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Em clube onde só eram permitidos homens até 2012, mulheres fazem final de torneio amador de golfe

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Na última quarta-feira (3), teve início um dos torneios de golfe mais esperados do ano, se não das últimas décadas, na comunidade do esporte.

O clube de golfe mais famoso do mundo, o Augusta National, localizado na Georgia, Estados Unidos, anunciou no ano passado que realizaria o primeiro torneio de golfe amador feminino: o Augusta National Women’s Amateur (ANWA).

Quando as jogadoras entraram no Augusta National, deram uma tacada icônica num dos maiores símbolos da segregação de gênero do esporte.

Este campo, do qual somente 300 sócios podem fazer parte pagando uma taxa de U$ 250 mil na entrada (somente por convite), é sede do Masters, um dos eventos mais importantes do golfe profissional no mundo e um dos quatro majors da modalidade que, neste ano, será realizado uma semana depois do ANWA.

Mas, para compreender um pouco da importância do evento, é importante voltar um pouco na história.

O Masters foi criado pelo legendário Bobby Jones (o ‘Tiger Woods’ dos anos 30) e o investidor Clifford Roberts.

Jogado pela primeira vez 85 anos atrás, em 1934, o Masters é especial pois além de ser um evento com um número reduzido de jogadores, eles são sempre convidados do Augusta National Golf Club e atrai milhares de espectadores todo ano à cidade de Augusta.

Cheio de tradições, este evento é uma máquina de dinheiro que acontece somente uma vez ao ano, mas é muito esperado pelos amantes do golfe.

O torneio possui várias tradições especiais: sua própria música, tee shot honorários pelos antigos vencedores, o "Champions Dinner" e o tradicional paletó verde, prêmio que o vencedor recebe, além de um cheque no valor aproximado de US$ 2 milhões e a fama que ser vencedor do evento acarreta.

O paletó, infelizmente, deve ser devolvido ao clube um ano depois da vitória. E, apesar de ser de sua propriedade, este fica guardado com os outros paletós dos vencedores numa espécie de museu do clube.

O Augusta National foi um clube exclusivamente de sócios homens até 2012, quando admitiu a primeira mulher, a ex-secretária de Estado, Condolezza Rice, e Darla Moore, uma empresária da Carolina do Sul.

Desde então, dentre 300 sócios, foram admitidas apenas duas mulheres. Alguns dizem que o clube acabou abrindo suas portas às mulheres graças a muitos protestos, processos legais e boicotes de associações como o National Council of Women’s Organizations.

"O ANWA marca um pequeno passo em direção ao progresso, mas ainda assim é um golpe de relações públicas. Continua sendo um clube do Bolinha”, disse Marta Burk, ativista que lutou contra a segregação no Augusta.

Deixando a polêmica de lado, o ANWA está atraindo não só publicidade para o Augusta, mas mídia para jogadoras amadoras do mundo inteiro que esperam um dia se tornar profissionais.

O grupo de 72 atletas selecionadas, baseado no Ranking Mundial Amador, é composto por 25 nacionalidades diferentes com idade média de 19.6 anos.

Estas jovens golfistas nunca acharam que teriam a chance de disputar um torneio no lendário palco do Masters, pelo menos no dia da final: infelizmente o campo não foi aberto para os quatro dias da competição, apenas para uma ronda de treino aberto para as 72 jogadoras na sexta-feira (05) e para a final, que aconteceu no último sábado (06).

Os jogos dos outros dias foram realizados em um campo vizinho, o Champions Retreat Golf Club. Entradas esgotadas, cobertura da NBC, uma nova melodia composta para o evento, um troféu de ouro e prata desenhado pela Tiffani’s & Co (sem paletó verde para elas) e a chance de entrar para a história fazem deste evento um momento especial na vida destas jovens atletas.

No sábado 4 jogadores que estão no “Hall of Fame” do golfe deram a tacada inicial: Nancy Lopez, Lorena Uchoa, Se Ri Pak e Annika Sorenstam. Uma alegria que mulheres antes delas não puderam experimentar por mais de 80 anos.

O corte ocorreu na sexta feira em 3 acima do par e somente 30 jogadoras passaram para a final no tão sonhado Augusta National onde aconteceu pela primeira vez num evento competitivo feminino, desde a inauguração em Dezembro de 1932.

Uma das grandes críticas ao evento foi o fato de as atletas terem somente uma chance de fazer o reconhecimento do campo. As jogadoras precisaram encontrar caddies locais para a volta final, dispensando o caddie dos outros dias, e se aclimatar com a velocidade dos greens somente uma vez.

Isso com certeza dificultou a vida delas, pois para quem conhece o golfe, o caddie é uma parte essencial da equipe como é o coach. Ele não só carrega a bolsa, mas aconselha o jogador nas jogadas e lhe passa segurança. O Augusta foi jogado com par 72, igual ao Masters, com redução apenas da jardagem como exigem as regras.

DOMÍNIO AMERICANO

O torneio foi inteiramente dominado pela americana Jennifer Kupcho (21), atual numero 1 do mundo no WAGR (World Amateur Golf Ranking). Kupcho foi a jogadora a dar a primeira tacada no torneio e esteve no último grupo a finalizar.

A vencedora do NCAA Championship no ano passado saiu pelo buraco 10 e fez birdie no 11, 17 e 1 para finalizar com um score total de -10. A segunda colocada, a mexicana Maria Fassi se manteve muito próxima durante o torneio inteiro, apenas uma atrás de Kupcho no penúltimo dia, mas uma volta final cheia de bons e maus momentos, acabou finalizando T2 com - 6.

Yuka Saso das Filipinas ficou com o terceiro lugar com -3. O que podemos aguardar nos anos que se seguem? Talvez jogar os quatro dias do torneio no Augusta National, ou quem sabe um Masters Feminino. O êxito nas vendas e a mídia gerada provaram que golfe feminino atrai público sim.

Pelo menos quando é jogado no campo do Masters. A igualdade de gênero no esporte é uma engrenagem que se move devagar, mas pelo menos não está mais parada.

*Africa Madueño Alarcon é diretora para América Latina da Bishops Gate Golf Academy