<
>

Overwatch em 2018: Uma primeira temporada de sucesso para a liga e evolução do cenário

London Spitfire celebra no palco após vencer a grande final da Overwatch League. Bryan Bedder/Getty Images para a Blizzard Entertainment

Overwatch está aí desde 2016, mas podemos considerar que este ano foi o primeiro no qual o jogo teve um competitivo de verdade. Enquanto anteriormente existiram campeonatos amadores e até duas edições da Copa do Mundo, 2018 foi a estreia da primeira temporada da Overwatch League (OWL), um projeto ambicioso da Blizzard e que deu muito certo.

Para Thauê Neves, narrador brasileiro de Overwatch, este ano foi o melhor para o competitivo do jogo na questão de crescimento. “A estreia da Liga junto ao lançamento das Contenders formatou o caminho para o profissional, e novas metas e sonhos foram criados com isso”, afirmou Neves ao ESPN Esports Brasil. “A Copa do Mundo também destacou os talentos das 20 seleções e foi uma grande festa. 2018 foi um ótimo ano de estreia, e um futuro promissor já é avistado.”

UM PROJETO AMBICIOSO

Enquanto muitas desenvolvedoras decidiram ter ligas abertas ou deixar torneios de seus jogos a cargo de empresas terceiras, a Blizzard chegou com uma ideia nova: criar uma liga franqueada e geolocalizada como a NFL e a NBA, vendendo as vagas por um valor inicial de US$ 20 milhões.

A ideia podia parecer loucura para muitos, mas atraiu a atenção e o investimento de grandes empresários dos esportes tradicionais, além de organizações que já eram do meio dos esportes eletrônicos.

Com 12 equipes iniciais, que tiveram que criar identidades próprias para participar, a liga teve uma pré-temporada no fim de 2017 e começou definitivamente em janeiro deste ano. O formato era fácil de entender: quatro etapas com fase eliminatória própria e uma premiação de US$ 125 mil cada. As etapas duravam cinco semanas, tinham disputas de quinta a domingo no formato todos contra todos e serviram para definir a fase eliminatória geral da liga.

Neves acredita que a aposta em seguir um formato mais “americano” e conhecido do público internacional funcionou. “A liga é estruturada como o esporte tradicional americano. Muitos jogos por temporada e muitas chances de assistir ao seus jogadores favoritos. Isso cria uma intimidade, um carinho e uma relação maior entre a equipe e o torcedor”, explica. Além disso, também ajudou no desenvolvimento das equipes durante toda a temporada.

Muitas começaram dominando no início, como a New York Excelsior, que venceu duas etapas e foi o time com mais vitórias na fase regular. No entanto, pela grande quantidade de jogos e a possibilidade de se ter diversos reservas, as equipes puderam testar novas composições de jogadores, ter mais estratégias e evoluir como um todo.

Mesmo a Shanghai Dragons, que foi a decepção da temporada ao terminar com 40 derrotas e nenhuma vitória, teve seus momentos de brilho durante partidas e perdeu por erros próprios e bestas. Além do histórico de derrotas recorde, a equipe que defende a cidade chinesa também fez história ao contratar a primeira – e, no momento, única – jogadora mulher da liga: Se-yeon "Geguri" Kim.

Todas as partidas da liga foram realizadas na Blizzard Arena, construída em Burbank, Califórnia, enquanto as finais tiveram como casa o Barclay’s Center, em Nova York. O público pôde acompanhar a liga presencialmente todos os dias, enquanto quem estava de casa assistia tudo pelo Twitch e teve a chance de adquirir um passe especial que dava direito a diferentes perspectivas e mais informações da partida, além de brindes dentro do jogo.

Tudo isso culminou em um grande sucesso. Segundo levantamento da Esports Charts, a primeira temporada da OWL foi a mais assistida entre todas as ligas de esporte eletrônico com base em dados de espectadores da Twitch e do YouTube (mas não incluindo o público chinês). Ao todo, foram 88 milhões de espectadores e 555 horas assistidas do torneio.

Apesar de favorita, a New York Excelsior não passou das semifinais na fase eliminatória geral. A grande campeã da liga foi a London Spitfire (Cloud9), que venceu a Philadelphia Fusion por 2 a 0 e faturou US$ 1 milhão.

NUTRINDO A BASE

2018 também foi o ano em que a Blizzard passou a investir na “base” de Overwatch com as competições regionais chamadas Contenders. A América do Sul ganhou uma própria, além de uma Open Division para as equipes terem chance de chegar ao topo por mérito.

