<
>

Dota em 2018: Quebra de tradição e o Brasil fazendo história

Componentes da OG e a Égide dos Campeões - o troféu mais cobiçado dos esports. Valve

Modalidade com a maior premiação do esporte eletrônico, Dota 2 passou por grandes mudanças em seu competitivo nos últimos tempos que culminaram na profissionalização e evolução do cenário.

Apesar de uma retrospectiva falar apenas sobre um ano de algo, o competitivo de Dota 2 começa sempre alguns meses após o The International - o Mundial do jogo. Por isso, neste texto, vamos relembrar o início do Dota Pro Circuit em outubro de 2017 ao TI8, e um pouquinho depois.

Para nos ajudar na retrospectiva, conversamos com João Hugo “Aedrons” Carvalho, narrador de Dota 2 há mais de 5 anos e que hoje faz parte da empresa de transmissões Miss Click TV.

A CHEGADA DO DPC E SUA ALTA DEMANDA

O Dota Pro Circuit, ou DPC, foi anunciado pela Valve em julho de 2017 e chegou como uma promessa de profissionalizar o cenário ao mesmo tempo em que se deixava mais justo os critérios para uma equipe garantir uma vaga no The International.

O sistema incluía uma série de torneios minor e major que valiam pontos de classificação, e foi elogiado por muitos por permitir que regiões mais fracas - como a América do Sul - finalmente tivessem a chance de jogar com os melhores times do mundo.

“O DPC trouxe estabilidade para as equipes”, afirma Aedrons. “Antes, não existia um ‘cenário local’, com exceção das ligas que existem na China e no Sudeste Asiático. Com o DPC, os times tinham uma chance quase que garantida de se enfrentar, sem depender de torneios ocasionais”.

O narrador também afirma que o DPC ajudou na profissionalização do cenário, principalmente na questão de contratações. “O DPC acabou com a bagunça que existia em relação à troca de jogadores em times, e isso profissionalizou o cenário e atraiu grandes organizações”, diz.

No entanto, nem tudo foi positivo. Na temporada 2017-2018, o DPC contou com 22 torneios, o que demandou muito das equipes que competiram neles - principalmente as que eram convidadas diretamente. Aedrons lembra que a Liquid, campeã do TI7, teve até que recusar alguns convites para que os jogadores pudessem descansar e treinar de forma mais efetiva.

Mas, no fim, tudo deu certo. Com exceção de problemas com alterações de escalação que fizeram times perderem os pontos de classificação e da demanda excessiva por conta dos inúmeros torneios, o DPC pareceu funcionar em sua primeira temporada e culminou em um TI8 que foi inesquecível.

BRASIL FAZENDO HISTÓRIA

Como dito anteriormente, o DPC permitiu que regiões menores tivessem garantidas as chances de enfrentar os melhores times do mundo caso passassem nas qualificatórias regionais de cada torneio. Na América do Sul, a paiN Gaming foi a que mais aproveitou essa oportunidade.

Apesar de um início de temporada meio catastrófico até a chegada do mid laner romeno Aliwi “w33” Omar, em abril, a paiN foi evoluindo a cada torneio do qual participava. Foram bootcamps no exterior e disputas difíceis com as melhores organizações de Dota 2 no mundo, além de um objetivo de equipe em comum, que fizeram a paiN chegar ao seu ápice no ESL One Birmingham.

Na ocasião, o time brasileiro chegou desacreditado, mas surpreendeu logo na fase de grupos ao eliminar a Team Liquid e a Vici Gaming para avançar aos playoffs. Muitos acreditam que o time teria chegado à grande final se não fosse o fato de ter precisado enfrentar a Virtus.pro nas semifinais. Como a disputa não foi evitada, a equipe brasileira acabou perdendo e foi à decisão do terceiro lugar contra a Fnatic, da qual venceu de virada e teve seu melhor resultado em toda a história do Dota brasileiro em torneios oficiais da Valve.

Para Aedrons, a conquista do terceiro lugar do ESL One Birmingham foi o momento mais marcante de 2018. “Eles também ficaram em segundo lugar na World Electronic Sports Games, mas o terceiro lugar no ESL One foi mais emocionante e também trouxe mais prestígio aos jogadores brasileiros, que passaram a ser reconhecidos como fortes pela comunidade”, explica.

