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Ninja conta como se tornou o maior streamer do mundo - e como continuará no topo

O streamer Tyler "Ninja" Blevins quebrou o recorde de espectadores na Twitch Benedict Evans

EM UMA TARDE QUENTE em Chicago, com o som do baixo do palco mais próximo no Lollapalooza estourando ao fundo, uma dezena de garotos se aglomeravam em uma tenda para ver um jovem desengonçado e pálido com cabelo rosa neon jogar um videogame.

“É o Ninja! É o Ninja! Ele joga Fortnite!”

“Fico imaginando qual tipo de carro ele dirige. Deve ser um Prius... ou uma Ferrari”.

“Jogo Fortnite todo dia, mãe. Meu sonho é jogar Fortnite”.

Tyler “Ninja” Blevins, o objeto da adoração dos garotos, está cansado. É cerca de 1h30, mais tarde do que ele costuma começar a transmitir. “Só quero relaxar. Mesmo quando saímos à noite, é muito cansativo”, diz, antes de ligar a câmera para transmitir-se para milhões. Ao longo do dia, Ninja, de 27 anos de idade, fala sobre seu desejo de ver o show do rapper Logic naquela noite em uma sala sem microfones nem câmeras.

Mesmo com calor e exausto, ele tirou foto com cada garoto que aparecia após cada partida, curvando seu corpo magro para que seu rosto ficasse no mesmo nível que o deles. Alguns garotos eram muito tímidos para pedir uma foto e apenas o admiravam, deslumbrados. Quando isso acontecia, ele se inclinava e dizia: “Ei, cara. Eu gostaria de tirar uma foto com você. Pode ser?”

Benny, o mascote do Chicago Bulls, apareceu para jogar e o presenteou com um uniforme. O fundador do Lollapalooza e vocalista do Jane’s Addiction, Perry Farrell, também deu uma passada no local acompanhado de seu filho de 13 anos. Ninja não foi ao banheiro durante toda a tarde e comeu muito pouco. De vez em quando, ele se virava para sorrir para sua esposa, Jess, sentada pacientemente atrás dele, e em dado momento disse “Eu te amo”. Jess, que é chamada de “Senhora Ninja” por pelo menos um garoto, levou batata frita para o marido e se certificou de que ele tinha água suficiente, atuando como a primeira linha de defesa contra as multidões de adoradores. Não, Ninja não jogaria em equipe com eles. Sim, ele autografaria uma nota de dois dólares, mas só depois terminar a partida.

Cinco horas depois, Ninja desligou a transmissão e desabou em sua cadeira com a língua para fora. Sua folga foi curta. Mais garotos apareceram.

PARA TYLER BLEVINS, este é o verão do “mais”: mais pessoas, mais eventos, mais fama. Em junho, ele estava em Los Angeles para o maior torneio de sua vida, o Fortnite Celebrity Pro-Am, no qual 50 gamers formaram duplas com 50 celebridades para disputar o prêmio de US$ 3 milhões em dinheiro para a caridade. Seu parceiro foi o produtor musical Marshmello, e a dupla jogou contra as estrelas da NBA Paul George e Andre Drummond e o ator Joel MacHale.

No seu quarto no hotel Beverly Hills Four Seasons, já vestido de calça jeans e uma camiseta roxa com seu logo de um guerreiro mascarado, ele deixou seu cabelo colorido (azul naquele dia!) secar antes de estilizá-lo. Enquanto isso, tentou não se irritar com as coisas que uma hospedagem de primeira classe não podem acomodar: “Perdi 15 mil inscritos ontem”, disse. Mesmo sendo a atração principal do evento de celebridades do dia, Ninja estava perdendo inscritos por não estar transmitindo ao vivo pelo Twitch – 40 mil deles, para ser mais exato, ao final dos dois dias em que esteve em LA. Isso significa que ele poderia perder dinheiro na casa nas centenas de milhares de dólares.

