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Para pesquisadora, inclusão e diversidade nos esportes "deve vir da base"

Dignitas conquistou o bicampeonato do Intel Challenge Team Dignitas

Nos últimos tempos a inclusão e diversidade no mundo dos esports tem sido um assunto que divide a comunidade. O caso da Vaevictis, por exemplo, não foi uma estratégia que ajudou a tirar da cabeça dos homens que as mulheres podem ser tão competitivas quanto eles.

Buscando tentar entender como a diversidade no esporte eletrônico pode ser um assunto, o ESPN Esports Brasil entrevistou Morgan Romine, pesquisadora, ex-jogadora profissional e fundadora da AnyKey, organização que busca inclusão de mulheres no cenário competitivo.

De acordo com Morgan, para que as mulheres e outras minorias sejam atraídas para o ambiente competitivo é necessário pensar em diversas camadas, sendo a principal delas a criação de modelos inspiradores. “Acredito que construir modelos é sempre a melhor forma de ajudar as pessoas encontrar seu espaço nesses grupos marginalizados”.

“Já existem pessoas tentando [aumentar a representatividade]. Algumas pessoas realmente lutam arduamente para obter reconhecimento em seus meios para transformá-los. Então acredito que precisamos dar apoio a essas pessoas marginalizadas, a esses modelos, ajudando a promovê-las para que haja visibilidade. É realmente importante mostrar o que existe do outro lado e ajudar todos os grupos marginalizados”, explica.

Outro fator importante é mostrar que o ambiente das transmissões é receptivo para esse novo público e, para isso, é necessário investir em moderação, principalmente nos ambientes online de campeonatos.

Não é difícil ver que muitas vezes os “trolls” infestam os chats dos torneios, criando um ambiente profícuo para discriminação. Esse tipo de “moderação inclusiva” foi testado no Intel Challenge, torneio feminino que acontece em paralelo ao Intel Extreme Masters de Katowice. Durante as partidas, diversos moderadores entraram em cena para literalmente acabar com a infestação de odiadores que circulam pela Internet, apagando comentários nocivos, machistas e racistas.

“Para que as as transmissões online funcionem [e atraiam novos públicos] é realmente importante ter para os bons moderadores que saibam o que suprimir”, conta Morgan. “Por exemplo, para o Intel Challenge, temos moderadores que estão em tempo integral na transmissão, assistindo o tempo todo. Eles são muito específicos sobre quais comentários eles precisam remover durante os torneios”.

“Em parte, porque você tem muito mais coisas que precisam lidar, como a conversa tóxica para com as mulheres, mas também porque você tem mais garotas jovens em casa assistindo essa transmissão e nós não queremos que elas vejam todos esses comentários negativos sobre ‘lugar de mulher é na cozinha’. Então removemos esses comentários e nós sabemos o porquê estamos fazendo”, conta.

Segundo ela, esse ambiente tóxico surgiu após um impasse na forma que organizadores e desenvolvedoras de jogos encararam as transmissões. “No passado histórico os organizadores de torneios não reprimiram a comunidade, porque eles tinham medo do que as desenvolvedoras de jogo poderiam fazer – afinal, são os desenvolvedores que são os ‘donos’ desse espaço – ao mesmo tempo em que os desenvolvedores passam a responsabilidade para os organizadores de campeonatos. Então, no fim das contas, centenas de pessoas encontram espaço nas transmissões online para fazer coisas terríveis, dizendo palavras racistas entre outras coisas”, explica Morgan.

Além disso, é necessário investir no treinamento dos moderadores de chat para que o ambiente seja mais atraente para o público. “Os moderadores normalmente não são rápidos o suficiente para julgar o que os organizadores querem ou não durante os chats. É necessário que exista pouca tolerância sobre o que pode ser dito ou não nesses espaços e ajudar a criar um ambiente melhor para essas pessoas marginalizadas”, pontua.

INVESTINDO NA BASE

Além de criar um ambiente melhor para as futuras jogadoras, a pesquisadora acredita que é necessário estimular a convivência entre os meninos e meninas. De certa forma isso é realmente algo novo, afinal, a convivência entre os sexos é desestimulada desde as aulas de educação física – meninos de um lado, meninas do outro.

Segundo Morgan, o programa de esport colegial está sendo uma boa experiencia para incluir mulheres nos ambientes dos espotes eletrônicos. “Estamos tentando algo nos Estados Unidos com o programa de esport colegial para tentar começar algo diferente dos programas esportivos e acabar com o tratamento de separação entre homens e mulheres porque é importante começar de algum lugar”.

Além disso, “forçar” a entrada de mulheres nos torneios principais pode ser uma ideia aterradora para as competidoras. “Eu acredito que é importante deixar que os torneios principais sejam autorregulados e não tentar forçar a aparição de qualquer gênero e manter a experiência competitiva. Com essa ideia, conseguiremos ter esses modelos de que tanto falamos no nível amador, onde não existem prêmios em dinheiro e a competição existe apenas pela diversão. Isso vai dar a chance para que os caras joguem com as garotas, criem amizades e joguem juntos”, conta.

Expliquei para Morgan o caso que aconteceu recentemente na Rússia e pedi a opinião dela sobre o caso. Morgan parou por um minuto para pensar e disse. “Deve ser muito difícil para essas mulheres”.

“Por quê?”, perguntei. “Basicamente isso coloca elas na linha de tiro. Não é orgânico e elas acabaram se tornando alvos”. O que, de fato aconteceu.

Conto também sobre o caso dos clubes de futebol na América Latina serem obrigados a manterem equipes femininas e ela também não se mostrou favorável à ideia. “Não acredito que essa seja uma grande estratégia, forçar os grandes times terem equipes femininas. Nós tivemos muitas conversas nos campus das faculdades aqui para tentar descobrir como dar suporte aos esportes e mostrar mais diversidade. Isso pode tornar a prática esportiva em uma experiência terrível”, conta

Segundo Morgan, essas tentativas de correr contra o tempo, sem dar uma base para o cenário feminino se desenvolver, é uma faca de dois gumes. “Existem outras formas de dar suporte ao cenário feminino e à diversidade e isso tem que vir da base”.

* O Jornalista viajou a convite da Intel