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Perfil: Depois de 10 piores meses da vida, horvy recomeça na "super família"

Horvy defendeu a Immortals entre setembro de 2017 e agosto de 2018, mas atuou em poucas oportunidades. Reprodução/Hulu

João Matheus Rodaczynski Horvath ainda não conquistou muita coisa em sua carreira como jogador de Counter-Strike: Global Offensive. Aos 19 anos, porém, ele é uma das figuras mais conhecidas da comunidade brasileira por seu azar.

Aos céticos, que não acreditam que essas coisas existem, imagine um jogador que quase teve de abandonar sua carreira promissora para se mudar de país; perdeu a chance de defender um dos melhores times do mundo por conta do visto norte-americano; viu o mesmo time ser desmanchado duas semanas após sua chegada; ficou 10 meses preso em um contrato vendo ofertas serem rejeitadas; teve a chance de jogar para milhares no Mineirinho e viu o contratante mudar de ideia nos últimos 10 minutos.

Esse é João. Esse é horvy. A jovem promessa da CNB. O estopim da explosão de uma Immortals vice-campeã mundial. O capitão da “super família” n0tag.

A PRIMEIRA DERROTA A GENTE NUNCA ESQUECE

Horvy começou sua carreira (semi) profissional “mais para o fim de 2015”, como o mesmo diz. Ao lado do “amigo que virou irmão” Matheus “neozin” Alberto, ele disputou torneios online e locais poucos meses depois de começar a jogar CS:GO.

“Comecei a jogar no meio do ano e evolui muito rápido. Lá por novembro ou outubro já estava jogando as ligas. Montei um time com os amigos e fomos jogar a Liga Razer. Vencemos a primeira e na segunda já enfrentamos a Dexterity de coldzera e Taco”, lembra horvy.

“Nós perdemos e foi aí que eu vi que queria melhorar. Melhorar para ganhar desses caras um dia. Eu me motivei”, continuou.

Depois do início, veio a indecisão.

“O comecinho de 2016 foi meio difícil, pois eu não sabia o que queria. Era muita promessa, eu perdi um pouco de dinheiro por não pagaram premiação e essas coisas, o que acontece muito hoje em dia. São promessas e promessas, mas as organizações são uma mentira”, contou horvy.

Depois de se decidir, ele foi chamado pelo treinador Bruno “Sllayer” Silva para fazer parte da NeedJobs, uma equipe ainda em formação. Depois de poucas semanas no quinteto, ele encarou seu primeiro grande desafio: a CNB.

BRIGA NA CNB, DECEPÇÃO NA INTZ

O período nos Blumers não foi tranquilo para horvy. Empolgado com a oportunidade de defender uma organização profissional pela primeira vez, ele não pensou duas vezes antes de substituir Clemente "leon" Tegazzini na escalação, em junho de 2016.

Depois de um mês na equipe, porém, os problemas começaram a acontecer. Com a possibilidade da família se mudar para Portugal, horvy não conseguiu passar a segurança que os companheiros de CNB queriam.

“Era para eu me mudar para Portugal e eles decidiram me tirar do time, pois eu já tinha data de validade para sair. Na época fiquei triste, mas depois entendi. Até rolou umas brigas comigo e com o guerri, porque eu acabei demorando para ir em Portugal e tentei voltar para o time depois”, contou.

Poucos dias depois e com a ida à Portugal adiada, horvy foi contratado pela INTZ. Pensando em poder contar com a estrutura intrépida para poder viver no Brasil enquanto seus pais estavam na Europa, ele se decepcionou.

“Foi um período meio estranho. Eu fui para a gaming house deles, a gente dormia os cinco jogadores no mesmo quarto e a sala dos PCs era bem apertada. Não era a estrutura que eu esperava, talvez eu sonhei alto demais”, afirmou.

“Acabei de machucando quando fui para lá, arrebentei meu tendão fazendo academia e fiquei um mês parado. Lembro que o Shoowtime chegou para completar no meu lugar para a final da BPL, mas poucos dias depois foi chamado para a SK”, lembrou o jogador.