Se você nunca ouviu falar em Ninja, pergunte para o garoto de 12 anos mais próximo. Ele ganhou fama em março depois que se uniu a Drake para jogar Fortnite, o fenômeno dos games em que 100 jogadores são jogados em uma ilha e lutam para ser o último em pé enquanto constroem fortes que são usados para atacar e se esconder dos adversários. No seu auge, o jogo de Ninja e Drake, que também contava com o rapper Travis Scott e o receiver do Pittsburgh Steelers, JuJu Smith-Schuster, atraiu 630 mil espectadores simultâneos na Twitch, a plataforma de transmissões ao vivo da Amazon, quebrando o recorde anterior de 388 mil. Desde então, Ninja conseguiu antes o que nenhum outro jogador tinha: uma fama dominante. Com 11 milhões de seguidores na Twitch que continuam crescendo, ele comanda uma audiência com a qual poucos podem sonhar. Em abril, ele registrou a maior quantidade de interações nas mídias sociais em todo o mundo esportivo, batendo atletas como Cristiano Ronaldo, Shaquille O'Neal e Neymar.

Todos os dias, centenas de milhares pessoas se conectam para vê-lo jogar, e ele está lucrando muito com isso. O valor relatado com mais frequência é de US$ 500 mil por mês. Blevins sugere que o número está mais próximo de sete dígitos. A Twitch, que agora possui 2,2 milhões de streamers em todo o mundo, dá aos criadores de conteúdo três maneiras de gerar receita. Como na TV tradicional, há anúncios, e os streamers ganham dinheiro com base em quantas pessoas assistem a esses anúncios. Como na Netflix, também há assinaturas, mas você não precisa se inscrever para assistir. E, finalmente, como nas apresentações de rua, há doações. (A maior doação que Blevins tem lembrança é de US$ 40 mil). Somente das assinaturas, Blevins faz cerca de US$ 300 mil por mês. Isso não inclui seus patrocínios, que incluem Samsung, Red Bull e Uber Eats, ou a receita do YouTube, Instagram e outros sites.

Blevins compara-se ao dono de uma pequena empresa na qual o único produto é o Ninja. Ele pondera todas as decisões para deixar seu computador, como viajar para um evento de celebridades como o Pro-Am em Los Angeles ou mesmo visitar familiares, em relação às repercussões financeiras. “Quando decidimos se vamos a um evento, o pagamento tem que estar lá”, diz ele. “Se não for pago, quanta influência obteremos? Faremos networking? Esse networking vale US$ 70 mil?”. Ao mesmo tempo, há a ameaça constante de perder popularidade. “Quanto mais pausas [os streamers] fazem”, diz, “quanto menos eles transmitem, eles se tornam menos relevantes”.

Uma vez dentro do vibrante estádio do LAFC, onde os 100 competidores se sentaram em fileiras bem arranjadas, ofuscados por uma tela gigante, as coisas inicialmente não foram favoráveis para Ninja. Ele morreu no início da rodada de aquecimento, para a descrença da multidão lotada de adolescentes, jovens de 20 e poucos anos e seus pais. Quando o jogo competitivo começou, sua fé foi restaurada: Ninja eliminou o seu companheiro streamer Jack “CouRage” Dunlop para ganhar o torneio. Ninja saltou da cadeira e balançou os braços esticados para trás e para a frente na dança maluca “pon-pon”, que faz quase diariamente em sua transmissão (é como se fosse sua versão do “dab”). Ele pulou na direção de Marshmello com um enorme sorriso no rosto e o abraçou antes de os dois posarem para fotos com seus troféus de picaretas de ouro. Ninja moveu o seu em direção ao chão, como se estivesse escavando ouro.

APESAR DE SEU SUCESSO como um dos melhores jogadores de Fortnite do mundo (ele era o segundo com a maior taxa de vitórias em 12 de setembro), Ninja está constantemente preocupado de ter atingido o seu máximo. O estresse o atormenta. “Quando não estou transmitindo, tenho tempo para refletir sobre todo o crescimento e não gosto disso. Eu prefiro apenas estar em casa jogando”, diz. “Tipo, eu não jogo contra uma celebridade há algum tempo. Eu não faço algo grande faz um tempo. É porque estou ficando para trás? Quando estou em casa, não há tempo para pensar sobre isso”.