Para Neves, ambos os torneios são essenciais para o competitivo de Overwatch. “A Contenders é a base disso [do competitivo]. É lá que um novo talento aparece, é lá que a torcida revela pro mundo seu apoio e pede para que seu representante chegue até a Liga. Na Contenders, cada sonho regional é carregado a cada rodada, mitos são criados (Honorato e seu copypasta, por exemplo), e o vínculo mais forte é feito”, afirma.

O narrador acredita que é “valioso” o fato de qualquer jogador pode chegar à Contenders, já que a Open Division não tem limite de ranking ou habilidade. “É realmente aberta pra todos e quem se dedicar mais, treinar mais e tiver mais talento tem total capacidade de chegar a Contenders”, disse.

“A única alteração em formato que eu faria, seria a criação de um Mundial de Equipes, um torneio entre os campeões de cada temporada da Contenders de todo o mundo”, sugeriu Neves. “Assim saberíamos qual é o melhor time da Contenders mundial. Isso daria mais visibilidade aos jogadores e facilitaria o acesso das equipes da Liga a eles. No fim da temporada anual, esse Mundial teria a edição especial com os campeões das etapas anteriores mais o time campeão da Liga. Acho que essa seria uma alteração justa e que adicionaria força ao cenário como um todo”.

Aqui na América do Sul, apesar de polêmicas que envolveram a participação de uma equipe mexicana e o fato dos jogos precisarem ser gravados para serem transmitidos depois, a Contenders cumpriu seu papel de fomentar o cenário – apesar de não parecer, já que as duas temporadas foram dominadas pela ex-escalação da Brasil Gaming House (hoje chamada based tryhards).

COPA DO MUNDO

Em sua terceira edição, a Copa do Mundo contou com equipes mais fortes e consolidadas, além de jogadores mais experientes – principalmente pela existência da Overwatch League e da Contenders. A Coreia do Sul ainda conquistou o tricampeonato, mas outros países puderam mostrar seus talentos e chamar a atenção do restante do mundo.

Um grande exemplo foi o próprio Brasil. Enquanto a Seleção Brasileira foi representada em sua maioria por influenciadores na primeira edição da Copa, em 2016, e não conseguiu uma única vitória, a equipe mostrou uma pequena melhora no ano seguinte, e uma maior ainda na deste ano.

Assim como em 2017, a Seleção Brasileira foi formada em sua maioria pelos ex-jogadores da Brasil Gaming House, que dominou todos os torneios nacionais e regionais desde sua criação. Este ano, os jovens tiveram a chance de provar como melhoraram apenas tendo a Contenders (e algumas partidas com ping alto no servidor norte-americano) como base.

Apesar de não conseguirem garantir o primeiro ou segundo lugar na fase de grupos para avançar na competição, pois perderam para os Estados Unidos e o Canadá, os jogadores saíram de cabeça erguida com o terceiro lugar após vencerem a Noruega em um jogo acirrado que foi para o quinto mapa.

Para Neves, o desempenho do Brasil na Copa do Mundo foi o momento mais marcante e importante para o cenário sul-americano do ano. “Nossos jogadores foram notados, foram elogiados e tivemos o Alemão [Renan Moretto] sendo contratado pela Boston Uprising, muito pelo desempenho na Copa”, lembrou. “Pessoalmente o momento mais legal foi a vitória em Junkertown contra os EUA. Eu estava narrando o jogo e aquele mapa vai ficar pra sempre guardado na memória. A seleção brasileira deu aula naquele mapa”.

O narrador confessa que esperava que mais jogadores brasileiros fossem chamados para alguma equipe da Overwatch League, que agora será disputada por 20 equipes. “Talvez eu tenha criado uma expectativa maior quanto ao jogadores da nossa Seleção serem contratados pra Liga. Sinceramente, acredito que todos têm habilidade e teriam vaga garantida, mas isso infelizmente não aconteceu”, revelou.

“Mas a ida do Alemão já aqueceu esse coração aqui, mostrou pra mim que eu não estava tão errado em acreditar que eles poderiam”, continuou. “Ele foi o primeiro, abriu portas, e agora é a garotada continuar jogando e fazendo a parte deles, que eu com certeza continuarei fazendo a minha, narrando suas jogadas e destacando seus talentos”.