“Me ofereci para jogar [as finais presenciais da BPL] machucado, na base de remédios e com 5 de sensibilidade. Consegui ajudar um pouco o time, chegamos nas finais e quase ganhamos da g3x. Acho que se não tivéssemos vacilado muito, poderíamos ter vencido. Se eu estivesse na melhor forma, tanto física quanto mental, teríamos ganhado”, cravou.

Apesar disso, horvy teve experiências positivas naquele tempo. “Joguei com cogu, que era um ídolo para mim. Ele me buscou no aeroporto e disse que ia ser meu padrinho no CS, foi uma honra. Joguei com Khtex, um cara muito divertido e excelente de se ter no time”.

PASSAGEM PELA REMO BRAVE E ADEUS DO BRASIL

Ainda sem viajar para Portugal, horvy deixou a INTZ para jogar pela Remo Brave, ao lado de seus ex-companheiros de NeedJobs. Lá, conseguiu entrar de vez no radar das grandes equipes e teve um período sólido de destaque. Apesar disso, não havia muitos benefícios.

“Foi outra organização meio estranha. Parecia ter muito apoio, mas a gente não recebia um centavo de salário. Nessa época a gente estava entre os melhores do Brasil. No Intel Gaming Challenge, jogamos muito bem e achávamos que íamos pegar a g3x na final”, lembrou.

“Acabou que começamos bem, lembro que joguei bem e estava com o melhor rating, não que eu me importe muito. Vencemos Team One, Big Gods, mas acabou que, nos playoffs, dois jogadores brigaram por motivos bobos para caramba e isso meio que acabou com o time. Nunca mais fomos os mesmos. Ninguém conseguia se olhar, pois sabiamos que tinhamos perdido a lan”, explicou.

Na ocasião, a Remo Brave foi eliminada pela INTZ na semifinal e, posteriormente, perdeu para a g3nerationX de Lucas “steel” Lopes, Bruno “bit” Lima e Vito “kNg” Giuseppe, ficando na quarta colocação.

Antes de partir para a Terrinha, horvy ainda defendeu a TShow - pela qual ele mostrou muito carinho e foi só elogios. Em dezembro, porém, ele deixou o Brasil para finalmente se mudar com o restante da família em Portugal.

DO “FIM DA CARREIRA” AO DOMÍNIO LOCAL

“Achei que minha carreira tinha acabado ali”, desabafa horvy. Quando se mudou para Portugal, o jogador de até então 18 anos achava que não conseguiria continuar jogando em um nível profissional na Terrinha.

“Ia só ficar jogando por me divertir em Portugal e estudar lá, achei que não ia virar mais nada e eu teria que voltar pro Brasil para competir. Mas, eu não queria isso naquele momento”, lembrou.

Foi aí que ele conheceu seus futuros companheiros e passou a integrar a escalação da k1ck eSports Club - a organização mais tradicional de Portugal.

“Tive contato com o pessoal. Mutiris, RMN, Killdream. Montamos a escalação para a k1ck, fizemos algumas mudanças. Comecei a jogar de AWP e fomos bem online. Depois, perdemos uma final presencial para a Space Soldiers por muito pouco”, lembrou.

Depois de um breve hiato na esperança de se juntar à Immortals, horvy e seus companheiros portugueses seguiram seu domínio em solo ibérico.

“Ficamos quase oito meses sem perder em Portugal. Acho que na última semana do time nós perdemos um campeonato. Mas o time já estava acabando e jogamos desanimados, sem treinar”, lembrou.

A PRIMEIRA CHANCE NA IMMORTALS E VISTO NEGADO

O pequeno hiato citado anteriormente é por conta da primeira grande polêmica da carreira de horvy. O jogador foi selecionado para um teste na Immortals, para atuar na vaga deixada por Lincoln “fnx” Lau.

“Eu lembro até hoje, quem me chamou foi o boltz. Ele falou que queria me testar e eu aceitei prontamente. Fizemos o treino e eles gostaram de mim. Falaram para eu ir atrás do visto, tentei duas vezes, mas não consegui. Eu era muito novo, não tinha dinheiro e coisas do tipo, era muito difícil”, contou.

Com a rejeição da documentação, o jogador foi preterido por kNg - outra opção da equipe -, por conta da proximidade do minor americano.