Sua casa fica em um condomínio fechado a cerca de uma hora de Chicago. A família Blevins se mudou para a região em maio para fugir das pessoas que apareciam diariamente em sua casa anterior no subúrbio de Chicago em busca de selfies. Agora, em um bairro onde moram vários jogadores do Chicago Bears, eles ainda recebem alguns visitantes indesejados, garotos que deixam cartas na caixa de correio e fãs que aparecem apenas para admirá-lo. Quando chego à cabine de segurança, pergunto ao guarda de 30 e poucos anos se ele sabe quem é Tyler Blevins. Ele aponta para seu laptop. Está assistindo à stream do Ninja.

Jess cumprimenta os convidados do dia – produtores de TV, fotógrafos e eu, entre outros – na porta de sua casa de um milhão de dólares com os Yorkshires do casal, Chance e Na’vi (sim, como no filme Avatar). Enquanto ela nos mostra a casa, ouvimos um grito alto de vitória do andar de baixo, e alguns de nós olhamos em volta, confusos. Jess mal piscou.

Tyler não podia se juntar a nós até que terminasse sua stream de seis horas. No porão, depois de um bar bem abastecido, uma mesa de sinuca e um alvo de dardos, ao lado de uma mesa de pebolim, ele estava sentado em um dia ensolarado de agosto com uma camiseta e pijama xadrez no espaço mais famoso da casa: sua estação de jogo. Não parecia muito. Um par de telas, uma geladeira cheia de Red Bull, uma confusão de fios. Mas daquele canto modesto, ele ganha milhões cativando milhões.

Ao contrário dos torneios, onde os jogadores disputam vitórias e premiações, fazer transmissões envolve tanto entretenimento quanto vitória. Streamers como Ninja transformam suas vidas em conteúdo, transmitindo seus pensamentos e ações em tempo real. Assista a um streamer tempo suficiente e ele começa a parecer um amigo. Durante uma stream recente, Ninja brincou com um de seus cães em um tom de voz estridente de bebê entre as partidas: “Oh! Oi, minha pequena joaninha. Eu amo que você possa vir me ver a qualquer hora porque não temos portas no porão!”

"Quando não estou transmitindo, tenho tempo para refletir sobre todo o crescimento e não gosto disso. Eu prefiro apenas estar em casa jogando." Ninja

Em um clipe do início de setembro, que arrecadou 5,2 milhões de visualizações no Instagram em dois dias, Ninja se lançou de uma rampa para enfrentar um grupo de três pessoas. Equipado com um rifle de caça de disparo único, ele derrubou uma a curta distância do ar, sem mirar no alvo – um movimento bastante improvável. Ele gritou de alegria antes de conseguir uma segunda eliminação comum, então decidiu tentar o movimento louco novamente, voando e atirando no último cara da mesma forma com a mesma arma. Isso foi como acertar um arremesso de uma cesta de basquete à outra. Em menos de 20 segundos, ele eliminou um esquadrão inteiro por conta própria, enquanto manobrava seu personagem e construía rampas e coberturas. Ele não acreditou no que fez e saltou da cadeira gritando.

“Ele pensa em coisas que outras pessoas não fazem”, diz Jacob “Hysteria” Reiser, um streamer de Fortnite que era companheiro de equipe de Ninja quando os dois jogavam Halo competitivamente. “Ele sempre procura as jogadas chamativas e consegue fazê-las melhor do que ninguém”.

