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Rainha da África, Thembi Kgatlana já encarou o Brasil, venceu homens e mulheres e derrubou potência

Das mãos de Drogba, Thembi Kgatlana recebeu o prêmio de Melhor Jogadora Africana do ano. Seyllou

“Eu tenho um significado do porquê eu jogo futebol. Esta é a razão pela qual acordo todos os dias. Para estar apta a inspirar alguém que, jogando futebol ou outro esporte, possa me ver jovem, querendo e conquistando cada vez mais!"

Essa é uma fala de Chrestinah Thembi Kgatlana, 22 anos, nascida em Mohlakeng, uma pequena cidade no Oeste de Johanesburgo. Seu pai, mãe e dois irmãos continuam morando na África do Sul, enquanto Thembi, seguiu seus sonhos e trocou o diploma de Turismo para jogar na maior liga de futebol feminino do mundo.

Aos 8 anos de idade, a sul-africana se interessou pelo futebol em uma conversa na escola. Nada diferente de outras garotas, ela foi “permitida” a jogar com os meninos. De uma forma difícil, ela jogava em um campo na beira da estrada.

Hoje, a estrela da seleção da África do Sul defende o Houston Dash na liga norte-americana de futebol. Comandada por Vera Pauw, ela não economiza elogios ao falar sobre a técnica. “Ela está sendo ótima para mim. Não sei o que as outras pessoas pensam, mas ela não olha apenas para jovens. Ela vê o talento nas pessoas até que ela atinja seu limite”, disse em entrevista – “Ela veio da Holanda e traz experiências que nós não temos”. Em 2016, ela esteve no Brasil para a disputa da Rio-2016, quando a África do Sul conseguiu um empate com a seleção brasileira na Arena da Amazônia, sem Marta.

O fato de ela não ter vencido o CAF Awards no ano passado a inspirou a ir melhor na última temporada para vencer nessa. “Falei para mim mesma que jogaria melhor em 2017. Eu continuei trabalhando não apenas para vencer o CAF Awards, mas para crescimento pessoal como uma jogadora porque esse é meu primeiro ano como profissional e tenho visto muitas coisas positivas. ” E deu certo.

PEQUENA NOTÁVEL

Ontem, a “pequena notável” de 1,54m de altura, tornou-se a Rainha da África. Ela foi escolhida como melhor jogadora do continente, desbancando as nigerianas Francisca Ordega e Asisat Oshoala, que já havia vencido o prêmio três vezes. Ela se tornou a segunda sul-africana a vencer o título concedido pela Federação Africana de Futebol.

Mais que isso, ela venceu a disputa de melhor gol africano de 2018, entre homens e mulheres. O gol da atacante contra a Nigéria, durante a fase de grupos da Copa Africana das Nações, foi escolhido o mais bonito da temporada por voto popular.

E não para por aí. No ano passado, ela foi a melhor jogadora da Cyprus Cup. Na Copa Africana das Nações, embora a África do Sul tenha ficado com o vice-campeonato, ao ser derrotada nos pênaltis pela Nigéria, ela anotou gol em todos os jogos e foi não apenas a artilheira do torneio, como a melhor jogadora. O resultado garantiu pela primeira vez a participação da África do Sul na Copa do Mundo, que divide o grupo com China, Espanha e Alemanha.

DESIGUALDADE DE GÊNERO

Vinda de família e lugar humilde, Thembi Kgatlana conta que atualmente, consegue ajudar os pais e irmãos com o dinheiro do futebol, mas também acredita que uma das grandes dificuldades da modalidade é conseguir patrocínios. “É só olhar para Bafana Bafana e para nós”, comparou com a seleção masculina do país, “a diferença é clara e ainda assim, mesmo as mulheres sendo menos valorizadas que os homens, somos comparadas a eles”. Em entrevista para O Globo, ela não economiza palavras para criticar a desigualdade de gênero: "Com maior frequência entregamos resultados muito melhores do que eles. E ainda assim vemos desigualdade de gênero? Precisamos mudar nosso pensamento".

Acostumada a vestir calças confortáveis no lugar de vestidos, assim como se apresentou no CAF Awards, ela destaca o julgamento de pessoas e de ser comparada a homens, mas confessa que sua cabeça mudou: “As pessoas me julgam na rua por não usar ‘roupa de mulher’, mas me sinto confortável usando calça. Antes eu não via isso muito bem, mas o tempo passou e eu sei que posso viver da forma que quiser”.

Com muita personalidade, ela também ressalta os episódios de machismo no futebol, como aconteceu com Ada Hegerberg ao receber a Bola de Ouro. "Falando com sinceridade, por que as mulheres sempre têm de ser oprimidas? Não apenas nos esportes, mas na vida de modo geral. Por que todas as regras e regulações encurralam as mulheres e limitam seu potencial?", questiona ao O Globo.

A ORIGEM SUL-AFRICANA ESTÁ NO SANGUE

O fato da jogadora atuar na maior liga de futebol do mundo não a faz esquecer suas origens. Toda vez que vai visitar os pais em sua terra natal, faz questão de jogar futebol no campo onde começou, mesmo que não seja o lugar ideal. E toda vez que chega, ela leva uma bola extra para deixar com seus colegas de infância.

“Isso me inspira a continuar” – diz Thembi – “Antes eu me inspirava em grandes jogadores e hoje, eu inspiro pessoas. Sempre digo aos meus vizinhos que é possível vir dessa vila e jogar em grandes ligas”, completa a jogadora, que confessa adorar reencontrar as pessoas que conviveu na infância, principalmente por receber apoio e admiração.

Sua maior inspiração no futebol é Mpumi Nyandeni, meio-campista da seleção de 31 anos. Alguém que ela sempre via jogar, hoje é, além de companheira de equipe, uma grande amiga. Dividindo-se entre a seleção sul-africana e o time americano, ela realmente acredita poder contribuir com as Banyanas com experiências trazidas dos Estados Unidos.

Jovem e cheia de ambições, a melhor jogadora do continente africano afirma que um dos seus maiores desejos é jogar a UEFA Women’s Champions League e balançar as redes na Copa do Mundo. A jogadora reconhece suas realizações: “Estou vivendo um sonho com 22 anos”, finaliza Thembi.