NADA DE SEXTO JOGADOR

Apesar da negativa em maio, as portas de horvy continuaram abertas na Immortals, principalmente por sua ótima relação com o proprietário da organização, Noah Whinston. Em agosto, quando a escalação vice-campeã mundial deu sinais de ruptura, ele foi acionado novamente.

As negociações entre Immortals e horvy não agradaram aos jogadores, em especial a kNg, que afirmou que contratar um sexto jogador era “um tiro no pé”. Descontente, ele, Henrique “hen1” Teles e Lucas “lucas1” Teles sinalizaram o desejo de deixar o time.

“Nunca me falaram que eu seria o sexto jogador, existiam planos para eu entrar no time. Meio que falaram que eu poderia ficar um tempo como sexto, mas eu tinha planos para virar titular, pois havia jogadores com problemas. Acertei contrato e tudo mais com o Nick [Phan, gerente geral da Immortals na época], dei entrada no visto P1 [destinado a esportistas profissionais]. A gente foi conversando e tudo foi se ajeitando”, contou.

Horvy também destacou que sua contratação não foi o problema e ele, inclusive, ficou assustado com as notícias da saída de kNg, hen1 e lucas1.

“Minha contratação não foi o problema. Era algo que já estava lá. Não sei também o que aconteceu, só sei que não tive culpa [do desejo de saída do trio]. Fiquei meio assustado, acho que faltou comunicação melhor entre a Immortals e os jogadores. Para mim, todo mundo sabia que eu estava sendo contratado e, quando saíram as notícias, aquilo me assustou”, explicou.

IMPLOSÃO DA EQUIPE

A permanência do trio após a polêmica não atrapalhou a contratação de horvy. O jogador seguiu buscando seu visto de trabalho e, depois dos acontecimentos da DreamHack Open Montreal, finalmente viu sua oportunidade aparecer.

Anunciado no fim de setembro, horvy se mudou para os Estados Unidos para se juntar a Ricardo “boltz” Prass e steel. Com ele, vieram os novos companheiros Lucas “destinyy” Bullo e Caio “zqk” Fonseca. Tudo pronto para recomeçar? Nada disso.

“Eu acho que quando cheguei, o time estava melhorando. Tínhamos problemas, o zqk estava treinando do Canadá e estava difícil de treinar certo. Estava difícil criar uma boa estrutura por trás, a situação era meio complicada, mas havia evolução”, lembrou.

A “pá de cal”, porém, veio com a saída de boltz - que foi substituir João “felps” Vasconcellos na SK Gaming.

“Quando boltz saiu eu percebi que ia ficar muito difícil se recuperar do que estava acontecendo. Já tinham rumores do steel na Liquid, foram vários fatores que fizeram isso acontecer. Eu fiquei duas semanas jogando e também não estava na minha melhor forma. Estávamos em decadência. O maior baque foi quando soubemos que não jogaríamos a IEM Oakland, foi ali que meio que acabou o time”, relembrou.

OS DEZ PIORES MESES DA VIDA

Ao lado do treinador Rafael “zakk” Fernandes, horvy foi um dos únicos sobreviventes da implosão e do fim temporário do investimento da Immortals no CS:GO. O jogador permaneceu por um bom período treinando nos Estados Unidos e aprendeu a lidar com uma grande frustração.

“Fiquei chateado. Estava jogando muito longe do meu melhor, tinha noção disso e via a cobrança de fora, mesmo que não me importe muito. Eu sou a pessoa que mais me cobra e não existe pressão maior do que a minha própria”, revelou.

“Eu não estava numa boa fase e tudo que estava acontecendo não me ajudava. Você nunca sabia o que ia acontecer, era difícil. Não era algo fácil de contornar como jogador e nem como pessoa. Era frustrante estar jogando mal e era frustrante saber que minha oportunidade estava acabando. É a trajetória mais curta de alguém em um time profissional”, desabafou horvy.

Dali em diante, o jogador se concentrou em melhorar seu desempenho individual, mas sofreu com a solidão.

“Provavelmente foram os 10 meses mais triste da minha vida. Tive que me controlar psicologicamente, pois eu não tinha mais meus companheiros e só eu estava na casa. Eu pedia comida, saia para jantar, tudo sozinho. Não existia time, era só eu. Era meio depressivo”, lembrou.