No início deste ano, quando sua fama ainda estava fresca, Blevins estava animado para falar comigo sobre suas novas experiências. O mais legal de ser rico e famoso era poder voar de primeira classe para todos os lugares, ele disse, e a primeira vez que ele e Jess foram assediados por fãs foi no cinema uma semana depois da transmissão com Drake. Alguns meses depois, ele me diz que ele e Jess mal podem sair. “Ir ao shopping, comer fora, ir ao cinema. Essas eram as nossas coisas favoritas para fazer”, diz Jess, 26 anos. “Agora, se saímos, é um festival de fotos sem parar. Nós não temos tanto tempo juntos, então não saímos muito”.

Cerca de duas horas depois da nossa chegada em sua casa, Tyler saiu do porão de pijama. Ele aconchegou Chance e olhou para Jess, que também é sua gerente para coordenar suas tarefas. Ela diz quando ele deve mudar e cortar o cabelo para a sessão de fotos, que amanhã ele precisa limpar o porão, que está cheio de lixo depois de receber seus antigos amigos de Halo para jogar.

Estamos interrompendo a rotina diária de Jess e Tyler. Eles costumam passar meia hora juntos pela manhã, depois ele começa a “streamar”, geralmente por cerca de seis horas, enquanto ela faz ligações de negócios. Eles fazem uma pausa por volta das 4 da tarde antes que ele volte à stream por volta das 8 da noite por mais seis horas. Ele fica off-line um dia por semana, que eles chamam de “date day” [dia de sair], embora recentemente tenham pulado alguns porque ele estava ocupado demais.

Tyler e Jess se conheceram em um torneio de Halo em dezembro de 2010. Ela não sabia muito sobre games, mas se perguntou se deveria pedir a ele uma selfie para o caso de ele se tornar famoso um dia. Anos depois, ela enviou uma mensagem para ele através do Twitter, mas achou que ele nunca responderia porque tinha incríveis 1.000 seguidores. “Pensei que aquilo era muito na época”, diz ela, rindo. (Ele agora tem 3,29 milhões). Eles se casaram em agosto passado e passaram a lua de mel de seis dias no Caribe. Ninja deixou uma mensagem para seus espectadores explicando que ele ficaria fora por um tempo e deixou alguns vídeos para que eles tivessem conteúdo novo durante sua ausência. Foi suas únicas férias em oito anos.

NA FACULDADE, Jess começou a fazer streaming para entender melhor por que Tyler passava horas sem responder às suas mensagens. Um dia depois, ela percebeu como aquilo era trabalhoso. “É fisicamente desgastante, mas também mentalmente, porque você fica lá interagindo o tempo todo”, explica Tyler. “Meus sentidos estão muito mais envolvidos do que se eu estivesse apenas jogando sozinho. Nós não estamos sentados lá sem fazer nada. Eu não acho que alguém entenda isso”.

Ele não prepara piadas ou frases para usar em suas transmissões, mas absorveu tanto conteúdo de filmes, TV e letras de música que eles saem naturalmente de sua língua. (Rick and Morty e Bob Esponja são suas fontes favoritas de material). Mas seu estilo de improvisação o levou ao erro. Em março, ele soltou a palavra que começa com P (“N-word”) enquanto fazia rap em uma transmissão. Ele pediu desculpas no dia seguinte e depois anunciou que iria parar de xingar.

Ninja também tem o dom de imitar os jogadores mais conhecidos com os quais ele se junta em uma transmissão. Quando criança, ele saía do cinema recitando falas palavra por palavra nas vozes dos atores. Ele era tão bom nisso que seus pais tentaram colocá-lo no teatro. Depois de me dizer que seu filme favorito é Interstelar, ele fez uma forte impressão de Matthew McConaughey.

O casal está ciente das armadilhas de trabalhar juntos. Jess muitas vezes tem que deixar claro se está falando com Tyler como sua esposa ou como sua gerente. Quando ela está em conflito consigo mesma, eles buscam conselhos da equipe de apoio de Ninja, que inclui um agente, gerentes da Red Bull e a mãe de Jess. Quando peço a Jess um exemplo de um momento em que precisaram de conselho, ela diz: “Qualquer uma das coisas controversas”.