TI8: QUEBRA DE TRADIÇÃO

Enquanto a Virtus.pro dominou o Dota Pro Circuit ao vencer quatro majors. Enquanto a PSG.LGD crescia como favorita para se tornar a campeã do The International 8, mantendo a tradição de um time chinês vencendo em ano par. Enquanto muitos esperavam o primeiro bicampeonato em um TI com mais uma vitória da Team Liquid ou Evil Geniuses. Nada disso aconteceu.

A grande surpresa do ano de Dota 2 foi a OG. Com a saída repentina de Gustav "s4" Magnusson e Tal "Fly" Aizik para a Evil Geniuses em maio - que, inclusive, culminou no fim de uma amizade de longa data entre Fly e Johan "N0tail" Sundstein, a OG precisou passar pelas qualificatórias abertas e fechadas da Europa para chegar ao TI8.

O time também precisou ser completado por dois jogadores mais inexperientes no competitivo, e isso fez muitos especialistas do cenário duvidarem da capacidade da OG durante o Mundial. Eis que, para a surpresa de todos, a OG conseguiu avançar da fase de grupos direto para a Chave Superior e não perdeu uma série até chegar na grande final.

Na decisão, a PSG.LGD pareceu voltar com sangue nos olhos após ter sido mandada para a final da Chave Inferior, e o público pôde acompanhar uma das séries mais emocionantes do competitivo de Dota 2 até hoje. Foram cinco partidas nas quais os jogadores deram tudo de si, esbanjando habilidade e criando jogadas e viradas. No fim, a OG não largou o osso e foi a grande campeã do TI8, quebrando tradições e faturando aproximadamente US$ 11,2 milhões.

PODERIA TER SIDO MELHOR

Quando perguntamos a Aedrons o que ele acha que poderia ter sido melhor na última temporada do competitivo de Dota 2, ele foi sincero: “o comprometimento da América do Sul”.

“Sinto que o cenário sul-americano não acompanhou a evolução que o DPC proporcionou para a região”, comentou. “Ainda há jogadores que não levam muito a sério o profissionalismo que o jogo e o DPC exigem, tanto no Brasil quanto no Peru. E há organizações que ainda não enxergaram a possibilidade existente de jogar em um minor ou major de Dota”.

É claro que falar de comprometimento no Dota sul-americano é sempre difícil. Como já publicamos em textos anteriores, há problemas de estrutura e falta de incentivo financeiro que impedem um possível atleta de se dedicar apenas a jogar Dota, e há, também, organizações que querem resultados a curto prazo - o que é difícil no esporte eletrônico da América do Sul.

Aedrons lembra que há aquelas que conseguem evoluir apesar de tudo isso, como foi o caso da paiN. No entanto, até ela está passando por problemas em relação à escalação de Dota 2, relacionados a questões contratuais e desacordos com os jogadores (leia mais aqui).

O narrador espera que as coisas melhorem com o novo DPC, que agora inclui duas vagas para a América do Sul em cada um dos cinco majors (o que também já causou problemas este ano quando jogadores norte-americanos disputaram qualificatórias sul-americanas). “É preciso maior profissionalismo, porque estamos vendo um desperdício de potencial na região”, crava Aedrons.

A NOVA TEMPORADA JÁ COMEÇOU

A temporada 2018-2019 do Dota Pro Circuit já começou. Com mudanças que envolvem do fim ao convite direto à diminuição de torneios para apenas cinco majors e cinco minors, o novo DPC já teve duas competições este ano: o minor DreamLeague Season 10, que contou com a participação da peruana Infamous, e o major de Kuala Lumpur, que contou com duas escalações da paiN. Infelizmente, nenhum time sul-americano chegou muito longe nas duas competições.

Além disso, a escalação original da paiN também participou do ESL One Hamburg, em outubro, quando conquistou o quarto lugar. Para 2019, o time está garantido no major de Xunquim, em janeiro, e no ESL One Katowice, em fevereiro.