“Não conseguia sair, estava preso no contrato. Via oportunidades passarem por multa, por outras questões que não posso mencionar”, continuou horvy.

“Mas agradeço muito ao Noah pela oportunidade. Eu li o contrato três vezes antes de assinar, eu sabia o que estava acontecendo, mas não imaginava que o time ia durar só duas semanas. Eu não me arrependo, foi uma oportunidade válida”, destacou.

AS PROPOSTAS E O “QUASE” DA FAZE

Durante esse período, horvy contou que recebeu algumas ofertas - até mesmo do Brasil -, mas os negócios não deram certo por várias questões. De acordo com o jogador, sua multa rescisória “não era absurda”, mas, para as equipes, era mais fácil escolher um jogador sem contrato.

“A Ghost teve um interesse real em mim, treinei e joguei com eles, quase fechamos. A multa acabou barrando, eles não queriam pagar nada”, relembrou.

“Na Imperial, eu seria testado por duas Dreamhacks. Acabou que a pedida da Immortals pelo empréstimo foi um pouco alta demais para eles, então optaram por pegar um jogador livre de contrato”, explicou horvy.

Apesar das negociações problemáticas, horvy disse que não culpa Whinston: “Gosto muito dele e espero trabalhar com ele novamente no futuro. Foram experiências, oportunidades passadas”, contou.

Outra oferta que balançou o jogador foi a de empréstimo para a FaZe Clan. Horvy foi escolhido pela equipe para ocupar a vaga de Olof “olofmeister” Kjabjer na ESL One Belo Horizonte. Além de defender um dos melhores times do mundo, ele iria jogar diante do público brasileiro. Não deu.

“Já estava tudo certo, o Noah já tinha assinado, eles já tinham as passagens. [O cromen] acabou vindo para o Brasil. Ele já tinha jogado a ECS e já estava inscrito na ESL One Cologne. Eu estive a dez minutos de assinar o contrato”, lembrou.

“Mesmo que não tenha acontecido, foi legal. Ver o NiKo me mencionando em entrevista me mostrou que eu estava no caminho certo. Vi jogadores que admiro para caramba tendo respeito por mim, é algo muito legal”, completou o jogador.

UMA SUPER FAMÍLIA

Depois de tantas tempestades, a bonança veio. Depois de três anos sofrendo com decepção e azar na carreira, horvy recebeu sua chance de ouro: vai liderar a escalação da n0tag, formada pelos ex-jogadores da Não Tem Como.

“A oportunidade com eles veio uma ou duas semanas atrás, um pouco antes de acabar meu contrato. Conversei com Apoka e felps e me perguntaram o que achava de ser capitão, eu topei. Eu escuto muito, tenho uma cabeça boa, sou um cara calmo”, contou.

Nos primeiros treinos, horvy já tem se sentido confortável na nova função - que nunca exerceu na carreira. “Acho que estou fazendo um bom trabalho e acredito que esse vai ser meu papel mais importante dentro do jogo até hoje. [Ser capitão] não influencia muito no meu jogo, acho que mantenho um bom nível. Estamos treinando para organizar e estruturar o time”, contou.

“Não quero um time robótico, mas também não quero um time que seja solto igual a NTC era. Estou tentando incrementar um estilo legal e espero que a galera veja bons resultados”, explicou o jogador.

Além de um time estruturado taticamente, horvy está tentando transformar a n0tag em uma “super família”.

“A convivência tem sido um ponto forte do time. Muita gente achava que eu era brigado com o kNg, mas a verdade é que a gente nunca conversou direito. Ele me surpreendeu muito, é um cara família, muito parceiro. Chelo e xand são muito divertidos, até palhaços em vários momentos. Felps é um irmão para mim e não tenho problema algum de conviver com ele”, destacou.

“Todos se respeitam, me respeitam como capitão e gostaram do que eu trouxe como líder e como pessoa. Acho que esse time tem muita coisa pela frente. A convivência é essencial e estamos se transformando numa super família. Com certeza teremos bons resultados no futuro”, finalizou.

O recomeço de horvy e a estreia da n0tag acontecerá durante o qualificatório online da IEM Chicago.