"Ir ao shopping, comer fora, ir ao cinema. Essas eram as nossas coisas favoritas para fazer. Agora, se saímos, é um festival de fotos sem parar. Nós não temos tanto tempo juntos, então não saímos muito." Jess, 26 anos, esposa de Ninja.

A declaração mais controversa que Ninja fez até hoje foi feita em agosto, quando ele disse a um repórter da Polygon: “Eu não jogo com gamers do sexo feminino”. Seu raciocínio? Juntar-se às mulheres em uma transmissão poderia desencadear especulação na internet e ele queria proteger seu casamento. Para alguns, o instinto dele é bastante romântico, até nobre. A internet é muitas vezes um lugar tóxico onde o anonimato permite que as pessoas liberem suas piores facetas. (Quando Tyler ainda morava com os pais, eles já tiveram a casa cercada pela polícia, com armas apontadas devido a um telefonema). Mas essa toxicidade é especialmente acirrada contra as mulheres, e os esportes eletrônicos são notoriamente dominados pelos homens. Há apenas uma mulher, a jogadora sul-coreana profissional de Overwatch Geguri, que joga nos maiores torneios. O apoio de um homem com a influência de Ninja, especialmente entre crianças, seria um longo caminho para superar as barreiras.

Quando perguntado sobre a controvérsia agora, Tyler fala ainda mais rápido do que o normal e fica um pouco esquentado. Ele diz que se expressou mal naquela entrevista, mas reiterou sua posição. “Esta é minha esposa. Essa é a pessoa com quem jurei passar o resto da minha vida”, afirma. “O fato de que alguém sente que pode julgar como estou protegendo meu relacionamento e tentar tornar isso um assunto político... é sério isso?”

Ele diz repetidamente que não tem problemas com mulheres, apenas com trolls. Na transmissão um-a-um especialmente, onde duas pessoas jogam e conversam por horas a fio, é “muito íntimo de certa forma”, e ele prefere evitar fazer isso com uma mulher que não seja sua esposa. Ele tem planos de colaborar com mulheres populares do Instagram e diz que as gamers mulheres são sempre bem-vindas para jogar com ele em um grupo ou em eventos. Dessa forma, ele pode “controlar mais a narrativa, sem drama e rumores estúpidos inundando nossas vidas”.

Por sua parte, Jess diz que Tyler pode fazer streams com quem quiser e que ela não teve parte nessa decisão, mas acrescenta que rumores sobre ela surgem o tempo todo: “Meu Instagram é inundado com comentários ridículos. Eu posto uma foto com o nosso melhor amigo ou com um cunhado e já dizem: ‘Ela traiu você’”.

Sempre que tem um momento livre no dia, Tyler se deita no sofá ao lado de Jess e dos cachorros. Eles completam as histórias uns dos outros quando estão juntos e, quando separados, contam muito essas mesmas histórias. Tyler diz que a única vez que ele não sente vontade de fazer transmissões é quando Jess não está em casa. “Eu não sei por que estou fazendo streams”, diz ele. “Eu só quero deitar e ficar sem fazer nada, esperando ela voltar”.

SUA CASA FICA perto de onde Tyler cresceu e não muito longe de seus dois irmãos mais velhos, Jonathan e Chris. A família Blevins mudou-se de Detroit para Illinois quando Tyler, a quem a família chama de Ty, tinha apenas um ano de idade. (Ele não esqueceu suas raízes: Fã dedicado do Detroit Lions, ele assiste às maiores jogadas de Barry Sanders para se animar). Na infância, o pai, Chuck, era o gamer, quando jogava no console da Sega depois que seus filhos iam para a cama. Os meninos também jogavam, embora a mãe, Cynthia, estabelecesse algumas regras rígidas. Eles tinham que ter boas notas, conseguir um emprego quando tivessem idade suficiente e, como Tyler se lembra, passar uma hora fora de casa para cada hora que jogassem videogames.

