportunidades e a Valve não se pronunciou quanto ao caso – nem puniu a Big por usar o bug.

Em todos os casos citados acima é notório que todas as empresas que produzem jogos e campeonatos precisam ser mais transparentes, principalmente em tudo que é transportado para os esportes eletrônicos. No caso do micaO, a informação estava disponível, porém não no site oficial. No caso do Pedro Resende, foi a falta de transparência da EA em explicar porque não manteve o resultado antes de acontecer o bug e a Valve pelo simples fato não se comunicar com a comunidade de forma mais efetiva.

Nos esportes tradicionais a transparência é uma norma para deixar a audiência ciente de uma jogada controversa que está sendo discutida dentro de campo. No tênis vemos o replay da jogada com técnicas de arbitragem virtual, na NFL, os juízes têm acesso a câmeras especiais para se certificar a procedência de uma jogada e o VAR está sendo cada vez mais adotado no futebol para acabar com a “interpretação do juiz”.

Na grande maioria dos esports a audiência precisa confiar cegamente nas decisões dos organizadores dos torneios e campeonatos. São raros os jogos que permitem assistir a uma partida pelo ponto de vista do jogador ou que dão acesso direto aos replays.

Para o esport se tornar realmente um esporte, precisam ser mais claros – isso serve para todas as categorias. Os jogadores precisam ter acesso a todas informações, quem é prejudicado precisa ser retratado e os quem se aproveita de bugs precisa ser punido – e tudo isso precisa ser divulgado de forma clara e transparente.