Tyler, que jogou futebol no colegial, era o melhor em todos os videogames que ele experimentava, ao ponto de Jonathan dar um soco em seu braço para tentar vencê-lo. “Ele derrubava o controle e depois ainda ganhava”, lembra o irmão.

Tyler começou a se chamar Ninja por conta de um movimento em um antigo Halo. Ele persuadiu seus pais a deixá-lo ir ao seu primeiro torneio de games aos 17 anos, com a condição de que seu pai fosse com ele. Ele e um elenco rotativo de colegas jogavam e viviam no porão de seus pais, a ponto de Chuck e Cynthia começarem a pedir a alguns dos rapazes que saíssem. Ele se tornou um profissional em Halo e começou a fazer streams em seu segundo ano de faculdade, em 2011, depois de um ano na Silver Lake College, uma escola católica de artes liberais em Wisconsin. Quando começou a ter o que ele chama de “vida confortável”, largou o emprego na Noodles & Company e abandonou a faculdade comunitária para a qual havia se transferido. Quando pergunto o que é necessário para ele se sentir confortável, ele estima entre US$ 80 e 90 mil por ano.

Blevins diz que não sabia o que as transmissões se tornariam quando começou a fazê-las, mas que sempre teve um dom para a próxima grande novidade. Ele entrou no mundo de streams e nos esports quando a Twitch ainda era chamada Justin.tv e os torneios eram improvisados e de baixo orçamento.

“Ele tem a capacidade de ver o que quer e não prestar atenção às distrações”, diz Cynthia. “Há algo dentro dele que lhe permite ver o sucesso além do que uma pessoa normal pode ver porque ele quer isso”.

Esse mesmo conhecimento e disposição para assumir riscos levou-o a ver o potencial do Fortnite antes de qualquer outra pessoa. Enquanto todos os grandes streamers ainda estavam jogando PlayerUnknown’s Battlegrounds, Tyler notou que os fãs em seu chat da Twitch estavam falando sobre uma nova versão do Fortnite que havia sido lançada em setembro de 2017. Percebendo uma oportunidade, ele mudou para o Fortnite no fim do ano passado. Ele não percebera a magnitude do que fizera, afirma: “Não creio que alguém tenha achado que seria possível se dar tão bem com transmissões ao vivo”.

DE VOLTA À CASA DE NINJA, fomos para o que ele gosta de chamar de quarto do Four Seasons, um belo espaço para um chá da tarde, com mobília de pátio e amplas janelas com vista para árvores verdes, frondosas e bem cuidadas. “Apenas perguntas, certo?” Blevins me solicita. “Desde que não haja vídeo, posso relaxar”. Ele cai no sofá, envolvendo seus longos braços em volta de si mesmo. Ele fecha os olhos para absorver o brilho do sol, parecendo tão pacífico que hesito em quebrar o silêncio.

Ele está sempre à procura da próxima grande coisa. Ninja é tão ligado ao Fortnite que é difícil imaginar sua popularidade sobrevivendo à mudança, mas ele diz que não vai deixar que isso o impeça. Ele tem sido tão bom por tanto tempo que está confiante de que pode dominar o que vier a seguir também. “Eu posso competir totalmente no mais alto nível em todos os jogos que eu jogo”, garante ele.

Sempre haverá outro jogo. Se não melhor, então simplesmente mais novo. De fato, Ninja começou a transmitir a versão beta do battle-royale do novo Call of Duty, chamada Blackout, na sexta-feira (14) para um pico de 271 mil espectadores, e anunciou no dia seguinte que participará de um torneio do novo jogo na convenção anual da Twitch em outubro.

Como ele fica tão bom? Dica de profissional: Não só jogue, treine. Ninja compete em cerca de 50 jogos por dia e analisa todos. Ele nunca se cansa disso. Toda derrota o atinge com força. Hipercompetitivo, ele se certifica de conseguir pelo menos uma vitória por dia. (Ele consegue cerca de 15 vitórias em média, e uma vez conseguiu 29 em um único dia.)

“Quando eu morro, fico muito chateado”, revela. “Você pode jogar todos os dias, você não está treinando. Você morre e, bem, vai para o próximo jogo. Quando você está treinando, você está levando cada jogo a sério, então não tem desculpa quando você morre. Você pensa: ‘Eu deveria ter virado aqui, eu deveria ter forçado lá, eu deveria ter recuado’. Muitas pessoas não fazem isso”.

"Muitas pessoas ficam satisfeitas. Muitas pessoas param quando estão no topo. Eles deixam alguém tomar o seu lugar porque estão relaxando. Isso não vai acontecer comigo." Ninja

Ainda assim, o público é inconstante, então Ninja não lhes dá uma desculpa para parar de assisti-lo. Apesar de sua nova riqueza e fama e das exigências de seu tempo dos patrocinadores, eventos e outros acordos – incluindo uma loja de merchandise oficial do Team Ninja lançada em meados de setembro –, ele faz o melhor para alimentar a fera. “Muitas pessoas ficam satisfeitas. Muitas pessoas param quando estão no topo”, afirma, sua voz ficando cada vez mais intensa. “Eles deixam alguém tomar o seu lugar porque estão relaxando. Isso não vai acontecer comigo”.

Mas o que ele faria se pudesse tirar uma semana de folga, sem perder inscritos e sem repercussões? “O que não faríamos?”, diz com um suspiro. “No primeiro dia, não faríamos nada. Apenas comeríamos um monte de besteira, assistiríamos TV, iríamos ao cinema, comeríamos um monte de pipoca e doces. No segundo dia, viajaríamos para algum lugar, qualquer lugar. Eu ouvi que a Jamaica é maravilhosa. Nós ficaríamos sentados lá e beberíamos piñas coladas na praia”.

Ele será capaz de fazer isso algum dia? Certamente nada disso vale a pena se ele não puder aproveitar. “Eu seria um idiota se fizesse isso agora”, explica ele categoricamente. Jess diz que Tyler não gosta de falar sobre os planos para daqui cinco anos ou o que o futuro reserva, mas quando pressionado a dizer por quanto tempo ele vai continuar, responde:

“Até que minha família esteja bem cuidada. Digamos que isso termine amanhã, não temos o suficiente para o resto de nossas vidas. Eu falo para a Jess: ‘Querida, não vamos ter tanto tempo de qualidade este ano, ou mesmo no próximo ano. Mas se fizermos isso direito e continuarmos a nos esforçar por mais alguns anos, podemos nos garantir, assim como a nossa família e a família de nossa família, pelo resto de nossas vidas’”.

NA TERCEIRA noite de Lollapalooza, depois de dias de transmissões e assédio dos fãs, Ninja decidiu sair disfarçado à noite. Ele vestiu os grandes óculos de sol da Louis Vuitton de Jess, escondeu o cabelo rosa debaixo de um boné do Chicago Bulls e atravessou a multidão pela Michigan Avenue sem ser notado, apenas mais um rosto nas ruas festivas. “Está funcionando! Está funcionando!”, diz alegremente.

Eles entram no hotel e lá está, o primeiro grito de reconhecimento: “Ninja!”

Jess e sua equipe imploram por silêncio. Eles estão apenas tentando ir para o quarto. Mas isso não funciona. A multidão, jovem, bêbada e queimada pelo sol, percebe. Uma centena de telefones se elevam no ar, os gritos de “Ninja! Ninja! Ninja!” reverberando pelo saguão de mármore.

Eu tinha me separado de Ninja horas antes. Ele queria um pouco de privacidade para aproveitar o show do Logic. Mas eu não precisei estar lá para testemunhar essa cena. Eu vi o que aconteceu ao lado do resto do mundo naquela noite em um vídeo que ele postou nas redes sociais, com a legenda “0Trying to sneak out of @lollapalloza day 3! Mission failed” [Tentando fugir do @lollapalooza dia 3! Missão fracassada].

Mesmo enquanto está tirando uma folga, ele mantém a câmera ligada. Conteúdo é tudo.